Associação Rede Rua
Menu Principal
Principal
+ de UMinuto (Vídeos)
Rádio de Esperança
Galeria de Fotos
Tá na Rede
Contato
Pesquisar
Projetos da Rede
Rede Rua Comunicação
Pousada da Esperança
Núcleo Santo Dias
Refeitório Comunitário
Moradia Provisória
O Trecheiro
Edições Anteriores
Assine O Trecheiro
DVDs Rede Rua
Curso de Verão 2008
Carlos Mesters
Fé e Política

“Parabéns pela cidade limpa”: higienismo e fascismo social da população em situação de rua
20-07-2007
higi_centro.jpgPor Rose Barbosa   
Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo

Toda a arrogância e soberba do fascismo social brasileiro, paulistano e rico vieram à tona na última semana: sem rodeios, sem máscaras, em alto e bom som: “Quer mais degradação [ambiental] do que o emporcalhamento da Biblioteca Municipal Mário de Andrade? Ou gente que dorme, urina e lava roupa em plena praça Ramos de Azevedo, nas barbas do Carlos Gomes?”. Esta frase fascista não foi pronunciada em embate público acalorado entre cidadãos ou em recinto fechado, reduto dos responsáveis pelo apartheid social da classe A nos Jardins da capital. Antes, foi uma frase ipsis literis escrita por um empresário rico e influente no editorial de um jornal de circulação nacional no Brasil.
O empresário, Antônio Ermírio de Moraes, o jornal, a Folha de S.Paulo (Editorial Folha Opinião de 8/07/2007) e a louvação era à “Lei Cidade Limpa” do atual governo Kassab. O empresário inicia seu texto elogiando o governo municipal pela implementação de uma lei que “visa disciplinar o uso de anúncios”. Contudo, isso é apenas a primeira linha do artigo, nas seguintes, o Sr. Antônio Ermírio mostra o intuito central do editorial: expressar seu “inconformismo com a inaceitável sujeirada que tomou conta da cidade”. E até aí eu também concordaria, se não fosse o entendimento equivocado e preconceituoso do empresário quanto aos que “sujam” a cidade.
Para o empresário, as pessoas não sujam a cidade poluindo o ar com substâncias cancerígenas como a Votorantim Cimentos, mas poluem e “emporcalham” (ele utiliza esse termo) a cidade com sua presença nos logradouros públicos e em sua míope e eugenista visão, nada mais prático que utilizar os “dispositivos” da lei em vigor para “limpar” a cidade dos “indesejáveis moradores de rua”.
Ora bem, não somos ingênuos e sabemos que tais concepções não são nem recentes nem incomuns numa cidade onde os fossos sociais são responsáveis por conceitos como o de “brasilinização” que se refere justamente às diferenças abissais que, o capitalismo organizado, aprofunda cada vez mais nas relações que situam em lados opostos os 20% mais pobres que ganham 2,4% da renda brasileira e os outros 20% mais ricos que concentram 63,2%[1] da mesma renda nacional. Economicamente isso fica bastante explícito em termos de injustiça social: provavelmente o grupo que “emporcalha” a cidade não chegue a fazer parte da média de cerca de 40 milhões de pessoas que vivem com menos de US$2 ao dia e dos 14,6 milhões que vivem com menos de US$1 ao dia[2].
Evidente que como principal figurão de um dos 10 maiores conglomerados globais [3]do setor de cimentos, o empresário editorialista não vê problema em chamar de “sujeira urbana”, ao lado de placas publicitárias, lixo e urina, a população que paga na pele, da maneira mais violenta e visível, as conseqüências da escandalosa e desigual riqueza que ele, e seu grupo familiar, concentram.
Ou seja, para o rico e poderoso empresário, o que o incomoda “há anos” não é sobrevoar habitações precárias de pessoas que são amontoadas em qualquer lugar da cidade e são tratadas como animais, sofrendo toda a sorte de humilhações cotidianas, chegando ao cúmulo do extermínio físico, como na chacina perpetrada em Agosto de 2004 com 8 vítimas fatais, que continua impune. Não o incomoda tampouco, que sua vasta e diversificada fortuna sirva para a consolidação do fascismo social na cidade de São Paulo e divida a cartografia urbana em zonas praticamente estanques, senão fosse o uso instrumental da pobreza. O que realmente incomoda o grande empresário é que pessoas estejam ali, a “banhar-se”, nas barbas do Carlos Gomes, provocando sujeira numa cidade, que se não bastasse o campo minado em termos de desigualdade social, ainda deve chamar para si, de acordo, com o último e prepotente parágrafo do Sr. António Ermírio, a hegemonia econômica do País.
Constatação cruel e dolorosa, esse fascismo higienista, que trata agora como lixo, quem foi excluído das promessas da modernidade neoliberal é uma forma de negar  a humanidade a quem criativamente se reinventa nas ruas colocando em marcha sonhos e expectativas apesar de todas as evidências contrárias.

Mas, talvez, essa constatação não seja dolorosa, apenas para quem conhece a população de rua e sabe o quanto que lhe é devido nessa partilha indecorosa do bolo capitalista. Talvez, mais dolorosa deva ser a constatação, para o empresário, poderoso e fascista que toma consciência de sua própria inumanidade. Ao se ver confrontado com pessoas que, apesar de terem sido espoliadas de tudo, têm a dignidade de se levantar e se limpar num gesto heróico de dignidade, ele possa perceber quão ele é mesquinho e inumano. Uma vez que, confortavelmente em uma de suas mansões, se dá ao luxo de escrever que a cidade deve se livrar de pessoas, como quem se livra de cartazes.


1 Esse texto foi publicado originalmente na seção “Só no site” da Revista Caros Amigos em 18/07/2007 e no Cesusc – Complexo Superior de Ensino Superior de Santa Catarina http://www.cesusc.edu.br/noticias/critica.html 

2 Banco Mundial/Brasil. Disponível em: www.obancomundial.org/index.php/content/view_document/2525.html

3Idem.

4 Fonte: http://www.votorantim-cimentos.com/institucional/perfil.shtml

 

 
< Anterior   Próximo >
+ de UMinuto
Redetube
Rádio da Esperança
Radio Esperanca.jpg
Tá na Rede Maio Junho
ta_na_rede_destaque.jpg
Informativo interno
da Associação Rede Rua
div.cv.cm.gif
fp.gif
APOIO
 


Associação Rede Rua Associação Rede Rua
Associação Rede Rua © 2007 - www.rederua.org.br -  Joomla