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  • Uma história de superação e luta

    As ruas nos revela o imponderável. O ano era 2015, durante as conferências distritais de assistência social de Maceió, quando uma criatura rara cruza meu caminho com um discurso cortante, quase um grito de socorro. Hoje, como Rafaelly, pleiteando sua condição de delegada na Conferência Municipal de Assistência Social. A partir desse momento nasceu o que hoje conhecemos como uma das maiores lideranças e expressão política do Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR). De delegada municipal a delegada da conferência nacional em Brasília, Rafaelly conhece ideranças do MNPR e recebe a tarefa de articulação e a criação do movimento em Alagoas. Sua trajetória impressiona pela superação das adversidades. Com um histórico de dependência química e sucessivas internações traumáticas em comunidades terapêuticas, prostituição e conflitos familiares. Aos 12 anos, era bailarina de um projeto social de uma grande escola de ballet da cidade, morava num bairro periférico de Maceió e teve contato com as drogas na escola. A dependência química a levou a romper vínculos familiares. Passou então a viver nas ruas por 14 anos, após ter vendido todos os bens da família para comprar drogas, fazendo uso de psicotrópicos e se prostituindo, até o momento que foi “resgatada” pelo Consultório na Rua e levada ao Centro de Apoio Psicossocial para dependentes de álcool e outras drogas (CAPs AD). Foi durante o processo de redução de danos que aflorou sua militância política. Esse interesse começou em 2014, ao participar de uma oficina do Ministério da Saúde e Ministério Público para falar sobre uma rede de cuidados para a PSR e teve a oportunidade de ouvir a fala de uma liderança do MNPR. A partir de então foi identificando o movimento como o “seu lugar” e buscou a redução de danos para superar o uso das drogas e potencializar o que considera um “dom” que é sua capacidade de falar, seu senso crítico. Na condição de articuladora regional pelo MNPR criou o Fórum de Usuários de Alagoas em 2016. Em 2018 se torna presidente do Conselho Estadual de Assistência Social de Alagoas, tendo participação ativa na defesa dos direitos sociais assistenciais da população e situação de rua tanto em Alagoas como em outros estados, o que levou a assumir uma cadeira no Conselho Nacional de Assistência Social de 2022 a 2026. Essa projeção nacional foi adquirida pela força de suas intervenções, chegando a participar de audiências com o presidente Luís Inácio Lula da Silva, com o vice presidente do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e receber várias honrarias do poder legislativo e judiciário. Atualmente, Rafaelly Machado é acadêmica de serviço social, coordenadora nacional do MNPR em Alagoas e uma das referências nas instâncias de controle social do país e na defesa dos direitos da PSR. Rafaelly traz a marca de uma guerreira insurgente e é um exemplo de como as políticas públicas são capazes de revelar a extraordinária potência humana. *Ana Lúcia Soares Tojal - assistente social, professora e pesquisadora alagoana, conhecida por sua forte atuação em políticas públicas, saúde pública e defesa dos direitos humanos. Rafaelly com a Ana Tojal

  • Mulheres em Situação de Rua: para Além da Violência

    “A mulher que mora na rua precisa escolher seu estuprador, seu agressor, que vai defendê-la de outros agressores e estupradores”. Segundo dados de junho de 2026 do Cadastro Único, há no Brasil 392.389 pessoas em situação de rua. Desse total, 61.933 são mulheres. Apesar de representar 16% da população em situação de rua, as mulheres são desproporcionalmente as maiores vítimas de violência. Enfrentam desafios diários e extremamente duros, que incluem a gestão da higiene menstrual, a maternidade nessas condições, o assédio sexual e a necessidade de criar redes de apoio para sobreviver à insegurança constante. Para a proteção física, muitas mulheres acabam se associando a parceiros ou grupos, o que pode aumentar a sua exposição a relacionamentos abusivos e exploração em troca de proteção. Um relatório de 2024 da Comissão Arns em parceria com os movimentos sociais, trouxe uma frase forte de uma mulher em situação de rua: “A mulher que mora na rua precisa escolher seu estuprador, seu agressor, que vai defendê-la de outros agressores e estupradores”. Em junho deste ano, foi publicado o estudo Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua, pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/Polos-UFMG). Em entrevista à Veja, o coordenador do Observatório disse que “As violências de maior gravidade acontecem com as mulheres.” Segundo o estudo, mulheres e pessoas trans em situação de rua apresentam risco significativamente maior de sofrerem agressões com consequências graves ou fatais. Em dezembro de 2023, foi lançado pelo Governo Federal o Plano Ruas Visíveis, que foi criado como resposta à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ADPF 976. O Plano prevê, dentre outras ações, a criação do Programa Mulheres Mil de educação profissional para mulheres; prioridade para mães e gestantes em programas de moradia; orientação para maternidades e hospitais da rede de atenção materno-infantil para atendimento das pessoas em situação de rua; criação de protocolo para proteção da população em situação de rua e enfrentamento à violência institucional; criação de Pontos de Apoio à Rua, com serviços diversos, como lavanderias, banheiros, distribuição de itens de higiene pessoal e outros serviços. Além disso, em dezembro de 2024, ocorreu um importante evento: o I Encontro Nacional de Mulheres em Situação de Rua e Suas Diversidades, organizado pela Comissão de Mulheres, Gênero e Raça do CIAMP RUA Nacional. O evento debateu temas como moradia, dignidade menstrual, maternidade, saúde, violência, racismo institucional e a inclusão das mulheres trans. Roseli Kraemer participante do Encontro da Rutras O relatório da Comissão Arns, citado no início, traz também diversas recomendações como, por exemplo, elaborar um plano de acesso à justiça para as mulheres vivendo em situação de rua e elaborar políticas e ações pelo Ministério da Saúde voltadas para a saúde integral à mulher e da populaçãoLGBTQIA+ vivendo em situação de rua. Por fim, a experiência do projeto "No Trecho das Mulheridades", da Associação Rede Rua, uma iniciativa de acolhimento e escuta focada nas mulheres em situação de rua. O projeto propõe abrir espaços de diálogo e reflexão, enfrentar a violência de gênero e as desigualdades diárias e construir coletivamente soluções para a realidade das mulheres na rua. Roseli Kraemer, que faz parte do grupo, afirmou: “o grupo tem uma importância muito grande na troca de saberes, desenvolvimento de projetos e criação de oportunidades de trabalho, renda, redução de danos, cultura, cuidado. O grupo está estruturando uma proposta de moradia compartilhada que envolve todos esses temas com foco na superação da situação de rua e da violência”. A experiência do projeto No Trecho das Mulheridades, demonstra que enfrentar a violência contra mulheres em situação de rua exige muito mais do que medidas de proteção: requer a construção de espaços permanentes de escuta, acolhimento e fortalecimento coletivo. O projeto consolidou um local seguro de partilha, onde as participantes puderam refletir sobre suas trajetórias, trocar saberes e construir estratégias para superar a violência e a exclusão. Essa experiência tem dimensão internacional por meio da articulação com mulheres do Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, fortalecendo uma rede latino-americana de apoio e incidência política. Entre os resultados desse processo está a construção coletiva de uma proposta de moradia compartilhada, voltada à superação da situação de rua e das diferentes formas de violência que atravessam a vida dessas mulheres. Proposta do I Encontro Nacional: Garantia de moradias dignas e definitivas para mulheres em situação de rua; Criação de um sistema de proteção para que possam exercer a maternidade sem o risco de perder a guarda de seus filhos; Criação de frentes de trabalho para garantir a autonomia financeira das mulheres em situação de rua; Equipamentos de acolhimento e cursos que trabalhem a autoestima dessas mulheres; Criação de oficinas de sexualidade e gênero; Formação específica para policiais e agentes públicos Ato das participantes do II encontro Latino Sul Americano (RUTRAS) e Mulheridades em São Paulo 2024.

  • A cartografia invisível

    10 anos de violência contra a população em situação de rua: algumas questões para reflexão e atuação em redes de direitos humanos O Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/POLOS-UFMG) publicou recentemente o estudo intitulado “A cartografia invisível: 10 anos de violência contra a população em situação de rua”, resultado de uma estratégia metodológica inovadora de integração e cruzamento de bases de dados nacionais, especialmente o Disque 100 e o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), do Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa representa um avanço significativo na produção de evidências sobre a violência dirigida à população em situação de rua no Brasil, ao articular registros administrativos distintos e evidenciar padrões sistemáticos de violações de direitos historicamente subnotificados e pouco visibilizados nas estatísticas oficiais. Os resultados indicam que a violência contra essa população não se caracteriza por eventos isolados, mas por um fenômeno estrutural, contínuo e associado ao racismo estrutural, às desigualdades sociais, à precarização das políticas de proteção social e às formas de organização excludente dos espaços urbanos. O estudo evidencia ainda um quadro de subnotificação crônica, indicando que uma parcela expressiva das vítimas não acessa os serviços de saúde ou de denúncia após sofrer agressões, em função do medo, da desconfiança institucional, de experiências reiteradas de discriminação e das barreiras de acesso às políticas públicas. Esse cenário reforça a compreensão de que os registros oficiais expressam apenas uma fração do fenômeno real, configurando um “efeito de visibilidade parcial” das violências. Outro achado relevante refere-se à recorrência das situações de violência ao longo das trajetórias de vida das vítimas, frequentemente marcadas por ciclos de exposição contínua a riscos, ausência de proteção efetiva e insuficiência das redes intersetoriais de acolhimento e proteção. A pesquisa também aponta para a persistência de lacunas estruturais nas políticas públicas de habitação, trabalho, renda, educação e assistência social, elementos centrais para a reprodução das condições de vulnerabilização social. Em termos demográficos, observa-se predominância de homens (65%), a porcentagem de mulheres tem pessoas negras (78%) e indivíduos entre 15 e 49 anos (82%), o que evidencia a sobreposição entre racismo estrutural, juventude e pobreza urbana na produção das desigualdades. No que se refere às formas de violência, os dados do SINAN indicam predominância da violência física (65%), seguida por violência psicológica (42%), negligência e abandono (18%), violência sexual (15%) e violência autoprovocada (10%). Já os registros do Disque 100 destacam a centralidade da negligência (45%) e da violência psicológica e institucional (30%), evidenciando a relevância das omissões estatais, do tratamento discriminatório e das violações de direitos básicos. Esses resultados revelam a simultaneidade e a interseção das diferentes formas de violência, que tendem a ocorrer de maneira combinada e reiterada. A análise territorial demonstra que a maior parte das ocorrências se concentra em vias públicas (cerca de 70%), evidenciando a rua como espaço de elevada exposição à violência. Contudo, também são registrados casos em instituições de acolhimento, o que indica falhas nos mecanismos de proteção e fiscalização. Em termos regionais, Sul e Sudeste concentram os maiores números absolutos de notificações, com destaque para São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro, além de um processo de interiorização da violência em municípios de médio porte. Nas demais regiões, destaca-se a forte subnotificação, ainda que alguns municípios já apresentem crescimento expressivo dos registros. Quanto à autoria das violências, predominam agressores desconhecidos, o que sugere a presença de dinâmicas associadas ao Racismo e à Aporofobia, conceito desenvolvido por Adela Cortina para descrever a aversão social à pobreza. Também se destacam conflitos entre conhecidos e a atuação de agentes estatais em ações de controle e ordenamento urbano, ainda que em menor proporção, além de episódios envolvendo parceiros íntimos, especialmente em casos de violência contra mulhres. Por fim, o estudo indica tendência de crescimento das notificações ao longo da última década, com aumento expressivo entre 2020 e 2023, e alerta para o agravamento das condições estruturais que sustentam esse quadro. Aproximadamente 12% dos casos evoluem para lesões graves ou óbito, evidenciando a severidade do fenômeno. Diante desse cenário, o estudo aponta que o enfrentamento da violência exige a superação de abordagens exclusivamente repressivas e a implementação de políticas públicas estruturantes e integradas, com centralidade na garantia de direitos, especialmente moradia, trabalho, educação e proteção social, além do fortalecimento de sistemas de monitoramento e prevenção intersetorial. André Luiz Freitas Dias - Professor e pesquisador-extensionista da Universidade Federal de Minas Gerais; Membro da Coordenação do Programa Polos de Cidadania e do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/POLOS-UFMG); Membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Direito da UFMG; Diretor da Diretoria de Divulgação Científica da Pró-Reitoria de Extensão da UFMG. Dados e estudos do OBPopRua/POLOS-UFMG: https://polos.direito.ufmg.br/bem-vindo-ao-obpoprua/ Memorial para denunciar o assassinato de Jerfeson de Souza no dia 13 de junho de 2025. Até o momento a família continua aguardando o Translado.

  • Quadro de dados do jornal O Trecheiro

    "Diversidade temática das matéria foi crescendo!" Por Por José Vicente Kaspreski e Marina Torres Em comemoração aos 35 anos do jornal O Trecheiro, separamos algumas curiosidades sobre o jornal. Ao longo de sua trajetória, 314 edições já foram publicadas, das quais são 11 são especiais: Quanto aos temas publicados, manifestações e ações políticas são os mais recorrentes, o que está relacionado ao próprio propósito do Jornal O Trecheiro: informar o povo da rua de modo engajado na luta por direitos e políticas públicas. Entrevistas e Vidas no Trecho também são matérias presentes na maioria das edições, preservando a memória coletiva da população em situação de rua. Ao todo, mais de 120 Vidas no Trecho já foram publicados (65% homens no trecho e 35% mulheres). No entanto, se somar mos todas as entrevistas e relatos já publicados, esse número passa dos 800. Nesse sentido, cada edição trata dos mais diversos assuntos:

  • Moradia, Renda e o Fim da Violência

    “Hoje, normalizamos vendo a pop rua sendo expulsa, massacrada e morta na noite porque não é só no dia, mas é a noite quando se apagam as luzes.” Roseli Kraemer Por Alderon Costa e José Vicente Kaspreski “Rua não é casa!” foi o grito que ecoou pelo auditório externo da Câmara dos Vereadores de São Paulo no último dia 09 de junho. “A política pública sobre habitação não existe. Não adianta ter emprego se não temos moradia,” destacou Edvaldo Gonçalves (MNLDPSR). Tratava-se de uma audiência pública organizada pelo Grupo de Trabalho de População em Situação de Rua da Comissão Extraordinária de Direitos Humanos, que contou com a presença de dezenas de pessoas em situação de calçada, acolhidas, dos movimentos sociais e pesquisadores. O evento foi organizado pela Vereadora Luna Zarattini, presidente da comissão, mas Luana Alves, Amanda Paschoal e Nabil Bonduki também estiveram presentes, além do Deputado Estadual Eduardo Suplicy. O Núcleo de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, assim como a Defensoria Pública do Estado e as Secretarias Municipais de Habitação, Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) e Desenvolvimento Econômico e Trabalho (SMDET) enviaram representantes. Ainda assim, o protagonismo foi da rua, que pôde fazer amplo uso da fala para reivindicar por programas de moradia (como a locação social) e de trabalho (além do POT) e pelo fim da violência. “Não aceitaremos também nenhum tipo de violência a população em situação de rua. Retirada de pertences, retirada de barracas, violência em relação à população por meio da GCM e das forças policiais, declarou a vereadora Luna Zarattini. Após a audiência pública, os presentes caminharam até a Prefeitura, onde um almoço coletivo foi servido e as reivindicações continuaram em um momento de falas abertas. Uma comissão, encabeçada pela vereadora Zarattini, foi recebida pelos servidores do Governo e protocolou a carta manifesto com diversas demandas construídas coletivamente, incluindo a interrupção de fechamento dos serviços até que se tenha um plano geral para possibilitar a inclusão das pessoas em políticas de moradia fixa; e a implementação da cota mínima de 2% prevista no Decreto Municipal nº 62.149/2023, que determina a contratação de pessoas em situação de rua em contratos realizados pela administração municipal. Além disso, foi protocolada uma ação civil pública com o pedido de desapropriação de imóveis ociosos para a implementação de programas de locação social; e a prefeitura se comprometeu a fazer uma reunião Inter secretarial com os vereadores/as, movimentos e organizações.

  • Editorial: Só tecnologia não aquece o frio

    Nos meses de junho, julho e agosto, São Paulo enfrenta temperaturas que chegam a 4ºC em algumas regiões. No centro, onde se concentra a maior população em situação de rua, o frio intenso provoca sofrimento e até mortes por hipotermia. Para quem vive sem um teto, cada noite gelada é marcada por dor e risco de morte. O que ameniza esse cenário são os grupos solidários que distribuem cobertores, roupas e comida quente. Já o poder público, ano após ano, mostra descuido e improviso. A chamada Operação Baixas Temperaturas (OBT), embora emergencialmente necessária, é insuficiente: poucas tendas, estrutura precária e distribuição desorganizada, que expõe ainda mais a falta de dignidade no atendimento. A recente Portaria nº 068/SMADS/2026 criou a Central de Vagas OBT, prometendo tecnologia e inteligência de dados para melhorar a política de assistência. Na prática, porém, as vagas são escassas, os serviços não garantem respeito mínimo e os fluxos previstos não funcionam. Apesar da aparente organização e uso de tecnologias, a realidade tem se mostrado bem diferente. As vagas oferecidas são muito poucas frente a crescente demanda, a qualidade dos serviços oferecidos não oferece dignidade e mínimo de respeito pelo ser humano, os fluxos não funcionam como previsto na portaria, a criação de um voucher e a comunicação dos check in e check out (utilizados na rede hoteleira), não tem mostrado praticidades frente às emergências, a limitação dos atendimentos espontâneos vem gerando aglomerações nas portas dos serviços que são impedidos de atender. "As vagas não são do serviço e nem do CREAS, são nossas, do gabinete", conforme relato na reunião extraordinária do Comitê Pop Rua, no último dia 10/06. Tecnologia pode apoiar a gestão, mas não substitui o essencial: acolhimento digno, planejamento antecipado e respeito humano. Enquanto isso não acontece, a cidade segue repetindo o ciclo de improviso e sofrimento, deixando claro que só tecnologia não aquece o frio.

  • ADPF 976: do papel para a vida real

    A ADPF 976 é hoje o principal processo no Supremo Tribunal Federal que trata do desafio das pessoas que estão em situação de rua no Brasil — e não como um caso isolado, mas como um problema estrutural, que envolve violações contínuas de direitos fundamentais. Em 2023, o STF reconheceu essa realidade e determinou que União, estados e municípios implementem de forma obrigatória a Política Nacional para a População em Situação de Rua, com medidas concretas de proteção, prevenção e saída das ruas. O que está em jogo aqui é simples de dizer, mas difícil de fazer: transformar uma decisão judicial em mudança real na vida das pessoas. Quase três anos depois dessa decisão intermediária, o que vivenciamos é o agravamento da vida nas ruas com uma política ainda mais higienista e violenta por parte das gestões municipais e estaduais. Comitê Nacional PopRuaJud Nesse cenário, o Comitê Nacional PopRuaJud cumpre um papel central. Criado no âmbito do Conselho Nacional de Justiça, o Comitê reúne Judiciário, Defensoria, Ministério Público, academia e movimentos sociais. É um espaço de articulação nacional, que chega na ponta, nos territórios, por meio dos comitês locais e da Rede PopRuaJud — e que leva para o processo do STF aquilo que muitas vezes não aparece nos autos: a realidade concreta da rua. Em razão das constantes denúncias recebidas neste Comitê, foi solicitada uma reunião com o Ministro Alexandre de Moraes, relator e responsável pelo acompanhamento do processo para compartilhar a realidade e informar que a liminar não vem sendo cumprida pelos governos locais. Na reunião com o Ministro Alexandre de Moraes, o recado foi direto: não basta ter decisão — é preciso garantir que ela seja cumprida. Por isso, o Comitê se colocou à disposição para acompanhar o processo e fez alguns pedidos de encaminhamentos concretos. Primeiro, que o Supremo continue acompanhando o caso de perto, sem encerrar o processo, porque estamos diante de um problema estrutural. Segundo a criação de um espaço permanente de monitoramento, com participação das instituições e da sociedade, para acompanhar quem está fazendo e quem não está fazendo. Terceiro, que estados e municípios apresentem planos reais, com metas, prazos e responsabilidade — e não apenas declarações genéricas. No eixo “prevenção da entrada na situação de rua”, foi solicitado a inclusão da população em situação de rua no censo do IBGE; o acesso ao CadÚnico e ao BPC independentemente de endereço fixo; a suspensão dos despejos sem alternativa habitacional prévia; o mapeamento das pessoas que deixam as prisões, hospitais psiquiátricos e comunidades terapêuticas para inserir essas pessoas no sistema de proteção social; a regulamentação de lei que veda a arquitetura hostil; uma política estrutural de habitação acessível para a população em situação de rua. No eixo “garantia de direitos de quem já está na rua”, a criação de um protocolo nacional de zeladoria urbana; a remoção de arquitetura hostil; a criação de um canal direto de denúncias; a fiscalização das comunidades terapêuticas conveniadas; a realização de mutirões periódicos de documentação e acesso a direitos; e a criação de um sistema nacional de monitoramento de violações. No eixo “portas de saída das ruas” foram pedidos a regularização documental bancária como porta de entrada; plano individual de saída para pessoas que deixam as prisões, comunidades terapêuticas ou hospitais psiquiátricos; regulamentação e expansão do aluguel e locação social; expansão nacional do programa moradia primeiro; implementação dos centros de apoio ao trabalhador em situação de rua. Também foi solicitado que sejam realizadas audiências periódicas, para que o STF possa ouvir diretamente o que está acontecendo nos territórios. Por fim, foi destacada a necessidade de revisar o Plano Ruas Visíveis, que hoje ainda é insuficiente diante da dimensão do problema.

  • Artista viajante: a arte de João Carlos Correa

    “Olha, eu sempre tive vontade de dar uma volta ao mundo. ‘Mas de onde você tirou essa ideia?’ Ah, é porque eu sou daquele tempo do (Festival) Woodstock. Eu vi os hippies, não sou roqueiro, eu sou eclético na música, mas eu via os hippies viajando e pensei, eu vou pegar meu desenho e vou colocar a mochila nas costas. Essa é a minha vontade, até porque eu tava passando por um problema, uma questão lá pessoal e também tinha brigado com a namorada. É lógico, né!? Aí o homem tem essa questão, briga com a namorada e vai embora”, conta João Carlos Corrêa, um artista autodidata de 61 anos que decidiu viver de maneira simples, apenas do seu trabalho artístico, movido principalmente desejo de viajar e conhecer o mundo. Para isso, ele precisava que seus materiais de pintura coubessem em uma mochila e fáceis de transportar. Por isso, optou pelo uso do lápis de cor e papel banco como materiais do dia a dia, apesar de pintar com acrílico, óleo e as mais variadas técnicas. “Com o lápis de cor, se tiver chovendo lá fora, se tiver um temporal, é só achar um lugar coberto, não vai impedir de eu fazer meu trabalho, né? Agora na tela ou então uns trabalhos de dimensão maior e tinta, já não conseguiria. Até porque, deu o horário aqui, fechou, tem que ir embora, tem que guardar, colocar na pasta e acabou. Se fosse pintura não tinha jeito”, conta João, que faz trabalhos por encomenda nas ruas, como caricaturas e retratos realistas, mas seu trabalho autoral, que faz de modo livre, é mais rebuscado e moderno. “Eu como artista, eu fiz tanta coisa, mas eu me defino assim, sou meio eclético, porque eu me identifico mais com o mundo é que bem surreal, então faço uns trabalhos por encomenda, mas eu gostaria mesmo é de ter o meu ateliezinho, né, para fazer as minhas obras surreais, poder mostrar ali esse mundo no meu surrealismo. Mas no momento tá meio difícil” As obras de João impressionam pela qualidade técnica, pela beleza e pela diversidade. Ele também mostra domínio sobre escolas e tendência artísticas fruto de anos de estudos, talvez nas bibliotecas e centros culturais nos quais usa frequentemente como ateliês itinerantes. “É como aquela música do Caetano que eu acho que é a minha cara, né? ‘Alegria, alegria, caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento.’ Aquilo lá era eu todinho. Uma coisa é você ir conhecer um lugar com dinheiro para pagar lá, estadia. Você conhece sem dinheiro vai conhecer o outro lado da moeda, a parte burocrática do mundo, né?”, lembra João quando começou a rodar o mundo vivendo da sua arte. No entanto, ele faz questão de ressaltar que nunca deixou de lado os laços familiares. “Eu tenho um filho, né? Um filho, hoje, e dois netos. Eu virei um artista meio nômade, um artista andarilho, viajante. Mas eu faço questão de lembrar que eu nunca esqueci que eu tenho uma família, tenho uma mãe, um pai, uns irmãos que são maravilhosos, né? Que às vezes eu vejo. De três em três meses eu fazia questão de vir ver meus parentes, que até porque eu tenho uma mãe maravilhosa, ela criou nove filhos”, disse João. Seu trabalho ilustrou um documentário e ebook feito pelo programa de psicologia da USP retratando a trajetória da população de rua, seus desenhos mostram a história da dependência química e alcoolismo. Apesar do talento indiscutível e da incrível história de vida vivendo em diversos países da América Latina, João nunca teve a oportunidade de fazer uma exposição com suas obras e receber a valorização pelo seu trabalho. Esse sonho foi realizado no ano de 2026 por meio do projeto “Abrindo a pasta do sonhos”, selecionado por um edital público que permitiu que vários artistas como João pudessem aprender mais sobre produção cultural e dominar ferramentas para o desenvolvimento profissional. As aulas ministradas por Diana Tsonis resultaram em ações práticas como a exposição das obras reunidas de João Carlos Corrêa no dia 27 de janeiro no Teatro Arthur de Azevedo, na Mooca, São Paulo. Um momento importante de consagração de um verdadeiro artista popular e oportunidade para abrir portas para mais realizações. Entrevista completa com Youtube por Diana Tsonis: https://www.youtube.com/watch?v=N_pqv_CchjI

  • Trecheirinhas

    Por Luciana Ribas, José Vicente Quando a violência vira curtida Perfis de parlamentares e influenciadores têm usado as redes sociais para expor, constranger e humilhar pessoas em situação de rua. Em vez de política pública, o que aparece é espetáculo — com vídeos que associam pobreza à sujeira, criminalidade e “desordem”, alimentando medo e preconceito. Por isso, o Comitê PopRua Jud criou um procedimento para apuração e investigação desses perfis e responsabilização no âmbito judicial, eleitoral e administrativo. Se você souber de algum perfil que realiza esse tipo de conteúdo, escreva para O Trecheiro que iremos compartilhar com o Comitê para incluir esse perfil nessa investigação. A denúncia completa pode ser acessada aqui: https://docs.google.com/document/d/1EaJpRaALHLNtvsBEpw8u3Yw-7noSC0Up/edit Estação Cidadania I fica! Inaugurado em 2023, o Estação Cidadania I opera próximo à Praça da Sé, na av. Rangel Pestana, 215 e oferece banheiro, banho, água potável, lavanderia, atendimento especializado e psicossocial para a população em situação de rua. Quando criado, o serviço também oferecia 1.000 marmitas diárias que foram cortadas em outubro do ano passado. Em maio, a Prefeitura anunciou o fechamento do serviço. No entanto, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo demonstrou que não há capacidade para a absorção das vagas de atendimento na região, que já está sobrecarregada. Assim, o Tribunal de Justiça decretou a continuidade do serviço. (Processo nº 1153325-42.2025.8.26.0053). Participe do Comitê Estadual da Pop Rua! O Conselho das Políticas para PopRua no Estado de São Paulo aprovou, em abril, seu Regimento Interno e, desde maio, realiza reuniões abertas à toda sociedade. Os encontros ocorrem sempre às 13h30, na última terça-feira do mês na Sala Quadrada da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social - Rua Boa Vista, 170 da Capital.

  • Imagens e memórias

    Desenhos e impressões sobre o que é a vida, a cultura, a memória na e da rua em São Paulo. Por Adriana Fernandes e Joana Barros* O que é a memória da rua? Foi a partir desta pergunta que convidamos os frequentadores da Chapelaria social Irmã Alberta, ao longo do primeiro semestre, a produzirem desenhos e colagens sobre suas experiências e impressões de São Paulo. Durante as oficinas, tanto esses registros, quanto as músicas ouvidas e cantadas, e os pequenos trechos do jornal O Trecheiro foram permeados por comentários e bate-papo que resultaram em um conjunto de imagens e narrativas que contam um pouco do muito vivido nas ruas, das relações familiares, dos amigos, do trabalho, dos corres do dia a dia e da violência da polícia e da guarda, dos amores, das dores e dificuldades de sobreviver. E, tão importante quanto, do que cada pessoa viveu e de como viveu, como sonha, como constrói e pensa sua vida. Todo esse trabalho fará parte de uma exposição que tem por objetivo trazer ao público - pelos desenhos, colagens e depoimentos - as passagens líricas e sensíveis sobre o que é a vida, a cultura, a memória na e da rua, Ora é um desenho com um coqueiro e uma casa que remete à origem alagoana; em outro, a imagem é a de uma igreja que fala do “sonho de casar”(sem que houvesse, até aquele momento, nenhum pretendente). Já Daniela fez um “coração com asas”, preenchido com glitter prateado. Para Beatriz, de sotaque mineiro, foi a paisagem do Vale do Anhangabaú passando no Youtube da tela de tv da Chapelaria que capturou sua atenção: “Gostava muito de deitar-se embaixo de uma árvore do parque pra ver o céu azul”. O humor não é algo menor nesses encontros: implicar com outros participantes, reparar em algum gesto, pegar no pé por conta da derrota no futebol. Sobre o desenho do amigo sentado ao seu lado, um convivente disparou: “Água de rio, água de mar, só faltou a água de aguardente [risos]”. Quando propomos como fio condutor as memórias da infância, Hector fez uma ponte enorme com dois rios de cores diferentes e explicou: era a ponte que liga o Brasil ao Peru, os dois rios se encontram embaixo dela, “o mais claro é o que banha o lado do Peru, a parte escura é o Rio Amazonas” - lembrou que ele e outros meninos se jogavam e se banhavam ali, havia uma diversidade de tipos de peixe! Um tópico sempre sensível são as passagens envolvendo familiares. Um rapaz vindo do Ceará explicou que estava na Rede Rua para se reerguer e “não ser vergonha pra família”. Logo que veio para São Paulo, conheceu Salesópolis (SP), a cidade onde se encontra a nascente “bem limpinha” do rio Tietê. “Quando cheguei eu andava muito, sempre gostei de andar, eu ia marcando os lugares, tem gente que anda e não marca nada, aí não consegue se localizar, eu ia cada vez mais longe e voltava onde eu tinha marcado”. Dois dias antes de uma oficina, havia caído muita chuva em São Paulo, o clima era de desolação, as urgências se concentraram no café com pão, no banho quente e em trocar a roupa molhada. Ana (com seus cachorros esperando na calçada da Chapelaria) repetia a mesma coisa: “Acabou a oficina? Vão servir o café? Eu tô com a maior fome!”. À desolação, somou-se à notícia de que o prefeito mandaria fechar a Casa São Martinho, lugar referência de acolhimento, por conta das mobilizações, a medida foi suspensa. Esse não seria o primeiro equipamento encerrado na atual gestão. Semanas depois, falando sobre São Paulo, um convivente resumiu: “São Paulo é uma mãe e é também a rainha das enchentes”. Mas Márcio, presente em todas as oficinas, trouxe a solução: fez um barco de cores vibrantes, nele, é certo, cabem todos os lascados do mundo. É esta força e sensibilidade que estão retratadas nestes painéis e nos vídeos que compõem a exposição: “Memórias da Rua”. Com elas podemos conhecer um tanto mais da vida na rua e de quem constrói todos os dias a cidade.

  • 2ª chamada para candidaturas de vagas Cidadania Pop Rua

    Chapelaria Social Irmã Alberta | Chapelaria Social Irmãs Regina e Ivete Oportunidade de trabalho A Associação Rede Rua está com novas vagas abertas pelo projeto Cidadania PopRua – Chapelaria Social Irmã Alberta e Chapelaria Social Irmãs Regina e Ivete, em parceria com a Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. As oportunidades são para atuação nas unidades do Brás e de Santo Amaro, na cidade de São Paulo: Assistente Social – Santo Amaro (1 vaga) Psicóloga(o) – Brás (1 vaga) Pedagoga(o) (1 vaga) Terapeuta Ocupacional – Serviço de Acolhimento MM – SENEV – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Terapeuta Ocupacional – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Agente Redutor de Danos – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Técnico Nível Superior – Direito – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Mediador(a) de Conflitos em Direitos Humanos – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Intérprete e Tradutor de LIBRAS – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Arquiteta(o) e Urbanista (1 vaga) Se você tem compromisso com os direitos humanos, sensibilidade para atuar com a população em situação de rua e deseja fazer parte de um trabalho que promove cidadania, inclusão social e garantia de direitos, essa pode ser a sua oportunidade. As vagas contemplam diferentes áreas de formação e incentivam a candidatura de mulheres, pessoas negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+, pessoas em situação de rua e/ou em situação de vulnerabilidade social, reafirmando o compromisso da Rede Rua com a diversidade e a inclusão. As inscrições vão até o dia 27 de junho de 2026. Para mais informações sobre requisitos, atribuições e processo de inscrição, acesse o edital completo: https://drive.google.com/file/d/14ZKw4ZTEWKP00QH-BnhPof3srJOKRtQ9/view?usp=sharing As entrevistas serão agendadas na segunda semana de julho, para início imediato das atividades ainda no próprio mês de julho.

  • “Condomínio Minhocão”

    Dando sentido às entranhas e patas do Minhocão Começo pelas notícias que cada um de nós, mais ou menos, já conhece para então abrir as frestas e os vãos entre as manchetes sobre o Elevado João Goulart, o Minhocão. Há quase um ano, no dia 29 de abril de 2025, deu-se início a construção de um estacionamento embaixo do elevado, no Centro de São Paulo. Cerca de um mês depois, esse projeto deu lugar a outro plano, a criação de jardins de inverno na extensão do canteiro central abaixo da cobertura do viaduto. Os jardins começaram a ser instalados no trecho entre as ruas General Jardim e Jaguaribe, continuando pela avenida São João. Tal empreendimento da prefeitura municipal de São Paulo é identificado pela gestão pública como parte da “requalificação de vias ao redor do Minhocão”. Parte significativa da Pop Rua cultiva plantas em locais públicos, dá atenção a cães e recicla resíduos sólidos descartados pelas pessoas domiciliadas - inclusive os moradores do Minhocão. O projeto municipal de embelezamento verde do elevado, entretanto, tem como consequência expulsar dezenas de pessoas que utilizavam o viaduto como um tipo de moradia há vários anos. Algumas delas se dispersaram na região de Santa Cecília e outras resistem no local enfrentando as investidas sistemáticas da Polícia Militar e dos agentes de Zeladoria Urbana. Como pesquisadora, acompanhei o cotidiano de dois destes moradores do Minhocão, Wiliam Pereira, S.Chok e Roger Desenho, em 2023 e 2024, quando eles ainda moravam em barracas nas malocas sob o viaduto. Com eles aprendi um pouco do tanto que cada um conhece sobre a região e sobre os muitos “jeitos” inventados para transformar essa brutal estrutura de concreto em habitação. E, como toda habitação tem vizinhos, acompanhei os moradores tornarem os vãos do elevado ambientes ricos em relações sociais, atravessados por solidariedade, por trocas, por “corres” de várias naturezas. Desde um fogão que passeava entre malocas até o compartilhamento de alimentos, mantas e informações. Estas trocas criavam elos entre os moradores do viaduto e com os moradores dos prédios convencionais e também com os comerciantes da região. Tal vínculo entre as malocas do Minhocão sugeriu imaginar a estrutura do viaduto como um grupo com os contornos de uma comunidade e, de certa forma, um condomínio de unidades que talvez pudesse se chamar “Condomínio Minhocão”. Construído durante a ditadura civil-militar e oficialmente finalizado em 1971, o Minhocão foi criado sem ser submetido a uma consulta popular e é considerado uma obra polêmica desde o seu início. Com 3,4 km de extensão, o projeto privilegiou o fluxo dos automóveis, conectando a Zona Oeste e o centro histórico. Da perspectiva de Super Chok, Desenho e de outros moradores, entretanto, diria que o Minhocão não está nunca definitivamente concluído. Ele é obra em contínua construção, dinamizada pelas atividades que se dão em seu ambiente, em especial no início da noite quando cada um dos moradores utiliza os materiais descartados por outros para colocar suas habitações de pé. Construções estas que serão destruídas pelos agentes da Zeladoria Urbana na manhã seguinte e reconstruídas ao entardecer novamente. Daí cada morador do Minhocão, assim como cada pessoa em situação de rua, com sua energia admirável, ser também um agente produtor das formas da cidade criando constantemente paisagens. Cada morador parece conhecer com intimidade as superfícies assim como as entranhas das paredes e do piso do elevado. Nos dias de chuva intensa, me apontaram como o Minhocão vaza e pinga, levando-os a colocar baldes no piso para conter as goteiras da estrutura. Deste ponto de vista, cada morador do Minhocão era também um zelador dele. Enquanto o direito à moradia não for de efetivo interesse das administrações públicas, contem comigo para lutar para que os moradores do Minhocão tenham o direito de permanecer no Elevado sem ter de enfrentar humilhações cotidianas e expulsões. Luciana Stein é jornalista e pesquisadora.

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