“Condomínio Minhocão”
- Luciana Stein

- há 2 dias
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Dando sentido às entranhas e patas do Minhocão

Começo pelas notícias que cada um de nós, mais ou menos, já conhece para então abrir as frestas e os vãos entre as manchetes sobre o Elevado João Goulart, o Minhocão. Há quase um ano, no dia 29 de abril de 2025, deu-se início a construção de um estacionamento embaixo do elevado, no Centro de São Paulo. Cerca de um mês depois, esse projeto deu lugar a outro plano, a criação de jardins de inverno na extensão do canteiro central abaixo da cobertura do viaduto. Os jardins começaram a ser instalados no trecho entre as ruas General Jardim e Jaguaribe, continuando pela avenida São João. Tal empreendimento da prefeitura municipal de São Paulo é identificado pela gestão pública como parte da “requalificação de vias ao redor do Minhocão”.
Parte significativa da Pop Rua cultiva plantas em locais públicos, dá atenção a cães e recicla resíduos sólidos descartados pelas pessoas domiciliadas - inclusive os moradores do Minhocão. O projeto municipal de embelezamento verde do elevado, entretanto, tem como consequência expulsar dezenas de pessoas que utilizavam o viaduto como um tipo de moradia há vários anos. Algumas delas se dispersaram na região de Santa Cecília e outras resistem no local enfrentando as investidas sistemáticas da Polícia Militar e dos agentes de Zeladoria Urbana.
Como pesquisadora, acompanhei o cotidiano de dois destes moradores do Minhocão, Wiliam Pereira, S.Chok e Roger Desenho, em 2023 e 2024, quando eles ainda moravam em barracas nas malocas sob o viaduto. Com eles aprendi um pouco do tanto que cada um conhece sobre a região e sobre os muitos “jeitos” inventados para transformar essa brutal estrutura de concreto em habitação. E, como toda habitação tem vizinhos, acompanhei os moradores tornarem os vãos do elevado ambientes ricos em relações sociais, atravessados por solidariedade, por trocas, por “corres” de várias naturezas. Desde um fogão que passeava entre malocas até o compartilhamento de alimentos, mantas e informações. Estas trocas criavam elos entre os moradores do viaduto e com os moradores dos prédios convencionais e também com os comerciantes da região. Tal vínculo entre as malocas do Minhocão sugeriu imaginar a estrutura do viaduto como um grupo com os contornos de uma comunidade e, de certa forma, um condomínio de unidades que talvez pudesse se chamar “Condomínio Minhocão”.
Construído durante a ditadura civil-militar e oficialmente finalizado em 1971, o Minhocão foi criado sem ser submetido a uma consulta popular e é considerado uma obra polêmica desde o seu início. Com 3,4 km de extensão, o projeto privilegiou o fluxo dos automóveis, conectando a Zona Oeste e o centro histórico. Da perspectiva de Super Chok, Desenho e de outros moradores, entretanto, diria que o Minhocão não está nunca definitivamente concluído. Ele é obra em contínua construção, dinamizada pelas atividades que se dão em seu ambiente, em especial no início da noite quando cada um dos moradores utiliza os materiais descartados por outros para colocar suas habitações de pé.
Construções estas que serão destruídas pelos agentes da Zeladoria Urbana na manhã seguinte e reconstruídas ao entardecer novamente. Daí cada morador do Minhocão, assim como cada pessoa em situação de rua, com sua energia admirável, ser também um agente produtor das formas da cidade criando constantemente paisagens. Cada morador parece conhecer com intimidade as superfícies assim como as entranhas das paredes e do piso do elevado. Nos dias de chuva intensa, me apontaram como o Minhocão vaza e pinga, levando-os a colocar baldes no piso para conter as goteiras da estrutura. Deste ponto de vista, cada morador do Minhocão era também um zelador dele. Enquanto o direito à moradia não for de efetivo interesse das administrações públicas, contem comigo para lutar para que os moradores do Minhocão tenham o direito de permanecer no Elevado sem ter de enfrentar humilhações cotidianas e expulsões.
Luciana Stein é jornalista e pesquisadora.




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