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- Dispersão das Pessoas em Situação de Rua
Solidariedade resiste ao avanço da população em situação de rua em Paraisópolis Membros da Pastoral de Rua Santa Dulce dos Pobres - Foto Rinaldo Santos Nos últimos meses, Paraisópolis, bairro da região sul de São Paulo, vem registrando um aumento visível de pessoas em situação de rua circulando pela comunidade. Moradores relatam que esse crescimento teria se intensificado após ações de dispersão na região central de São Paulo, especialmente na região da Luz. Embora não haja confirmação oficial sobre a origem desse fluxo, a presença de novas pessoas, muitas sem vínculos com o território, chama à atenção e evidência a ausência de políticas públicas permanentes de cuidado e acolhimento. Diante desse cenário, o Jornal O Trecheiro acompanhou uma ação da Pastoral de Rua Santa Dulce dos Pobres, da Paróquia São José. Fundada em 2019, a pastoral realiza, todas as terças-feiras, a distribuição de alimentos para pessoas em situação de rua em Paraisópolis e no centro da cidade de São Paulo. O trabalho começa toda terça-feira, por volta das 14h, quando os voluntários se reúnem para separar doações, organizar os legumes e iniciar o preparo da sopa. “Eu, na minha infância passei muita dificuldade e hoje tenho respeito”, conta Hélio Silva Cunha, um dos articuladores da pastoral. Atualmente, cerca de 500 pessoas são atendidas somando os dois territórios. Por volta das 18h, as equipes saem para a distribuição. Em Paraisópolis, a fila chega a quase 100 pessoas, entre pessoas em situação de rua e famílias em situação de vulnerabilidade, muitas com crianças. Além da sopa, são distribuídos café, café com leite, pão e suco. Uma das áreas atendidas é conhecida como “bicão”, um espaço que nunca foi urbanizado. Segundo Maria Betânia Mendonça, agente da pastoral, cerca de 40 pessoas vivem hoje no local, em barracos improvisados. “Eles pegam um pedaço de madeira para não dormir ao relento... numa situação precária mesmo, né? A dependência química é muito grande.”, relata. Além do alimento, a ação oferece oração, conversa, escuta e presença. “amor, dedicação, fazer as coisas com carinho”, afirma a voluntária Francisca Andreia da Silva. A atividade segue até cerca de 22h, alcançando diferentes pontos da comunidade.
- “Moradia Primeiro, como direito fundamental”
Relatório realizado aponta caminhos concretos para garantir moradia e dignidade à população em situação de rua. Luiz apresenta relatório em plenária do Fórum da Cidade de São Paulo em Defesa da População em Situação de Rua - Foto: Alderon Costa O pesquisador Luiz Kohara, em estudo realizado para o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, apresentou uma análise muito bacana sobre o modelo Moradia Primeiro, que propõe o acesso imediato à moradia como ponto de partida para a superação da situação de rua. Segundo ele, “ as políticas de moradia têm mais efetividade na vida das pessoas em situação de rua ”, pois a casa não tem que ter requisitos prévios, mas ser sim, um direito fundamental. O estudo mostra que a moradia digna, acompanhada de suporte social contínuo, é a base estruturante para a reinserção social e o exercício da cidadania. Em entrevista para O Trecheiro, Kohara reforça que para o bom funcionamento do modelo, monitoramento e articulação são essenciais. “É necessário um trabalho articulado dos outros setores - saúde, trabalho, renda, educação, assistência - porque a moradia é uma base, mas precisa desses outros setores ”, destaca Kohara. Foram analisadas experiências em Franca, Salvador, Florianópolis, Belo Horizonte e São Paulo, que comprovam que, ao garantir casa própria ou alugada com apoio técnico e acompanhamento, as pessoas retomam vínculos familiares, acessam serviços de saúde, voltam a estudar e trabalhar. O sentimento de segurança e pertencimento aparece como uma das principais transformações percebidas pelos beneficiários. A cidade de Franca recebe destaque especial no estudo. De acordo com Kohara, “ em Franca o trabalho é muito articulado, o que foi mostrando resultados, inclusive que o acesso à moradia para a população em situação de rua é mais barato ” em comparação com os abrigos. Para ele, a experiência demonstra que não apenas é possível implementar o modelo, como ele pode ser mais eficiente e econômico. Além das cidades brasileiras, o estudo analisou experiências internacionais do modelo Housing First , citando programas em Glasgow (Escócia) e Dublin (Irlanda), além de redes nacionais em Portugal, França, Bélgica e Espanha. Kohara destaca que ações emergenciais e assistencialistas isoladas se mostram insuficientes, e defende que o Moradia Primeiro seja consolidado como política pública permanente, com dotação orçamentária e participação ativa das pessoas em situação de rua em todas as etapas. O estudo aponta que a estabilidade de um lar é o primeiro passo para reconstruir vidas, e não o último. “É possível Housing First no Brasil? experiências de moradia para população em situação de rua na Europa e no Brasil” Relatório: https://bibliotecadigital.mdh.gov.br/jspui/handle/192/1701
- Mãos que alimentam!
Ação Social Irmã Dulce na região de Heliópolis Nos últimos anos a gravidade e precariedade de vida de tantas pessoas em situação de rua despertou a solidariedade de muitas comunidades em diferentes pontos da cidade de S. Paulo. Todas as quintas feiras à noite um grupo ligado às paróquias Sta. Edwiges e Sta. Paulina, na região de Heliópolis, se dirige à Baixada do Glicério. Tudo se inicia com um bate papo com as pessoas que aguardam e jogos e brincadeiras com as crianças que se juntam no local. Em seguida acontece a distribuição. A preparação já começa na noite de quarta-feira e se estende à tarde de quinta, onde cerca de 13 pessoas preparam a comida, uma vez na comunidade Santo Antônio e outra na Santa Ângela. Jonata Schneider, estudante de teologia Redentorista e um dos coordenadores do projeto explica que a Ação social irmã Dulce nasceu da iniciativa de comunidades que embora pobres sentiram a necessidade de acolher o apelo de gente que tem fome em uma cidade que vive na opulência. Os Missionários Redentoristas, a partir da comunidade de teologia que se situa no Ipiranga, acolheram a iniciativa e ofereceram “apoio material e motivacional para esta missão”. Não é apenas comida, queremos “trazer os nossos sonhos, a nossa partilha de vida e esperança para as pessoas que necessitarem”, completa Jonata. A opção inicial foi estar próximo da Sé, mas como a Prefeitura de S. Paulo com sua política higienista impedia a distribuição nas imediações, se dirigiram ao Glicério, bairro da área central de São Paulo. É uma oportunidade para incentivar o povo a lutar, exigir e os seus direitos. “Tentamos um modo de presença significativo, mas sabemos que a solução começa com políticas públicas adequadas", conclui Jonata. Para Leia Ribeiro e Kelly Diana de Souza é importante o sabor e a qualidade nutritiva da comida. “Aqui a gente come melhor do que em casa”. Para Virginia Bueno, da comunidade Santa Ângela, o propósito é trabalhar por “mais solidariedade, mais justiça e responsabilidade afetiva social". Luis Davi, da comunidade Sto. Antônio afirma que vir semanalmente na Baixada do Glicério “é um ato de fé e solidariedade”. E espera dos políticos um outro olhar em relação às pessoas em situação de rua. A partilha, segundo ele, “é um ato de esperança de que o mundo irá melhorar”.
- “O planeta terra sofre agressões devastadoras”
Injustiças climáticas e sociais na COP 30, em Belém/PA Mais de 40 pessoas em situação de rua de Belém se reuniram com os representantes do CIAMP Rua para discutir a crise climática na COP 30 - Foto: Luiz Kohara Com uma grande festa e a presença de amigos e amigas, Cristina Bove celebrou, no dia 5 de dezembro, 61 anos junto aos brasileiros e 80 anos de seu nascimento. Especial para O Trecheiro, Luiz Kohara que esteve nas comemorações dessa importante data, juntamente com sua esposa, Carmela, conversou com ela. Maria Cristina Bove Roletti, veio do Uruguai com 19 anos para trabalhar com pop rua e crianças e adolescentes que estavam nas ruas de Recife/PE, na Organização de Auxílio Fraterno – OAF, onde começou a fazer parte da Fraternidade das Oblatas de São Bento. Luiz Kohara - O que motivou a vida da jovem Cristina para o Brasil? Eu vim do Uruguai com 19 anos e vim em busca de conhecer melhor e poder partilhar a vida com aqueles que vivem a vida em situação de vulnerabilidade social. A partir daí eu fui me encantando e conhecendo também a comunidade das Oblata de São Bento e acabei me comprometendo com o grupo, com a comunidade e assumindo a vida religiosa. Foto: Luiz Kohara Luiz Kohara - O que significa para você essa longa caminhada com as pessoas que estão em situação de rua? Caminhar junto com a população de rua e com os catadores/as de material reciclável foi um aprendizado na vida que me serviu para poder estar numa permanente dinâmica de conversão da vida. Cada vez que a gente vê a situação de desigualdade, injustiça e falta de possibilidade que a população vive, realmente temos que nos impactar e nos comprometer cada vez mais com o bem-estar, uma vida mais digna para as pessoas. Luiz Kohara - Quais são os desafios daqui para frente? Os direitos ainda não acontecem! A gente percebe que com a população de rua e os catadores/as ainda tem muito para ser feito. Eles reivindicam, são pessoas que reivindicam e lutam pela vida e ainda não tem seus direitos garantidos. O direito à moradia, direito ao trabalho, direito à saúde.
- “Somos cidadãose cidadãs de direitos”
Luciana Ortiz T. C. Zanoni, Juíza Federal e coord. do Comitê Pop Rua Jud Nacional do CNJ falou sobre “o papel da justiça na atuação com a Pop. em Situação de Rua. Foto: Alderon Nos dias 22 e 23 de outubro, aconteceu em Brasília o Seminário Internacional “Pessoas em situação de rua: cuidado integral e direitos já!” . Pessoas com trajetória nas ruas, representantes de movimentos sociais, militantes, pesquisadores e profissionais de diferentes áreas se reuniram para apresentar relatos e estudos que traduzem, em dados e vivências, a urgência de garantir cuidado, dignidade e direitos. Entre os temas abordados nos relatos estão: a maternidade na rua, a importância da intersetorialidade, pesquisas sobre saúde, desigualdade racial, vínculo com animais e o acesso a medicamentos. A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, destacou o desafio que o país ainda enfrenta ao reconhecer a humanidade das pessoas em situação de rua: “Muitas vezes, a expressão ‘situação de rua’ vem antes da palavra ‘pessoas’. O país ainda precisa romper com essa lógica desumanizadora e garantir o direito de existir, de viver com dignidade, de ter acesso à saúde, à moradia e à educação”, afirmou a ministra. Anderson Miranda, coordenador do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para a População em Situação de Rua (CIAMP-Rua Nacional), vinculado à Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (SNDH/MDHC), destacou a persistência da lógica da caridade em detrimento do direito às políticas públicas:“Queremos políticas públicas de verdade, estruturantes, que garantam dignidade, cidadania e direitos. Somos cidadãos e cidadãs de direitos, não coitadinhos”, concluiu Miranda. A professora Aldaíza Sposati abriu sua fala no seminário abordando os desafios conceituais relacionados à situação de rua, aos segmentos, aos equipamentos e aos usuários. “São expressões que não têm acolhida nem identidade. Direitos antecipam o cuidado. Temos uma imensa dificuldade de concretizar direitos”, destacou Sposati. Entre os palestrantes esteve o padre Júlio Lancellotti, que iniciou sua fala afirmando que o sistema capitalista e neoliberal mata os pobres. “Dentro de um sistema capitalista, neoliberal, política pública é a manutenção da miséria. Quem nasceu pobre vai morrer pobre”, destacou Lancellotti. Participaram do seminário palestrantes internacionais, como: Diana Alarcón (México), doutora em Economia e assessora especial da presidente mexicana Claudia Sheinbaum; Isabel Licha (Venezuela), doutora em Sociologia do Desenvolvimento e especialista em Política Social; Roberto Carlos Angulo (Colômbia), secretário distrital de Integração Social de Bogotá; Florencia Montes Páez (Argentina), cientista política e fundadora da organização No Tan Distintas – Mulheres e dissidências em situação de rua . Na avaliação da professora Denise Paiva, uma das organizadoras do evento, o seminário foi um momento importante não apenas de aprendizado, mas também de interação. “O nosso objetivo maior é construir uma rede mais sólida, colaborativa, e este seminário foi um primeiro passo”, declarou Paiva
- Pessoas em situação de rua morremmais que a população em geral
“...a população em situação de rua teve uma taxa de mortalidade 348% maior que a população em geral.” Em 2024, 6.003 pessoas que estavam em situação de rua morreram no Brasil. Esses dados foram apresentados pelo pesquisador Marco Natalino, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no Seminário Internacional “População em Situação de Rua: Cuidado Integral e Direitos Já!”, realizado nos dias 22 e 23 de outubro na unidade de Brasília da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Como explicou Natalino, em entrevista ao jornal O Trecheiro , esses resultados foram obtidos por meio do cruzamento de dois bancos de dados públicos. De um lado, Natalino identificou todas as pessoas que declaram ao Cadastro Único (CadÚnico) que estariam em situação de rua em dezembro de 2023. Ao fazerem o seu cadastro, essas pessoas forneceram o número do seu CPF, o que possibilitou a contagem de aproximadamente 250 mil registros em todo o país naquele momento. Depois, esses números de CPF foram cruzados com os dados do Sistema Nacional de Informações de Registro Civil, que congrega informações dos cartórios de registro civil de todo o país, responsáveis por emitir certidões de óbito. Ao emitir uma declaração de óbito, o cartório também registra o CPF da pessoa que faleceu. Assim, foi possível cruzar ambos os registros e verificar quantas pessoas que estavam em situação de rua no final de 2023, segundo o CadÚnico, tinham tido seu óbito declarado por algum cartório em 2024. “Nós criamos uma lista de todas as pessoas que estavam no Cadastro Único (e que estavam obviamente vivas) ao final do ano de 2023 e observamos quantas dessas pessoas vieram a óbito em 2024 [segundo os registros dos cartórios de registro civil]”, resume Natalino. Com esses dados, também foi possível verificar se esse número representa um padrão diferente daquele observado para toda a população brasileira. Será que a população em situação de rua morre proporcionalmente mais que o restante dos brasileiros? Nesse tipo de comparação, os pesquisadores buscam equilibrar as diferenças na composição de sexo e idade dos dois grupos. Afinal, se uma população é proporcionalmente mais velha ou mais masculina que a outra, é esperado que apresente proporcionalmente mais mortes, por exemplo. Isso porque pessoas idosas e homens são grupos que morrem proporcionalmente mais que pessoas mais jovens e mulheres. Para essa comparação, portanto, Natalino realizou cálculos que consideraram as diferenças na composição da população em situação de rua e da população brasileira em geral. Segundo o pesquisador, mesmo com essas considerações, a população em situação de rua teve uma taxa de mortalidade 348% maior que a população em geral. Isso significa que a população em situação de rua morre 4,5 vezes mais que a população em geral. “Se numa população de mil pessoas, morrerem dez, numa população de mil pessoas em situação de rua, morreram 45”, compara Natalino. Para o futuro, Natalino pretende cruzar esses registros com dados do Ministério da Saúde, a fim de verificar as causas de morte dessas 6.003 pessoas e identificar fatores associados a uma maior chance de morrer em situação de rua. “Será que as políticas sociais têm algum efeito [em diminuir a chance de morrer]? Quando conseguirmos comprovar isso, pelo menos calcular isso, nós teremos uma força maior [de reivindicação política]. Eu penso que seria o grande objetivo desse trabalho”, conclui. (Abaixo vídeo da entrevista completa)
- Quando vai ter revista nova?
Essa era a pergunta que o Roberto mais me fazia nos últimos tempos. Ele viveu os últimos anos vendendo a revista Ocas , publicação que lhe possibilitava uma renda. Nos últimos meses, estava vendendo revistas antigas, mas há três meses precisou parar, pois não tinha mais exemplares à disposição. Contava com a ajuda do Bolsa Família , que foi interrompido no início do ano, e não conseguiu reverter o bloqueio. Recebia também o apoio dos irmãos, que moram no Rio de Janeiro — lugar para onde queria ir apenas para rever a família. Dizia que voltaria logo. Seu humor nem sempre era dos melhores, principalmente quando enfrentava dificuldades. Lutou até o fim contra o vício do álcool. Chegou a ter tuberculose, da qual se curou com muito apoio da equipe da Chapelaria , projeto da Rede Rua . Um dos últimos encontros que tive com o Roberto foi para gravar uma fala dele sobre Maria Alice , pedagoga, terapeuta, psicodramatista que apoiava os vendedores da Ocas e faleceu no dia 26 de fevereiro deste ano. Na gravação sobre ela, Roberto fala sobre suas crenças — ou melhor, descrenças —, mas conta que, ao conhecer Maria Alice, até pensou em ser espírita para poder “encarnar o seu espírito” e continuar seu trabalho de cuidar das pessoas. Roberto era um participante assíduo da Chapelaria Ir. Alberta , no Brás. Nos momentos bons e nos mais difíceis da vida, aquele era o seu porto seguro. Sua partida deixará um vazio para muitos frequentadores e para toda a equipe. Roberto Francisco dos Santos, nasceu em 09/02/1967 , no Rio de Janeiro de onde trazia a paixão pelo Flamengo . Seus irmãos sempre o apoiaram e várias vezes o convidaram a voltar para o Rio, mas ele preferia a vida dura de São Paulo. Dura, porque o fazia sofrer — e esse sofrimento se encerrou com sua morte, no dia 03/11 . Morreu em casa, sozinho, como tantos amigos que vivem em situação de rua. Uma morte, provavelmente, muito doida. A solidão é um mal que persegue muita gente, mas, para quem vive em situação de rua, ela é ainda mais grave e, muitas vezes, fatal. Foi encontrado pela polícia em seu quarto sozinho — exatamente o que ele mais temia que acontecesse. Enfim, a vida é assim para muitas pessoas. Agora, só nos resta desejar que ele esteja em paz e que a família, os amigos e todos os que o conheceram guardem a imagem da pessoa boa que ele foi. Quando a revista Ocas voltar, poderá ter sido por obra dele, do outro lado. Força, Roberto continue sua jornada. A Ocas e todos nós agradecemos por ter te conhecido. Um abraço solidário a todos que o conheceram.
- Mais de 2,1 milhões de votos “Por um Brasil Mais Justo”
Esse é o resultado do Plebiscito Popular Por um Brasil mais Justo e Soberano que mobilizou milhões de pessoas em todo o país, de abril a 12 de outubro desse ano e que já tem impacto no cenário político. A campanha, que se estendeu por 103 dias, terminou com 2.118.419 votos, depositados em urnas montadas em todas as regiões e via Internet. O plebiscito consultou a população sobre a redução da jornada de trabalho sem redução salarial - com o fim da escala 6x1 – e sobre a justiça tributária, com a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$5 mil mensais e a taxação dos super ricos, com rendimentos acima de R$50 mil mensais. O resultado da votação reforça a importância da mobilização popular e já teve efeito no parlamento: depois da aprovação da Câmara dos Deputados, em 1º de outubro, o Senado aprovou, no dia 5/11, o projeto do Governo do Brasil que acaba com o Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, dá desconto para quem recebe até R$ 7.350 e estabelece, para compensar, um imposto mínimo de 10% para quem ganha mais de R$ 1,2 milhão por ano. Agora só falta o projeto ser sancionado pelo presidente da República para virar lei e começar a valer a partir de 2026. Para a socióloga Rosilene Wansetto, da coordenação da Rede Jubileu Sul e Grito dos Excluídos/as e da Coordenação Executiva do Plebiscito Popular, “o processo foi muito importante, sobretudo neste momento em que o Brasil sofre ataques do imperialismo norte-americano com ameaça à nossa soberania”. Organizado por uma ampla coalizão do movimento popular, sindical e estudantil, partidos progressistas, entidades da sociedade civil e igrejas, lembra Wansetto, “o plebiscito promoveu, nesse período, atividades de formação, organização, articulação e debates, que contribuíram para o fortalecimento da democracia tão abalada nos últimos anos.” No entanto, destaca Rosilene Wansetto, os desafios ainda estão colocados, “sabemos que a vitória não está completa, precisamos seguir fortalecendo essa luta, pela tributação dos super ricos, por justiça tributária, inclusive a taxação das grandes fortunas, redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1.” * Grupo de Comunicação do Grito dos Excluídos e Excluídas
- Um Rio de Sangue Negro Derramado
Nas entranhas das comunidades, gritos de dor e desolação. Fuzis fardados do estado disparam mortes e preconceitos, parando o coração. Na Penha e Alemão em nome da "guerra ao crime" , muitas pessoas inocentes de balas crivadas. Corpos negros, da PopRua e periféricos correndo da morte e caindo com suas vidas ceifadas. O Estado, através do governador Cláudio Castro, afirma que todas e todes são do tráfico, são bandidos. É a periferia negra fugindo dos capitães dos matos, lutando por suas vidas. Até quando a sociedade vai aceitar os genocídios em nome da lei e da ordem? Até quando seremos entregues e assassinados nas mãos do sistema, nesse caminho da morte? Todos os dias vemos as notícias de crianças e adolescentes, pessoas adultas sendo vítimas de "bala perdida". Não há bala perdida e sim, Necro Política e Eugenias, e com suas miras racistas nos tiram a possibilidade da vida. No Brasil não há "guerra às drogas" e, sim extermínio das pessoas negras das Periferias e rua. Somos exterminadas e o sistema diz: eram bandidas, perigosas, a culpa não é minha, e sim delas, sua. O governo federal está propondo a nova PEC DA SEGURANÇA PÚBLICA, onde haverá as integrações entre Polícias, "Mudança". É preciso que entre nessa PEC punições exemplares para as pessoas bandidas, corruptas que atuam dentro da Pública de Segurança. Pra finalizar, é preciso reforçar que precisamos conhecer nossa História verdadeira a todo instante. Não a que está escrita nos livros de história do Brasil, e que foi rabiscada pela classe Dominante. E sim a da invasão deste PAÍS, feita pela Europa, por meio de Portugal e que nos deixou terra arrasada. Se não conhecermos de fato e de verdade, continuaremos sendo uma nação, infelizmente, ESCRAVIZADA...
- Editorial: Mortes, palanque, publicidade e impunidade
Paulo Pinto/Agência Brasil A dor, o choro e a indignação pelas mortes que não precisavam acontecer. Nossa solidariedade às famílias e aos amigos dos jovens que foram cooptados pelo tráfico, aos policiais e a toda a sociedade, que também morre em sua humanidade a cada massacre e chacina. No caso do Rio, segundo nota pública dos movimentos sociais, “o que se testemunhou foi uma operação de extermínio, não uma política de segurança. O uso indiscriminado da força, o desrespeito à vida e à dignidade humana e a ausência de transparência configuram graves violações de direitos humanos e rompem com os princípios fundamentais que devem reger qualquer ação estatal: legalidade, transparência, necessidade, proporcionalidade, precaução e responsabilidade.” O sucesso de uma operação não pode ser medido pelo número de mortes, de nenhum dos lados, e muito menos pelos aplausos de pessoas que se dizem cristãs diante da dor e do sofrimento de tantas famílias. O jornal O Trecheiro , sua equipe e todos aqueles que lutam pela vida e pela dignidade das pessoas manifestam sua solidariedade a todos e todas que sofrem com esses conflitos e acabam chorando suas perdas. Toda vida importa e precisa ser resgatada. Talvez nem a própria pessoa tenha o direito de desistir de viver. Viver não pode ser apenas uma escolha — é um direito, independente da condição social. Neste espaço, fazemos nosso silêncio indignado diante de tantas mortes que viram palanques, publicidade e permanecem impunes. 2 de outubro de 1992 - Massacre do Carandiru – 111 mortes de pessoas que estavam detidas na Casa de detenção pela polícia militar de São Paulo. 23 de julho de 1993 - Chacina da Candelária - oito jovens foram assassinados nas proximidades da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. 17 de abril de 1996 - Massacre de Eldorado dos Carajás – 19 mortes de militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e 1.200 feridos. 19 de agosto de 2004 - Massacre da Praça da Sé , sete pessoas em situação de rua morreram e outras seis ficaram gravemente feridas. 12 de maio de 2006 - “Crimes de maio” – foram mais de 550 pessoas “sumariamente executadas” em São Paulo entre os dias 12 e 21 de maio. 6 de fevereiro de 2015 - Chacina do Cabula - 13 jovens negros foram brutalmente executados, no bairro do Cabula, em Salvador. Bahia. 13 de agosto de 2015 - Chacina de Osasco e Barueri - 17 pessoas foram executadas a sangue frio e outras sete feridas que sobreviveram. 11 e 12 de novembro de 2015 - Chacina de Curió - onze adolescentes, jovens e adultos, brancos e negros foram executados na cidade de Fortaleza-CE. 1 de dezembro de 2019 - Massacre de Paraisópolis morte de nove jovens ocorrido no bairro de Paraisópolis uma ação da Polícia Militar num baile funk na cidade. 28 de julho de 2023 Operações Escudo e Verão - com 84 pessoas mortas na Baixada Santista, em São Paulo. Dia 28 de outubro de 2025 – Matança no Rio de Janeiro - mais de 120 mortos numa operação policial contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro.
- QUEM CONTA AS MORTES POR FRIO?
“...a morte é presença constante no dia a dia de quem não tem como se abrigar do frio.” Fotos: Alderon Costa Há mais de sessenta anos que, durante o inverno na cidade de São Paulo, os jornais noticiam mortes de pessoas em situação de rua pelo frio. A notícia mais antiga que consegui encontrar foi publicada na Folha de S. Paulo em 18 de junho de 1961. O corpo de Romeu Petri, de aproximadamente 50 anos, teria sido encontrado “ao lado de pequena fogueira de gravetos e bambu seco, numa olaria de Guaianases”. Na época, o bairro no extremo leste de São Paulo era famoso pelas fazendas, pelas fábricas de tijolos, telhas e cerâmicas, e pela estrada de ferro que levava ao Rio de Janeiro. Cenário muito diferente do atual centro da cidade, onde tantos irmãos e irmãs ainda morrem em decorrência das baixas temperaturas. Até hoje, porém, as notícias de jornal são um dos poucos registros de quem e quantos são os que morrem de frio nas ruas de São Paulo. Apenas em 2018 a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC), começou a monitorar os óbitos decorrentes do frio no âmbito da Operação Baixas Temperaturas (OBT), implantada todos os anos durantes os meses do outono e do inverno. Ainda assim, como consta no relatório da OBT 2020, o levantamento realizado pela SMDHC é artesanal, dependendo de “informações derivadas de agentes públicos, dos territórios, notícias publicadas pelos meios de comunicação, movimentos sociais e pela sociedade civil em geral”. Na prática, a Prefeitura não registra ativamente a ocorrência dessas mortes. E, quando comunicada a respeito de um óbito, dificilmente reconhece o frio como causa da morte. Problemas cardíacos ou complicações de doenças preexistentes são usadas como justificativa para não atribuir essas mortes ao frio, embora as baixas temperaturas sejam responsáveis pelo agravamento do estado de saúde de quem está dormindo nas ruas. Assim, por trás de uma suposta busca pela causa “exata” da morte, camufla-se o impacto da exposição ao frio extremo. Como, então, garantir que essas mortes sejam registradas? Como fazer para que a memória de quem se foi sob o frio intenso nas calçadas da cidade possa ser resgatada e mobilizada na luta por dignidade e direitos da população em situação de rua? Aqui, é importante o trabalho que movimentos sociais, como o MNPR, a Rede Rua e o MEPSRSP realizam, de registro da ocorrência dessas mortes a partir de relatos de pessoas em situação de rua e parceiros, como o Consultório na Rua, o SEAS, os centros de acolhida e pessoas engajadas nas pautas da população de situação de rua. Mas é preciso articular esses registros para que se possa contrapor os dados da Prefeitura e reforçar a construção de uma memória das mortes na rua. O poder público e a imprensa lidam com o tema como se as mortes por frio fossem excepcionais, incomuns. É preciso mobilizar a força das ruas para mostrar que a realidade é outra, que a morte é presença constante no dia a dia de quem não tem como se abrigar do frio. A reunião desses registros pode dar visibilidade à urgência da pauta por moradia, saúde e assistência para a população em situação de rua.
- Editorial: É possível outros caminhos!
Duas notícias nos chamaram à atenção enquanto fechamos esta edição. Primeiro, a notícia de que no dia 4 de setembro, o pastor Wilson Botelho, líder da Comunidade Terapêutica Projeto Quero Viver, expôs seu ódio às pessoas em situação de rua: “Você vai embora agora, você não fica aqui. Se atravessar aquela ponte, amanhã às 4 horas da tarde eu vou fazer seu sepultamento. Só eu dar uma ligada aqui e você tomar dois tiros na cabeça. Entendeu?”, declarou Rabelo para a mesa da Comissão de Justiça da Câmara Municipal de Divinópolis/MG. No mesmo dia, o prefeito Gleidson Azevedo (NOVO), de Divinópolis, também afirmou que não iria atender ‘moradores de rua’ que viessem de outras cidades “sem o devido processo legal”. Na fala do prefeito e dos secretários a preocupação com as pessoas que estão em situação de rua e não são do Munícipio ( https://www.instagram.com/p/DOKINoAj-Tl/ ). “Morador de Rua” não tem o direito de ir e vir? Primeiro que ele não deveria morar na rua e muito menos ser morador de rua. As pessoas precisam de acolhimento, tratamento, encaminhamentos para políticas que contribuam para o seu fortalecimento e criem condições de saída digna das ruas. Falamos de duas notícias, a outra chegou de Maceió /AL, no dia 8 de setembro, onde o juiz Antônio José Araújo, da 9ª Vara Federal em Alagoas fez audiência na calçada para conceder benefício ao ‘morador de rua’, Amarildo Francisco dos Santos Silva, que tinha dificuldades de locomoção e precisava do BPC (Benefício de Prestação Continuada). O jornalista Carlos Madero, no site UOL, mostra a história do juiz que decidiu sair do gabinete, juntou as partes do processo, inclusive a procuradora-chefe do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) em Alagoas, Tatiana Cabral Xavier para resolver a questão do Amarildo que teve o benefício concedido. Que esta história não seja uma exceção. Que a justiça continue olhando para as pessoas em condições de hiper vulnerabilidade e, mais importante, que a justiça vá aonde as pessoas estão precisando dela. Um contraponto à expulsão, ameaças carregadas de ódio, de preconceito, o acolhimento, a saída do espaço de acomodação e buscar soluções criativas que valorizem a humanidade, o juiz Antônio José de Araújo, provou que é possível outros caminhos!











