Mulheres em Situação de Rua: para Além da Violência
“A mulher que mora na rua precisa escolher seu estuprador, seu agressor,
que vai defendê-la de outros agressores e estupradores”.

Segundo dados de junho de 2026 do Cadastro Único, há no Brasil 392.389 pessoas em situação de rua. Desse total, 61.933 são mulheres. Apesar de representar 16% da população em situação de rua, as mulheres são desproporcionalmente as maiores vítimas de violência. Enfrentam desafios diários e extremamente duros, que incluem a gestão da higiene menstrual, a maternidade nessas condições, o assédio sexual e a necessidade de criar redes de apoio para sobreviver à insegurança constante.
Para a proteção física, muitas mulheres acabam se associando a parceiros ou grupos, o que pode aumentar a sua exposição a relacionamentos abusivos e exploração em troca de proteção.
Um relatório de 2024 da Comissão Arns em parceria com os movimentos sociais, trouxe uma frase forte de uma mulher em situação de rua: “A mulher que mora na rua precisa escolher seu estuprador, seu agressor, que vai defendê-la de outros agressores e estupradores”.
Em junho deste ano, foi publicado o estudo Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua, pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/Polos-UFMG). Em entrevista à Veja, o coordenador do Observatório disse que “As violências de maior gravidade acontecem com as mulheres.” Segundo o estudo, mulheres e pessoas trans em situação de rua apresentam risco significativamente maior de sofrerem agressões com consequências graves ou fatais.
Em dezembro de 2023, foi lançado pelo Governo Federal o Plano Ruas Visíveis, que foi criado como resposta à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ADPF 976. O Plano prevê, dentre outras ações, a criação do Programa Mulheres Mil de educação profissional para mulheres; prioridade para mães e gestantes em programas de moradia; orientação para maternidades e hospitais da rede de atenção materno-infantil para atendimento das pessoas em situação de rua; criação de protocolo para proteção da população em situação de rua e enfrentamento à violência institucional; criação de Pontos de Apoio à Rua, com serviços diversos, como lavanderias, banheiros, distribuição de itens de higiene pessoal e outros serviços.
Além disso, em dezembro de 2024, ocorreu um importante evento: o I Encontro Nacional de Mulheres em Situação de Rua e Suas Diversidades, organizado pela Comissão de Mulheres, Gênero e Raça do CIAMP RUA Nacional. O evento debateu temas como moradia, dignidade menstrual, maternidade, saúde, violência, racismo institucional e a inclusão das mulheres trans.

O relatório da Comissão Arns, citado no início, traz também diversas recomendações como, por exemplo, elaborar um plano de acesso à justiça para as mulheres vivendo em situação de rua e elaborar políticas e ações pelo Ministério da Saúde voltadas para a saúde integral à mulher e da populaçãoLGBTQIA+ vivendo em situação de rua.
Por fim, a experiência do projeto "No Trecho das Mulheridades", da Associação Rede Rua, uma iniciativa de acolhimento e escuta focada nas mulheres em situação de rua. O projeto propõe abrir espaços de diálogo e reflexão, enfrentar a violência de gênero e as desigualdades diárias e construir coletivamente soluções para a realidade das mulheres na rua. Roseli Kraemer, que faz parte do grupo, afirmou: “o grupo tem uma importância muito grande na troca de saberes, desenvolvimento de projetos e criação de oportunidades de trabalho, renda, redução de danos, cultura, cuidado. O grupo está estruturando uma proposta de moradia compartilhada que envolve todos esses temas com foco na superação da situação de rua e da violência”.
A experiência do projeto No Trecho das Mulheridades, demonstra que enfrentar a violência contra mulheres em situação de rua exige muito mais do que medidas de proteção: requer a construção de espaços permanentes de escuta, acolhimento e fortalecimento coletivo. O projeto consolidou um local seguro de partilha, onde as participantes puderam refletir sobre suas trajetórias, trocar saberes e construir estratégias para superar a violência e a exclusão.
Essa experiência tem dimensão internacional por meio da articulação com mulheres do Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, fortalecendo uma rede latino-americana de apoio e incidência política. Entre os resultados desse processo está a construção coletiva de uma proposta de moradia compartilhada, voltada à superação da situação de rua e das diferentes formas de violência que atravessam a vida dessas mulheres.
Garantia de moradias dignas e definitivas para mulheres em situação de rua;
Criação de um sistema de proteção para que possam exercer a maternidade sem o risco de perder a guarda de seus filhos;
Criação de frentes de trabalho para garantir a autonomia financeira das mulheres em situação de rua;
Equipamentos de acolhimento e cursos que trabalhem a autoestima dessas mulheres;
Criação de oficinas de sexualidade e gênero;
Formação específica para policiais e agentes públicos






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