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“Até que a pobreza seja um negócio de museu"

17 de ago.
3 min de leitura

Praça Clovis Beviláqua, em São Paulo, é lugar de muitos encontros. Ali passei uma tarde com Paula Corinã Gonçalves Pereira. Há anos assumiu sua condição de trans. Toda manhã ela desmonta sua barraca e junta seus pertences antes que o rapa e a zeladoria da prefeitura façam seu giro e expulsem as pessoas em situação de rua do seu local de sobrevivência — parte da política higienista da prefeitura.

Paula sobrevive a sol e chuva na praça que, há séculos, era habitada pelo povo Guaianás. “A Praça da Sé é o marco zero de São Paulo. Eu não posso chamar esse lugar de lar. É uma praça de todos nós! Aqui é mais seguro porque é um lugar de trânsito de várias pessoas.” Sua cosmovisão vem dos povos originários: “O índio já tem o estigma de que tem de estar lá na floresta, tem que estar vestido, caracterizado. Não pode ser um índio trans.”

Começa pelo cotidiano: “Eu acordo, faço exercícios, vou rezar, boto água para o cachorro e vou procurar o que comer.” Pergunto onde encontra comida: “A providência divina me alimenta!” E sobre os cachorros? “Eu durmo na rua com dez cachorros... Eles são meus irmãos! É como ser o irmão mais velho. Se passar algum malfazejo, aqui por perto, o cachorro na hora sente e late!” Conhecida no entorno, ela comenta: “É revigorante para um trabalhador passar e ver uma pessoa suja desejando-lhe um bom dia verdadeiro”.

Segue a conversa: “Eu nasci lá numa tribo, mas eu sou registrada em Tucuruí. Uma cidade lá no sul do Pará”. A violência doméstica a fez sair de casa: “Com 9 anos. Eu fui criada trabalhando, morando na casa dos outros. Lá no Pará, eles têm um hábito de receber gente do interior. A gente chama de madrinha, padrinho. Na verdade, é um apadrinhamento de trabalho. A gente faz o serviço doméstico e tem um lugar para morar e estudar.” “Acho que no meu caminho foi que construíram aquela lei de trabalho infantil doméstico”, comenta.

Daí por diante, seguiu no trecho: “Naquele tempo era normal na Transamazônica pedir carona, até para criança. Tinha horas que o Conselho Tutelar me pegava e eu chorava porque queria ficar nas casas trabalhando e não ir para um abrigo. Peguei esse senso de fuga e fui fugindo. Morei em muitas casas, andei em muitos lugares, centenas! Fugi de trem de Marabá, no Pará, e fui chegar no Maranhão. Conheci um moço da Organização Internacional do Trabalho em Imperatriz, no Maranhão. Um outro da Vara da Infância e Juventude, ficou meu amigo.”

São Paulo ainda não estava no horizonte: “era lugar de trecheiro, a gente só passava. Passei algumas vezes. Minha adolescência toda foi na estrada.” A atração pela capital não demorou: “Já deve ter mais de vinte anos que estou em São Paulo.” Também a afinidade com a praça é antiga: “Nós passamos toda a pandemia aqui. Quando acabou, cercaram a praça, a gente alugou uma casa no Glicério. Depois voltamos para cá.”

Paula chorou a primeira vez na rua quando encontrou um piolho na cabeça. “Se uma pessoa me contasse toda a rotina da rua, toda a falta de privacidade, toda a falta de descanso, eu não conseguiria mensurar”. Entre as pessoas que passam pelo seu dia a dia, cita “acadêmicos, gente solidaria, prostitutas.” “Sei falar com o policial, com o bandido, com a criança, com o cachorro! Conheci pessoas que ajudavam o cachorro, mas não me davam um prato de comida”. Paula se indigna com o feminicídio: “Em algum momento, o ser humano precisa compreender que ele nasceu de uma mulher, de uma mãe. Isso o impossibilita de bater em qualquer outra mulher!”

Quando lhe pergunto: “E se o município oferecesse uma casa para você?”, o senso do coletivo aflora: “Só se for pra gente alugar um galpão no centro da cidade. Não vai ser nas franjas da sociedade! Se a gente tiver de se alinhar, nos alinharemos todos juntos como uma família humana na terra”. Pergunto quando deixará a praça: “Se eu tiver de ficar aqui eu ficarei até a pobreza ser um negócio de museu!”

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