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- “Por um padrão nacional de dignidade”
Foto: Alderon Costa A vitória de Lula foi construída pela mobilização popular, inclusive da população em situação de rua, e expôs o caráter fascista e miliciano da família Bolsonaro, unindo o povo na defesa dos direitos sociais e humanos. No último debate na Globo, Bolsonaro tentou usar a pauta da população em situação de rua, mas não disse que o número de pessoas sem moradia aumentou durante a pandemia, quando o governo de seu pai foi omisso nas políticas socioassistenciais e de saúde. Acredito que o governo Lula, no quarto mandato, tem condições de aprofundar as políticas para a população em situação de rua, especialmente na área da moradia, e seguirei no Congresso como deputada federal defendendo essa pauta, como já fiz na Câmara de São Paulo, lutando pela transição gradual do acolhimento temporário para programas de moradia definitiva, pela renda básica, e por um padrão nacional de dignidade nos serviços de acolhida. * Cientista social, advogada e vereadora na cidade de São Paulo e eleita Deputada Federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em 2026.
- “Um lugar de dignidade inegociável para todos."
Foto: Alderon Costa Aos leitores do Trecheiro e a cada irmão e irmã que hoje resiste nas ruas, a reeleição do presidente Lula não é apenas uma vitória nas urnas, é a prova irrefutável de que a esperança derrotou a barbárie e de que o Estado brasileiro voltará a enxergar vocês com a humanidade que lhes foi cruelmente negada. Nós não entregamos o nosso país aos bandidos, e agora, com um novo projeto de Brasil focado em quem está na base da pirâmide, temos a força institucional necessária para derrotar a aporofobia e a política asquerosa de higienização social que tanto assola os nossos corpos. Como tenho construído lado a lado com a vereadora Amanda Paschoal, fortalecendo o nosso projeto político de emancipar as margens, o momento agora é de resgate da cidadania plena. Nós não vamos aceitar mais migalhas e não vamos recuar até que o poder público tire os nossos das calçadas não com a violência do 'rapa', mas com a chave de uma casa, garantindo que este novo amanhã seja, finalmente, um lugar de dignidade inegociável para todos. * Deputada Federal reeleita com mais de um milhão e meio de votos e autora da PEC do fim da escala 6x1
- Ação questiona o fechamento de serviços
Defensoria vai à Justiça contra o desmonte da rede de serviços públicos para população em situação de rua em São Paulo Fotos: Alderon Costa A Defensoria Pública do Estado de São Paulo ingressou com uma ação civil pública (Ação Civil Pública nº (115332542.2025.8.26.0053) para contestar o processo de diminuição de oferta da rede amunicipal de assistência social voltada à população em situação de rua. A ação questiona o fechamento, a redução e a reestruturação de equipamentos promovidos pela Prefeitura de São Paulo, sob o argumento de que as medidas vêm ocorrendo sem planejamento transparente, participação social e garantias efetivas de continuidade do atendimento. O caso tramita na 14ª Vara da Fazenda Pública da Capital e já conta com decisão liminar que impediu o fechamento imediato de serviços. Em manifestação apresentada ao processo, entidades admitidas como amici curiae (ou seja, são entidades que foram admitidas no processo que podem opinar sobre o caso a partir da experiência que tem sobre o tema) defendem a manutenção da decisão provisória e sustentam que a reorganização em curso pode representar um retrocesso na proteção social de pessoas em extrema vulnerabilidade. Entre as entidades estão o Projeto de Extensão O Direito na Rua (PEDRU), o Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR), o Observatório do Trauma Psicopolítico (USP/UNIFESP) e o Fórum da Cidade de São Paulo em Defesa da População em Situação de Rua. Segundo a manifestação apresentada pelas entidades, há relatos de encerramento de equipamentos frequentados por grupos especialmente vulneráveis, como idosos, mulheres e migrantes, além de riscos concretos de desassistência e rompimento de vínculos construídos ao longo dos anos com equipes técnicas e redes comunitárias. As entidades afirmam que a Constituição assegura a assistência social como direito fundamental e que eventuais mudanças na rede não podem resultar na redução do nível de proteção anteriormente garantido pelo poder público. A manifestação também sustenta que o fechamento de equipamentos seria apenas a etapa final de um processo mais amplo de precarização. Trabalhadores, organizações sociais e usuários relataram atrasos em repasses financeiros, insegurança na renovação de contratos, redução de encaminhamentos, esvaziamento gradual dos serviços e dificuldades de manutenção das atividades. Para os participantes da ação, esses fatores estariam contribuindo para o enfraquecimento da rede socioassistencial. As entidades ainda destacam a ausência de participação efetiva dos órgãos de controle social, como o Comitê PopRua e o Conselho Municipal de Assistência Social (Comas-SP). De acordo com a análise das atas de reuniões desses espaços, não houve deliberação prévia sobre o fechamento, a redução ou a reorganização dos serviços, apesar das reiteradas cobranças feitas por representantes da sociedade civil. Outro aspecto enfatizado é o impacto humano da descontinuidade dos atendimentos. Estudos citados no processo indicam que a perda de vagas e a transferência das pessoas podem provocar rompimento de vínculos, interrupção de tratamentos, agravamento do sofrimento psicossocial e maior exposição à violência e à vida nas ruas. Ao final, as entidades defendem que qualquer reorganização da política municipal seja realizada a partir de planejamento técnico, audiências públicas, participação dos usuários e garantia de manutenção da capacidade de atendimento. Também pedem que o Judiciário exija medidas estruturais para assegurar que mudanças na rede respeitem os direitos da população em situação de rua e as diretrizes fixadas pelo Supremo Tribunal Federal na ADPF 976.
- Direto da Rua: Na rua, na calçada, no “trecho”
35 anos do jornal O Trecheiro Eu conheço o jornal O Trecheiro desde 2016, quando fui fazer cursos na FAPCOM, ministrados pela Rede Rua. Nesses cursos, podia-se fazer o que quisesse: pintar, colorir, fotografar, desenhar. Eu estava há 16 anos sem escrever. Comecei em 1999, escrevi o ano todo e, em 2000, me levaram um caderno de 200 x 297 mm. Pensei em voltar a escrever, mas foram esses cursos que fiz na Rede Rua e na FAPCOM que me reanimaram. Foi o meu reinício na escrita. A nossa professora, na época, Carolina Estela, foi a minha musa, fonte inspiradora. Esta é a melhor maneira de elogiá-la. Todos os textos que eu escrevia, eu entregava a ela. Ela sempre me elogiava, incentivava, e eu simplesmente me empolgava e escrevia mais e mais. Tanto é que, quando paramos os cursos, se não me engano por causa da pandemia, eu segui a minha carreira solo, dando sequência à minha vida na escrita: 2017, 2018, 2019, 2020, 2021, 2022, 2023, 2024, 2025 e 2026. Eu tive a felicidade de ter vários textos meus publicados no jornal O Trecheiro. Eu tinha ansiedade, quando pegava o jornal, é claro, de ler os meus textos. Era, para mim, uma honra. Eu fazia questão de pegar o jornal com os meus textos e mandar pelo Correio tanto para Belo Horizonte como para Ponte Nova, em Minas Gerais, que é onde estiveram meus familiares. Sem dúvida nenhuma, o jornal O Trecheiro foi o maior incentivo que eu tive, devido ao grande número de exemplares, de 15 a 20 mil. Nesse espaço, tive textos que escrevi publicados na revista OCAS, mas eu gostei e procurava mesmo era O Trecheiro. E continuo assim: sempre que vejo o jornal, procuro algum texto que escrevi. Eu fico atualizado com as notícias da rua e volto à memória de tudo o que passei na rua, na calçada, nos atendimentos das comunidades, inclusive a Rede Rua, que fez, e muito bem, um intercâmbio entre mim e minha família. Foram 30 anos sem notícias. A Rede Rua me levou até a minha família. O local do encontro foi o Teatro Municipal. Nesse encontro, nos atualizamos. Foi marcado pela Andreza entre mim e minha sobrinha Aline, que, inclusive, levou tanto para Belo Horizonte como para Ponte Nova, em Minas Gerais, edições do jornal O Trecheiro, com alguns textos escritos por mim. É uma honra para mim pegar o jornal O Trecheiro. Ler um texto que eu escrevi me faz lembrar os tempos em que escrevia na rua, na calçada, nos bancos das praças, nos albergues, sem praticamente nada: caderno sobre a caixa, às vezes a caneta acabava e eu não tinha dinheiro para comprar outra. Sentado no papelão das escadarias da Praça da Sé, no Teatro Municipal, na Praça da República, o que eu queria mesmo era escrever, independentemente da posição ou do local. Assim foi feita a minha carreira solo! *Escritor e comunicador popular. Nascido em Ponte Nova (MG), escritor pelos trechos das cidades, publicou o livro, “Inimitável Sozé - Viver em São Paulo” em 2024.
- Vida no Trecho - Roseli: os caminhos de uma vida no trecho
Ao comemorar os 35 anos do jornal O Trecheiro, no seminário realizado no dia 20 de agosto, na Pinacoteca de São Paulo, tive a oportunidade de dialogar com Roseli Kreamer Esquilaro e trazer essa conversa, no formato de “Vida no Trecho”, para nossos leitores. Diante da profunda e longa trajetória de nossa entrevistada, apresentamos aqui algumas linhas dessa história que encanta, provoca e questiona nossa visão. Com a palavra, nossa querida Roseli. “Eu não sei onde nasci, mas sei onde fui adotada.” É assim que Roseli começa a contar sua história. Filha de pai italiano e mãe alemã, foi adotada aos três meses de idade. Aos 64 anos, olha para trás e reconhece uma trajetória marcada por privilégios, dores, escolhas e muitos caminhos percorridos. Desde cedo, encontrou na arte uma possibilidade de expressão. Aprendeu a pintar, a fazer artesanato e, mais tarde, a tatuar. Aos 35 anos, decidiu romper com o modo de vida que sua família esperava dela e anunciou ao pai: “Eu vou virar hippie”. Com a mochila nas costas, passou a conhecer cidades, culturas e pessoas, compartilhando conhecimentos com outros artistas e vivendo do próprio trabalho. Mas sua infância guarda uma história dolorosa. Roseli conta que sofreu abusos do irmão mais velho durante anos. Ao revelar o que acontecia, sentiu que a resposta da família não enfrentou a violência sofrida. “Eu achei muito bizarro. É uma coisa que não dá para perdoar, porque é uma coisa, é uma violência que a gente leva para o resto da vida.” A experiência deixou marcas profundas e influenciou suas escolhas. Mãe de três filhos, decidiu criá-los sozinha: “Eu nunca quis que meus filhos passassem pela mesma coisa que eu”. Roseli também questiona a forma desigual como a sociedade trata quem vive na rua. Para ela, o acesso às drogas, ao tratamento e às oportunidades é profundamente marcado pela condição social. “Porque criminaliza aquele quem está na rua, se é aquele que está dentro de casa, tem a melhor droga, tem a melhor condição, tem o melhor tratamento. Se é aquele que está na rua não tem nada e tem o pior do lixo”, declara Roseli. Por fim, completa: “é um mundo muito bizarro esse que nos limita, nos divide e nos criminaliza.” A vida no trecho também lhe trouxe encontros e lutas. Ela recorda a atuação de Eduardo Suplicy em defesa dos artistas de rua e dos artesãos que trabalhavam na região da Paulista. Para Roseli, cada pessoa carrega um potencial que precisa ser reconhecido. “Quando a gente vê o ser humano como ser humano, não como uma cor ou com um título”, diz, é possível construir outra sociedade. Ao passar o microfone para a plateia fazer suas perguntas, o deputado Eduardo Suplicy tomou a palavra e recordou o dia em que conheceu Maria Carolina de Jesus e a levou para almoçar em sua casa. “Eu a levei para almoçar. Estava havendo um almoço de cerimônia da minha mãe, recebendo um desembargador do Rio de Janeiro, mas ela recebeu a Carolina, sentou-se à mesa. Depois, eu fui apresentá-la a todos os empregados da casa e me tornei amigo dela. Estou num livro sobre ela como personagem e agora, com você, Roseli, também me sinto um personagem da sua vida”, afirmou Suplicy. Ao ser perguntada sobre os 35 anos do jornal O Trecheiro, sua resposta foi direta: “É luta, é muita luta, é muito ano”. E acrescenta que essa história precisa continuar viva. Para ela, o jornal não pode ser apenas um meio de comunicação, mas também um instrumento de luta. Quer conhecer mais dessa história? Assista à conversa completa com a Roseli. Escaneie o QR Code ao lado : https://www.youtube.com/live/bmzneBeSGrA?is=zPGD-XKNVFz9QM6N
- Sem moradia, sem direitos
Ato do Dia de Luta na Praça da Sé reivindica moradia, dignidade e denuncia tortura à população de rua Fotos: Alderon Costa Vinte e dois anos depois dos assassinatos na Praça da Sé, a pop rua continua a ocupar o espaço para exigir moradia, denunciar tortura e cobrar a colocação do marco do “massacre da Sé”. No Dia Latinoamericano de Luta da População em Situação de Rua, o ato "Parem de nos sufocar. E se fosse você? Dignidade e Moradia, já!" reuniu pessoas em situação de rua, religiosos, defensores públicos e ativistas em frente à Prefeitura de São Paulo. Dali, o grupo caminhou até a Praça da Sé, relembrando as sete pessoas em situação de rua assassinadas no local em agosto de 2004. O ato terminou com uma celebração ecumênica, reunindo a Mãe de Santo, Vanessa M. Labigalini, o Pastor Rick, o Frei Wagner, a Irmã Michael e o Padre Arlindo, presidente da Rede Rua, seguida de um grande abraço em torno do Marco Zero da cidade. Ali havia um outro marco em memória das vítimas, roubado no início de 2021, e nunca reposto pelo poder público. "A Secretaria de Direitos Humanos se cala. A gente quer o marco em respeito à população em situação de rua aqui na Praça da Sé", cobravam os manifestantes, lembrando o nome de cada uma das vítimas da violência urbana, do descaso e até do frio. "Este é o 36º Dia de Luta em que a Rede Rua está presente, e o nosso objetivo é fazer um grito para a cidade ouvir: políticas públicas que garantam moradia, trabalho e dignidade", disse Padre Arlindo. Para ele, a Prefeitura tem respondido com repressão, não com acolhimento, "até agora a política da prefeitura tem sido tomar as coisas das pessoas na rua, o que eu entendo como uma violação do direito à propriedade". Entre os presentes, Isaque Cimenato, 23 anos, mineiro, há quatro meses em situação de rua em São Paulo, resume a esperança e a cobrança: "aqui eu me sinto em casa, sinto que se a gente se esforçar tem oportunidade, só que a gente precisa do suporte do governo para começar". Já Monaliza, cabeleireira, veio de Foz do Iguaçu e hoje depende de uma vaga em um centro de acolhimento no Brás: "você não consegue trabalho se você não tem moradia. A gente precisa de trabalho, porém precisa de moradia também". Frei Wagner , Mãe Vanessa M. Labigalini, o Pastor Rico, Padre Arlindo e Irmã Michael no ato ecumênico. A falta de política habitacional foi o principal ponto cobrado por Júlia Lima, do Fórum da Cidade de São Paulo, que atua na defesa da população em situação de rua: "o último empreendimento d a cidade foi o Asdrúbal do Nascimento II, inaugurado em 2019. Depois disso, nada mais". Segundo ela, a cota federal de 3% para pessoas em situação de rua no Minha Casa, Minha Vida sequer foi adotada pela Prefeitura de São Paulo. O defensor público Victor Barros, do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública, confirmou que a instituição move ação civil pública contra o fechamento de hotéis sociais e equipamentos de acolhimento, com liminar concedida — em linha com decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, sobre a população de rua. A Campanha Estadual Permanente Contra a Tortura, que reúne a Ouvidoria de Polícia, o CONDEPE, o SOS Racismo, a OAB, o NEV/USP e a Defensoria, esteve no ato para divulgar o novo formulário de denúnicas. O Ouvidor das Polícias do Estado, Mauro Caseri, reforçou que remover pessoas à força e confiscar seus pertences "caracteriza tortura" e defendeu o direito de permanência: "a rua é nossa, não pertence a uma única classe social". A pesquisadora de pós-doutorado do Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP), que coordena a campanha, reforçou que a tortura "acontece sim no estado de São Paulo" e que a Campanha vai até os centros de acolhida e as ruas para recolher denúncias que hoje ficam silênciadas e cobrar medidas eficazes que acabem com a dor imposta aos trecheiros. Quem presenciou ou sofreu violência pode denunciar pelo site:
- Portas fechadas, direitos trancados
Alderon Costa Dezenove de agosto de 2026, por volta de 500 pessoas participaram do ato do Dia de Luta da População em Situação de Rua. Ato pensado e executado em conjunto com muitas pessoas com trajetória de rua e muitos ainda em situação de calçada. Nunca se viu uma situação tão caótica na política pública para as pessoas em situação de rua. A violência das forças de segurança que além das tradicionais violações, como as abordagens preconceituosas, agora são responsáveis por expulsar as pessoas das praças e outros espaços do centro. A atual gestão vem fechando espaços e dificultando a vida de quem precisa de um lugar para ser acolhido com dignidade. A falta de vagas, a piora nos equipamentos de acolhimento, a falta de investimento em serviços de moradia autônoma e de longo prazo e o aumento da violência são as marcas do atual prefeito, Ricardo Nunes. A população em situação de rua vem aumentando a cada dia e com os fechamentos o aumento das pessoas na frente de residências, praças e, principalmente, nas proximidades dos poucos serviços que vêm atendendo essa população conta com o ódio da população vizinha. Uma verdadeira guerra contra as pessoas que já estão em extrema vulnerabilidade social. E o que vemos é totalmente ao contrário do que deveria existie. Portas são fechadas com guardas na frente para que não haja a mínima possibilidade de entrada. No ato do dia 19 de agosto, a manifestação parou em frente à secretaria de direitos humanos e cidadania para cobrar a recolocação do marco do “massacre da Sé”. Ao chegar, a manifestação foi surpreendida com as portas fechadas e com guardas na frente. A Secretaria foi sempre um referencial de respeito e acolhida às pessoas em situação de rua. Para quem vive em situação de rua, portas fechadas não são novidade. Mas a Secretaria de Direitos Humanos não pode se dar ao luxo de fechar suas portas. Direitos humanos não se defendem atrás de portas fechadas. Defendem-se nas ruas, nos territórios, nos serviços públicos, nas reuniões, nas escutas e, sobretudo, na disposição de reconhecer o outro como sujeito de direitos. Afinal, como proteger Direitos trancando quem precisa de proteção para fora, sem ouvi-los? A população em situação de rua não precisa de portas fechadas. Precisa de moradia, trabalho, saúde, alimentação, documentação, cultura, educação e segurança. Precisa de políticas públicas articuladas e permanentes.
- Superação e luta por dignidade
“É preciso ter um lugar onde possa dormir, acordar e ter privacidade.” Fotos: Alderon Costa Por Alderon Costa e Júlia Lima As pessoas aparecem e oferecem suas histórias como contribuição para fortalecer a luta de outras. Foi assim com Natalício Batista Lins, conhecido como Natal, que apareceu, no dia 26 de julho de 2026, na reunião de preparação para o “Dia de Luta”. Chegou como se estivesse caindo de paraquedas, diretamente da Paraíba. Participou da reunião e deixou sua contribuição para o lema do ato: “E se fosse você?”. Natalício sugeriu que fosse feita uma filmagem mostrando uma pessoa arrumando seu cantinho, preparando seu papelão para dormir e, em seguida, “morrendo de hipotermia”. Ele resume assim sua proposta: “Diante de uma pessoa que acabou de morrer de hipotermia, que estava vivendo na rua, o que você gostaria que fizessem com você se estivesse no lugar dela? Isso precisaria ser mostrado às autoridades e perguntar: e se fosse você?” Ao término da reunião, o convidamos para fazer um “Vida no Trecho”, para registrar a história desse trecheiro que viveu em São Paulo e que agora superou a situação de rua e vive em João Pessoa, na Paraíba. Sua história “Bem, eu nasci em 11 de janeiro de 1966, no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Duque de Caxias. Aos quatro anos de idade, meus pais, que eram pernambucanos, retornaram para a cidade de origem, Recife, capital de Pernambuco. Foi lá que eu cresci, no Nordeste.” Seu pai, João Batista Lins, e sua mãe, Maria Vicentina de Sequeira Lins, tiveram 11 filhos. Natal lembrou, com tristeza, a morte de um dos irmãos, há cerca de dez anos. Recordou também o apoio que recebeu do deputado Eduardo Suplicy, então secretário de Direitos Humanos e Cidadania, que o levou ao velório em seu próprio carro. “Aos 17 anos, resolvi conhecer o nosso país, o Brasil. Fui um homem andarilho e viajei por muitas capitais. Acabei chegando a São Paulo, onde fiquei, entre idas e vindas, por cerca de 13 anos. Trabalhei durante muito tempo, mas sempre em uma situação difícil. Até que chegou uma época em que deixei o trabalho de lado e comecei a beber. Durante aproximadamente 55 anos, convivi com a bebida. Tornei-me alcoólatra e permaneci durante muitos anos em situação de rua em São Paulo. Morei nas calçadas e vivi assim por muito tempo, até chegar a um ponto em que me cansei daquela situação. Viajei novamente, dessa vez para o estado da Paraíba, onde estou há mais de dois anos. Cheguei a João Pessoa ainda bebendo muito. Mas fui acolhido pela Paraíba de braços abertos. Tive a oportunidade de conhecer o Centro Pop, que atende e ajuda as pessoas em situação de rua, e o Consultório na Rua, o que foi muito importante para mim. Fiquei em uma casa de acolhimento durante um ano e dois meses, fazendo tratamento para superar a dependência do álcool. Consegui vencer essa situação e deixar totalmente o uso da bebida. Hoje estou muito bem em João Pessoa. Tive a oportunidade de fazer um curso de produção de velas aromáticas. É um trabalho de que gostei muito e com o qual me identifiquei. Hoje moro de aluguel e fabrico minhas próprias velas aromáticas. É o meu artesanato. Com as vendas, consigo arcar com minhas despesas. Hoje eu não bebo mais. Sou uma presença viva diante daquelas pessoas que realmente querem sair das drogas e do álcool. Já não bebo há mais de dois anos.” Viver na calçada e na rua “Desde o princípio, a maior dificuldade é dormir na rua. Eu me alojava na rua. Na rua eu me deitava. Na rua eu acordava. Na rua eu bebia. Na rua eu permanecia. Anoitecia, amanhecia, entardecia, anoitecia novamente, e eu estava sempre na rua.” Moradia “É o primeiro passo para que uma pessoa em situação de rua possa se levantar. É preciso ter um lugar onde possa dormir, acordar e ter privacidade.” O sonho “Meu sonho é que essas pessoas que estão nas ruas, que estão passando fome, possam ter realmente um lugar para ficar. Possam ter dignidade.” Recados 1. “Saiam enquanto é tempo. Ainda há tempo. Hoje consigo ser, perante a sociedade, novamente o Natalício que eu era quando nasci.” 2. “Não baixem a cabeça. Nós precisamos de uma luta, e a luta é justamente essa: o encontro, a organização e a união para buscar e cobrar das autoridades tudo aquilo de que precisamos. E o que precisamos, acima de tudo, é da nossa dignidade.” Natalício com os participantes da preparação do 32º Dia de Luta da População em Situação de Rua
- Reafirmar direitos da População em Situação de Rua
No Rio de Janeiro, teve formação, mobilização popular, ato público, celebração e iluminação do Cristo Redentor. Fotos: Claudio Santos O Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua foi marcado, no Rio de Janeiro, por uma programação de formação, mobilização social, memória e defesa de direitos. Realizadas nos dias 18 e 19 de agosto, as atividades reafirmaram o protagonismo das pessoas em situação de rua e a necessidade de políticas públicas efetivas e permanentes. No dia 18, no Ponto de Apoio, na Catedral Metropolitana aconteceu uma roda de conversa que abordou a formação popular e a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População em Situação de Rua, com a participação do Projeto Trilhas de Cuidado, da Fundação Oswaldo Cruz. No dia 19, um painel discutiu a organização dos movimentos nacionais de luta e defesa dos direitos dessa população. Em seguida, pessoas em situação de rua, representantes de movimentos sociais e integrantes de 26 organizações participaram de uma mobilização na Cinelândia. O ato incluiu um momento de memória, a leitura coletiva de um manifesto e a apresentação de reivindicações relacionadas à moradia, saúde, assistência social, segurança alimentar, trabalho, geração de renda e enfrentamento às diferentes formas de violência e violação de direitos. Entre as entidades organizadoras estavam o Fórum Permanente de Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua, a Casa Franciscana e a Pastoral do Povo da Rua. Com uma celebração eucarística no Santuário Arquidiocesano Cristo Redentor, presidida pelo Monsenhor Manuel de Oliveira Manangão, vigário episcopal para a Caridade Social encerrou a programação. Contamos ainda com o Coral Canto da Rua, formado por pessoas acompanhadas pela Pastoral do Povo da Rua e pela Rede Dom Helder Câmara. Para Luiz Felipe da Silva, participante do Fórum e convivente dos serviços da Casa Franciscana do Rio de Janeiro é importante a luta por dignidade e contra a invisibilidade da sociedade e pelo próprio Poder Público. "Precisamos deixar de ser apenas um número na estatística e ter nossa dignidade e direitos respeitados", afirmou Felipe. Ao final, o Cristo Redentor foi iluminado em vermelho, em memória das vítimas do “massacre da Sé”, representando a memória, resistência, solidariedade e compromisso com a dignidade humana. Claudio Santos é integrante do Fórum Permanente em Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua do Rio de Janeiro
- “Escrevendo juntos"
O Trecheiro celebra 35 anos com Seminário e anúncio do livro. Fotos: Tatiane Lui O jornal O Trecheiro completou 35 anos. A data foi celebrada com um seminário no dia 20 de agosto, no Auditório da Pinacoteca de São Paulo, em frente à Estação da Luz. Fundadores, jornalistas e pesquisadores contaram histórias do jornal. O Trecheiro nasceu em 1991, na gestão da prefeita Luiza Erundina com o apoio da Editora Paulus Social. Padre Arlindo, co-fundador da Associação Rede Rua e do jornal, explicou por que ele existe: "O Trecheiro nasceu com a proposta simples e radical de que a população em situação de rua tem o que dizer e sabe dizer melhor do que ninguém sobre si mesma". O Padre participou da mesa de abertura com mediação de Joana Barros, do Centro de Memória Urbana — CMUrb, da Unifesp; e Andreza do Carmo, coordenadora geral da Rede Rua. A assistente social, Cleisa Rosa, que foi revisora do jornal por muitos anos, disse que as universidades precisam conhecer o trabalho desenvolvido em O Trecheiro como ferramenta didática para seus alunos. "Se as faculdades de jornalismo descobrissem o material vivo que existe no Trecheiro, veriam que é um jornal único", declarou, listando tarefas para o futuro do jornal no mundo digital. O seminário teve dois momentos de participação ativa da plateia. No primeiro, "Escrevendo Juntos", o público leu trechos da coluna Vida no Trecho e depois escreveu, ali mesmo, um pedaço da própria história e sua relação com a rua. No segundo momento, "Vida no Trecho", o jornalista Alderon Costa entrevistou Roseli Kraemer na frente da plateia que também pôde fazer suas perguntas. Foi uma verdadeira aula ao vivo para todos que querem publicar seus trabalhos no jornal. Na mesa de encerramento, "Jornalistas do Trecho", quem atua no jornal contou como é fazer esse trabalho. O fotógrafo Sorriso, e as colaboradoras Júlia Lima e Luciana Ribas dividiram a mesa mediada por José Vicente, outro voluntário do jornal. Luciana Ribas destacou o que ouviu de Samuel Rodrigues em uma de suas entrevistas para o aniversário do jornal: "O Trecheiro era o travesseiro dele. É o papel físico mesmo, que às vezes é tudo o que a pessoa na rua tem". Um ponto forte de O Trecheiro é que ele é feito por quem vive ou já viveu na rua. Luciney Martins, o Sorriso, que se apaixonou pela arte de fotografar a partir da sua experiência no jornal contou como se tornou fotógrafo profissional e saiu da rua. "Enquanto puder colaborar com O Trecheiro e a Rede Rua, sempre vou estar presente. É uma forma de devolver o que a Rede Rua me deu", explicou. Para fechar o seminário com alegria, foi anunciado o pré-lançamento do livro Vida no Trecho, com os textos publicados ao longo dos 35 anos na coluna que tem esse nome e existe desde o lançamento do jornal. O livro deve ficar à disposição a partir de novembro. ASSISTA AO SEMINÁRIO DOS 35 ANOS:
- O cuidado exige criatividade.
A equipe foi desafiada a encontrar outra abordagem, o que originou a ideia da cartilha ilustrada com animações Equipe comemora a indicação da cidadedo Rio de Janeiro para sediar o 10º Congresso do Consultório da Rua - Fotos: Alderon Costa No 9º Congresso do Consultório na Rua, realizado em Foz do Iguaçu entre os dias 10 e 12 de agosto, foram apresentados vários trabalhos dos Consultórios na Rua das regiões presentes no Congresso. De São Paulo, a organização Bom Par levou o trabalho relacionado ao cuidado com a sífilis. Nielson de Quadros Paulino foi um dos responsáveis pelo projeto. Com longa convivência com a realidade da rua desde os tempos de formação em Manaus, Nielson conta: “Minha trajetória com as pessoas em situação de rua começou há 17 anos, ainda em Manaus, no Amazonas, onde fui impactado por uma realidade que só via na televisão.” Na UFAM (Universidade Federal do Amazonas), Nielson já realizava um trabalho junto às pessoas que faziam uso de substâncias. Depois, seguiu para o Rio de Janeiro, onde atuou em um projeto voltado para crianças e adolescentes. Após dois anos, mudou-se para São Paulo, onde começou a estudar enfermagem, formando-se posteriormente como técnico de enfermagem. Nesse período, conheceu o Consultório na Rua, onde passou a trabalhar com pessoas em situação de rua no cuidado à saúde. “Terminei o curso técnico de enfermagem. Atuo como auxiliar na área. Estou no quarto semestre da Faculdade de Enfermagem,” conta Quadros. Os desafios no trabalho do Consultório na Rua exigem que os profissionais se esforcem, usem a criatividade e tenham muita paciência no cuidado com as pessoas. “Precisamos dar conta de um serviço que muitas vezes requer um computador disponível, uma impressora, coisas do dia a dia do trabalho. E não temos esses recursos no local onde atuamos, na calçada. Assim, vamos nos adaptando.” Foi a partir dessa necessidade que surgiu a ideia de criar uma cartilha de orientação e incentivo à prevenção e tratamento da sífilis. “Todos os meses realizamos ações de testagem rápida para identificar algumas infecções, entre elas a sífilis. E a sífilis é uma infecção comum no público que atendemos,” explica ele. Segundo Nielson, a sífilis é um desafio para todos os serviços de saúde, pois os pacientes geralmente se submetem a um tratamento dolorido, com penicilina, durante um período de três semanas. Em um caso acompanhado, a testagem rápida feita durante o pré-natal diagnosticou sífilis no casal. “A mãe iniciou o tratamento no mesmo dia, mas o pai apresentou uma fobia severa à medicação e não conseguia nem ver a agulha.” Nesse caso, a equipe foi desafiada a encontrar outra abordagem, o que originou a ideia da cartilha ilustrada com animações, explicando o que é a sífilis e seu tratamento. O material foi lido para a família da mesma forma que se lê histórias para crianças, sensibilizando o pai. “No final da leitura, ele se comprometeu a começar o tratamento naquele mesmo dia, porque entendeu a necessidade e os riscos que estavam correndo.” Ele iniciou e concluiu o tratamento. Uma semana antes do Congresso, chegou a boa notícia: a criança nasceu saudável e sem contaminação, e a equipe comemorou o sucesso da nova abordagem. Por fim, um lembrete: essa cartilha é destinada para que os profissionais leiam para os pacientes, não sendo distribuída como material impresso.
- Nasce o Redu
O mascote da Rede Nacional de Consultórios na Rua Fotos: Alderon Costa De repente, vi um boneco gigante sendo festejado, abraçado e cercado por muitas pessoas querendo tirar fotos. Quem era aquele boneco? Genivaldo Francisco, conhecido como Geni, de Recife (PE), redutor de danos, nos apresenta o mascote da Rede Nacional de Consultórios na Rua e de Rua do Brasil. “Neste 9º Congresso, trouxemos o REDU, que é o nosso mascote. Na verdade, ele já tinha sido pensado no ano passado, no 8º encontro, que aconteceu em Pernambuco, mas só agora conseguimos trazê-lo.” O mascote foi feito na Fábrica Fazendo Arte, em Recife (PE), que atua no trabalho de redução de danos. A pessoa escolhida para inspirar a criação do mascote foi Daniel de Souza, que já atua há muitos anos como redutor de danos. “Daniel é uma referência para a gente. E ele tinha que ser um homem preto, que representasse a cara desse Brasil, a diversidade. Assim, Daniel foi uma inspiração”, resume Geni. Essa inspiração foi acolhida pela Fiocruz, pelo Ministério da Saúde e pela Rede Nacional de Consultórios na Rua. Por fim, o recado de Foz do Iguaçu, levado pelo Redu: respeito, cuidado, atenção, fraternidade, solidariedade e rua.











