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- 19 DE AGOSTO
“Sem memória, há o risco de que as vítimas sejam reduzidas a números ou esquecidas pela história.” Fotos: Alderon Costa / Rede Rua Por Luciana Marin Ribas e Marina Torres Desde o ano passado, o dia 19 de agosto ganhou um significado ainda mais profundo para os movimentos sociais, entidades de defesa dos direitos humanos e para a própria população em situação de rua. A data foi oficialmente instituída como o Dia da Luta da População em Situação de Rua, por meio da Lei nº 15.187, de 4 de agosto de 2025, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A escolha não foi casual: 19 de agosto é o marco da lembrança do Massacre da Sé, um dos episódios mais violentos e emblemáticos da história recente brasileira envolvendo pessoas que viviam nas ruas. Passados mais de vinte anos, a memória do “Massacre da Sé” continua sendo um chamado à justiça e à reflexão sobre a permanência das violências sofridas pela população em situação de rua. Relembrar essa história não significa apenas homenagear as vítimas, mas denunciar a continuidade de processos de exclusão, criminalização e invisibilização que ainda marcam a vida de milhares de pessoas no país. Na madrugada de 18 para 19 de agosto de 2004, pessoas que dormiam nas ruas da região central de São Paulo foram atacadas de forma brutal enquanto descansavam. Os agressores utilizaram objetos contundentes para golpear as vítimas na cabeça, sem qualquer chance de defesa. Entre os mortos estavam José Manuel da Cruz, conhecido como Qua-quá, e Ivanildo Amaro da Silva, a Pantera, figura respeitada na região central e conhecida como “Mãe da Rua” por sua atuação solidária junto a outras pessoas em situação de rua. Nos dias seguintes, os ataques continuaram deixando mortos e feridos e espalhando medo por toda a cidade. Memorial para denunciar o assassinato de Jerfeson de Souza no dia 13 de junho de 2025. Até o momento a família continua aguardando o Translado O crime chocou o país e gerou promessas de uma solução rápida. Entretanto, as investigações foram marcadas por controvérsias, falhas processuais e impasses judiciais. Apesar da mobilização de organizações sociais e defensoras dos direitos humanos, o caso tornou-se símbolo da impunidade. Para os movimentos da população em situação de rua, o Massacre da Sé permanece como uma ferida aberta na democracia brasileira. No entanto, o Massacre da Sé não pode ser compreendido como um episódio isolado, pois ele integra uma longa trajetória de violência contra pessoas empobrecidas, negras, migrantes e excluídas socialmente. O massacre se conecta historicamente a outras chacinas e assassinatos ocorridos em diferentes regiões do país, evidenciando padrões recorrentes de desumanização e negligência institucional. Para quem acompanha a trajetória do Movimento nacional da população em situação de rua, a memória do “Massacre da Sé” é parte fundamental da construção de políticas públicas e da defesa da dignidade humana. Sem memória, há o risco de que as vítimas sejam reduzidas a números ou esquecidas pela história. Com memória, seus nomes e trajetórias permanecem vivos como denúncia e resistência. Lembrar o Massacre da Sé significa também questionar as estruturas que produzem a exclusão social e a falta de acesso à moradia, ao trabalho, à saúde e à proteção social. Mais do que uma data no calendário, o 19 de agosto tornou-se um patrimônio da luta popular. É o dia de recordar Qua-quá, Pantera, Maria de Lourdes, Maria Baixinha, Antônio Odilon, Antônio Carlos e dois dos sete assassinados que ficaram ainda sem identificação (desconhecidos) e tantas outras vítimas da violência. É o dia de afirmar que nenhuma vida é descartável. E é, sobretudo, um dia para reafirmar que memória, verdade, justiça e moradia digna continuam sendo reivindicações urgentes da população em situação de rua em todo o Brasil. Leia na íntegra a matéria da pesquisadora Rose Barbosa: https://diplomatique.org.br/o-massacre-continuo/
- Editorial: Vida curta ao jornal O Trecheiro
Criação e composição: Rinaldo Santos | Uso de inteligência artificial na edição Chegamos à edição nº 311 e aos 35 anos de publicação do Jornal O Trecheiro. Nosso maior sonho, porém, continua sem se realizar: que o jornal deixe de ser necessário. Infelizmente, pouco mudou desde a primeira edição. Gostaríamos de escrever que ninguém mais perca a família, o trabalho e a moradia para sobreviver em calçadas, praças, viadutos, centros de acolhidas ou abrigos improvisados. Gostaríamos de dizer que quem enfrenta essa realidade encontra, no Estado proteção, acolhimento e oportunidades para reconstruir a vida. Mas essa ainda não é a realidade. Há 35 anos acompanhamos, denunciamos, criticamos e apresentamos propostas para transformar essa situação. Divulgamos experiências bem-sucedidas, estudos que comprovam que a moradia é o principal caminho para romper o ciclo da exclusão e defendemos políticas integradas de trabalho, qualificação profissional, cultura e geração de renda. Mostramos, repetidamente, que sair da rua exige muito mais do que assistência emergencial: exige políticas públicas permanentes e articuladas. Mesmo assim, a população em situação de rua continua crescendo. A realidade tornou-se mais complexa, enquanto a resposta do poder público segue insuficiente. Ainda predominam serviços precários, ações de expulsão, fechamento de equipamentos e a equivocada ideia de tratar uma crise social como caso de polícia. Esta nova etapa do jornal coincide com mais um processo eleitoral. É tempo de cobrar dos candidatos compromissos concretos com políticas públicas capazes de garantir moradia, trabalho, renda, cultura e respeito. Programas permanentes, com orçamento adequado, participação social e diálogo efetivo. É preciso que as pessoas sintam que o Estado as reconhece como sujeitos de direitos e que isso esteja refletido nos planos de governo. Seguiremos fazendo um jornalismo sério, profissional enquanto ele for necessário. Mas continuaremos desejando o mesmo desde 1991: vida curta ao Jornal O Trecheiro. Porque o dia em que ele deixar de existir será o dia em que ninguém mais vai precisar das ruas para sobreviver. Vida melhor para nosso povo!
- Campanha Estadual Permanente contra a Tortura
"ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante" Foto: Alderon Costa / Rede Rua Lançada em 2024, no “Dia Latino-americano de Luta da População em Situação de Rua”, a Campanha Estadual Permanente contra a Tortura ganha força com o site e lançamentos em várias localidades, com objetivo de divulgar, articular, e efetivar a Campanha. O Objetivo da campanha é ação e conscientização para erradicar a tortura, um crime de lesa humanidade, praticado todos os dias contra a população em situação de rua, por agentes públicos, em sua maior parte. O Fórum da Cidade de São Paulo em Defesa da População em Situação de Rua além de apoiar, contribuiu na construção dessa campanha. Todos são convocados para participar dessa ação contra toda forma de tortura. Nossa missão e compromisso é agir denunciando, sejam as próprias vitimas, os/as defensores/as de direitos humanos, lideres sociais do movimento pop rua e parceiros que tenham informações de ocorrência de tortura. Qualquer pessoa pode e deve denunciar. Participe, denuncie e divulgue. Não aceite nenhuma forma de tortura. As denuncias serão sigilosas protegendo o denunciante caso faça opção, e serão encaminhadas aos órgãos de justiça caso também assim faça opção. Você também pode fazer sua denúncia por telefone: 11 3104-4429 (CONDEPE) ou pelo formulário:
- “MEU VOTO CONTA SIM"
“O exercício da cidadania começa pelo direito de opinar e ter uma posição diante das possibilidades de mudança que surgem a cada ano eleitoral” - O Trecheiro 1998 Edição 57 coluna Povo da rua espera alguma coisa A cada 4 anos temos a possibilidade de escolher um novo governante para o cargo de Presidente. É nessa função que pensamos em quem vai direcionar o Brasil, só que se a gente parar para pensar, estamos cada vez mais ouvindo falar de outros cargos que são tão importantes quanto! O presidente é a pessoa que se ocupa do Executivo federal, ou seja, é quem elegemos para executar políticas nacionais e internacionais. Mas uma parte dessas políticas é decidida em outro espaço. É o caso do Congresso Nacional: deputados federais e senadores, pessoas que elegemos para pensar em textos de leis e, nas hoje famosas e polêmicas, emendas parlamentares, entre outras coisas. Para além do governo federal, elegemos esse ano, também, pessoas para os governos dos estados. Serão governadores e deputados estaduais. Você sabe em quantas pessoas precisamos votar esse ano? Então presta a atenção que o número é grande: Em todo o Brasil, somos: sendo: Meu Voto Conta Sim! A situação de rua tem sido um assunto nacional, que ultrapassa as barreiras dos estados e que precisa de uma ampla coalizão para que seja uma situação de passado e não de aumento como temos visto. Por isso queremos pessoas que se proponham a nos ouvir e a construir conosco um Brasil igualitário com uma saída qualificada, justa e definitiva da situação de rua.
- O prêmio da Vida
“Aquele menino teve muitas derrotas no "sopro do tempo", até chegar no Arsenal da Esperança e ser conhecido como Locutor" Costumo dizer que o esporte é o prêmio da vida. É um dos mais fortes alicerces que o ser humano possui para sua longevidade. Já ouvi que o esporte é aquele nosso companheiro de todos os dias, que quando a gente mesmo não quer, ele não larga da gente. A grandeza desta ciência universal está no fato de que incrivelmente ela mexe com a nossas emoções. Poder zuar o seu amigo na segunda de manhã, depois do time dele ter perdido na rodada do final de semana, ou andar de patins com seu irmão... Difícil explicar!!! E foi isso que me atraiu. Foi essa diferença emocional que só o esporte tem, que me fez em 1993, num radinho de brinquedo em forma de cachorro, ouvir aquele Palmeiras x Corinthians e ficar maravilhado... Eu era um garoto de 5 anos de idade, que nessa idade, se encantou com a forma que o Osmar Santos falava/narrava dentro daquele rádio. E como toda criança de 5 anos, o papo era só um: "Pai, olha que legal esse homem falando aqui dentro. Pai, como que ele consegue falar aí dentro?? Junior o que é futebol? Mãe, quando eu crescer eu quero falar igual a esse homem" E quando você ouvir que o esporte tem magia única, nunca duvide. Voltando a 1993, naquele domingo um tal de Ayrton Senna da Silva continuava na mania de só chegar em primeiro lugar... E junto com o Júnior (e fascinado pela voz daquele homem dias antes, que dentro do radinho falava depressa e gritava gol numa alegria), aquele garotinho adotou para si um mantra: "Quando eu crescer, vou falar igual àquele homem do meu radinho, e igual a esse outro homem aqui também que grita legal Ayrton, Ayrton Sena do Brasil!!!". Senna já era ídolo daqueles dois irmãos, mas depois se tornaria imortal na vida deles. Tanto que o grande barato da vida desses dois garotinhos, por todo domingo, era sentar-se no sofá, ligar a tv, segurar cada um, um micrfoninho de gravador de brinquedo que apareceu no "sopro do tempo", e imitarem aquele homem que só gritava Ayrton Sena do Brasil!!! Juliano narrando jogo do Peace League (Liga da Paz) Foto: Andrea Pellegrini Ah, aquele mesmo homem no ano seguinte estava ele lá pulando e gritando igual um doido: é tetra... lá estavam aqueles dois garotinhos, segurando cada um microfoninho na frente da tv, pulavam e gritavam... A Mooca ficou pequena na magia do esporte que tomou conta daqueles dois garotinhos. O sopro do tempo levou o Júnior para uma outra esfera. Para um outro plano deste universo de Deus!!! Mas não soprou a tal "magia do esporte", e aquele menino de 5 anos que se apaixonou pela voz do Osmar Santos no rádio continuou... Continuou. Sozinho, isolado e sofrendo, mas continuou se trancando num quarto numa longínqua cidade, e narrando com uma escova a Champions, o Campeonato Brasileiro, a Copa, a Fórmula 1, a Olimpíada, etc... etc... Aquele menino teve muitas derrotas no "sopro do tempo", até chegar no "Arsenal da Esperança" e ser conhecido como "Locutor", o cara que deu a voz à Peace League (Liga da Paz). Aquele menino da Mooca voltou. E como locutor do "Arsenal e ousa a pedir ao sopro do tempo: “Sopre uma vaguinha de locutor da Globo e realize o sonho daqueles dois garotinhos”. *Convivente do Arsenal da Esperança, onde atua como locutor de esportes.
- Vigia da Rua
Smart Sampa, mais um problema para quem vive em situação de rua Fotos Alderon Costa / Rede Rua Em São Paulo, as câmeras estão por todo lado: postes, prédios, estações, comércios e serviços públicos. Para muita gente, elas nem chamam atenção. Mas, para quem está em situação de rua, a rua não é só passagem, mas onde a vida acontece. Por isso, quando a cidade passa a ser vigiada por câmeras, precisamos perguntar: quem fica mais exposto? O que é reconhecimento facial? O reconhecimento facial é uma tecnologia que tenta identificar uma pessoa pelo rosto. A câmera capta a imagem, o sistema transforma esse rosto em dados e compara com fotos guardadas em bancos de dados, como registros de documentos, pessoas desaparecidas ou procuradas pela Justiça. Mas o sistema nem sempre tem certeza. As probabilidades variam e o sistema erra com mais frequência ao tentar identificar o rosto de pessoas pardas, pretas e trans. Quando confunde uma pessoa com outra, acontece o chamado falso positivo. Na prática, esse erro pode virar abordagem, constrangimento ou condução para averiguação pela Guarda Civil Metropolitana. Por isso, é direito da população saber onde essas câmeras estão, quais dados usam, quem acessa as imagens e o que acontece quando há erro. Como funciona o Smart Sampa? O Smart Sampa é o programa de câmeras da Prefeitura de São Paulo. Ele já reúne 50 mil câmeras espalhadas pela capital: 20 mil da própria Prefeitura e 30 mil integradas de redes privadas, que são aqueles totens que se tornam cada vez mais comuns na cidade. Só na região central são mais de 12 mil câmeras conectadas. A Prefeitura afirma que o sistema usa inteligência artificial para gerar alertas e que o reconhecimento facial serve, principalmente, para localizar pessoas desaparecidas e pessoas foragidas da Justiça. Na prática, as imagens captadas pelas câmeras podem ser comparadas com bancos de dados públicos. Quando o sistema aponta uma semelhança, o alerta chega à central de monitoramento, que funciona 24 horas no centro da cidade, e pode acionar uma equipe da GCM. O problema é que o centro também é território de vida para muita gente em situação de rua. É onde se busca comida, atendimento, abrigo, trabalho, convivência e proteção. Por isso, a pergunta não é só quantas câmeras existem, mas como elas são usadas, quem elas alcançam primeiro e o que acontece quando uma pessoa é abordada por causa de um alerta. Desaparecidos, foragidos e quem vive na rua Um dos usos divulgados do Smart Sampa é encontrar pessoas desaparecidas. Isso pode parecer uma medida de proteção, principalmente quando uma família procura alguém. Mas também levanta perguntas importantes: quem colocou essa pessoa no banco de desaparecidos? O que acontece depois que a câmera aponta seu rosto? A Prefeitura informou 39 pessoas desaparecidas localizadas com ajuda do sistema, mas falta clareza sobre quais bases de dados são usadas e por quanto tempo as imagens ficam guardadas. Outro uso é localizar pessoas foragidas da Justiça. Aqui o cuidado precisa ser ainda maior. Estar em situação de rua não é crime. Mas muita gente que vive na rua enfrenta falta de documento, intimações que não chegam, processos antigos, mandados sem baixa, dificuldade de acessar defesa e pendências que poderiam ser resolvidas com orientação. Quando uma câmera transforma essa situação em alerta policial, a pessoa pode ter medo de circular, de buscar serviços, como nos postos de saúde e do Bom Prato ou de procurar acolhimento. Direito à rua, ao cuidado e à informação A tecnologia não pode transformar os pontos de cuidado em locais de desconfiança e insegurança. As pessoas em situação de rua têm direito de saber onde há reconhecimento facial, quais dados são usados, quem acessa essas imagens e o que fazer em caso de erro. Já a Prefeitura precisa assegurar que a tecnologia não será colocada próximo aos pontos de acolhida da população de rua. As políticas de segurança pública não podem virar desculpa para aumentar a vigilância sobre quem já vive com direitos negados. A rua precisa de cuidado e não de mais políticas de medo. * Doutora em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC e pesquisadora visitante na PUC-PR, onde pesquisa reconhecimento facial na segurança pública.
- “Eu faria tudo de novo”
Como era o dia a dia em um dos hotéis do De Braços Abertos? Fotos: José Vicente Kaspreski Em 2014 a “Cracolândia” viu a implantação de um programa que ficou conhecido por seu modelo inovador de atendimento para as pessoas em situação de rua, que faziam uso abusivo de substâncias ou que apenas moravam nos entornos da Luz. Era o “De Braços Abertos” (DBA), criado durante a gestão do então prefeito Fernando Haddad, que tinha por finalidade garantir o acesso a direitos básicos (como saúde, alimentação, moradia e trabalho) sem exigir a abstinência como condição de inclusão. A lógica do programa se baseava no princípio de redução de danos, desta forma, os participantes eram encaminhados para hotéis, onde passavam a morar, recebendo alimentação, e para vagas de trabalho, tudo isso com apoio de equipes de saúde e assistência social. O programa foi um sucesso, e hoje sabemos que 88% dos beneficiários relataram redução no consumo de crack, e mais da metade restabeleceu contato com familiares. Para melhor compreender como era o cotidiano do programa, a equipe do jornal “O Trecheiro” conversou com a senhora Francisca da Silva, proprietária do Hotel Semer (atualmente Taty’s Hotel), um dos hotéis que recebeu até 55 participantes do DBA, na Brasilândia. No início, Francisca nos contou que receber a rua foi um desafio, pois ela nunca havia tido contato com esse público, mas “Aí fui me adaptando e acabei ficando amiga de todo mundo e pronto. Aprendi muito com a população em situação de rua. São valores muito diferentes. Coisas que eu não daria valor, mas eles têm outros valores. A gente foi trocando experiências. Fiquei com eles durante quase dez anos. Mesmo quando o “De Braços Abertos” terminou, o projeto continuou comigo (...) . Nunca tive problema com essa galera, coisas maiores né, desavença a gente tem todos os dias, mas nada que não fosse consertado”. Convivendo diariamente, ela pode notar com clareza a melhora da condição de vida dos beneficiários, principalmente em razão da disponibilização de trabalho e moradia: “Teve casais que vieram para cá, se casaram e tiveram filhos. Muitas coisas mudaram. Eles tinham frente de trabalho, muita coisa nova, eu vi muita mudança. Porque uma vez que a pessoa tem a sua casa, por menor que seja, um lugar para tomar banho, ai você vai mudando sozinho. (...) Naquele tempo, era isso, tinha frente de trabalho, eles saíam para trabalhar, voltavam para cá, tinha serviço. Muito serviço, chamado POT [Programa Operação Trabalho]. Então eles iam trabalhar e voltavam. Eu gostei da experiência. Eu faria tudo de novo, nunca tive problemas, aprendi muito com essas pessoas. Nem sempre alguém tá na rua porque quer, cada um tem os seus desafios, né?”. Infelizmente, apesar dos excelentes resultados, o DBA foi encerrado em 2017 quando a mudança de gestão na Prefeitura levou à criação do programa Redenção. Ainda assim, o aprendizado ficou “Eles têm que fazer mais frentes de trabalho para as pessoas terem dignidade”.
- Caminhar com quem nunca deixou de (r)existir
“É preciso gritar no ouvido das pessoas, já que sua surdez aparente é uma espécie de defesa, de autodefesa covarde e malsã. É preciso que se consiga despertar nos demais a vergonha de si mesmos, que se lhes substitua a autodefesa pelo auto enojamento” Mário Benedetti, em A Trégua (1960). A rua tornou-se o símbolo da resistência diante dos problemas que a vida impõe a milhares de pessoas. A cada dia, para um número crescente de brasileiros, ela passa a ser a única alternativa possível para prolongar um pouco mais a própria existência. Essa realidade deveria nos interpelar profundamente. Em vez disso, grande parte da sociedade se arma contra essas pessoas, como se fossem seres de outro planeta. Não as quer por perto. O "enojamento" recai sobre quem vive na rua, quando, na verdade, o que deveria causar repulsa são as práticas de expulsão, higienização, encarceramento e, por fim, de morte. O jornal O Trecheiro nasceu em um momento em que ainda se acreditava ser possível transformar essa realidade, que já se agravava. No início da década de 1990, após o fim de um longo período de repressão, o sonho de construir uma nova sociedade contagiava a todos, inclusive quem vivia sob os viadutos, nos cortiços e nos mocós. Com a eleição da prefeita Luiza Erundina, acreditamos que mudanças concretas seriam possíveis. E, por um breve período de quatro anos, elas aconteceram. Para quem vivia nas calçadas, entretanto, essas transformações ainda ficaram aquém do necessário. O maior avanço daquele momento foi dar visibilidade ao problema e iniciar o debate sobre políticas públicas efetivas. O primeiro passo foi conhecer essa população: realizar a primeira contagem e compreender quem eram e como viviam as pessoas em situação de rua. O tempo passou. Novos censos foram realizados, programas e projetos foram criados com o objetivo de enfrentar essa realidade. Surgiram casas de convivência, iniciativas de geração de renda por meio de cooperativas, espaços de alimentação e ações de incentivo à organização da própria população em situação de rua. Mas o tempo não parou, e a população de rua continuou crescendo. Com ela, cresceram também os conflitos urbanos. A ampliação da rede de acolhimento mostrou-se insuficiente diante da nova realidade. A política de zeladoria urbana passou a ser acompanhada por operações constantes das forças de segurança, aumentando a violência contra quem vive nas ruas. Desde a gestão Erundina, nenhuma política pública de caráter estrutural foi implementada para alterar esse cenário. Os governos seguintes, inclusive os de orientação progressista, limitaram-se, em grande medida, à ampliação de programas já existentes, buscando amenizar o sofrimento, mas sem enfrentar as causas profundas que empurram milhares de pessoas para a rua. O resultado é conhecido: hoje, a cidade de São Paulo ultrapassa a marca de 100 mil pessoas vivendo em situação de rua. Ao longo desses 35 anos, vimos a criação de leis, políticas nacionais, movimentos organizados da população em situação de rua, programas de saúde, iniciativas de moradia e experiências de inclusão social. Houve avanços importantes. Mas nada foi implementado em escala suficiente para alterar a tendência permanente de crescimento dessa população. Mais recentemente, especialmente após a pandemia, o Poder Judiciário aproximou-se dessa realidade. Foram realizados mutirões de cidadania, criados comitês voltados ao tema e conquistada uma importante decisão do Supremo Tribunal Federal, por meio da ADPF 976, que determina a elaboração de planos de ação, o respeito aos direitos da população em situação de rua e a adoção de políticas preventivas. O Governo Federal também instituiu uma coordenação específica para dialogar com os movimentos sociais e enfrentar esse desafio. Apesar desses avanços institucionais, a realidade continua se agravando. O que vemos crescer é a criminalização da pobreza, o preconceito, a violência, o fechamento de serviços públicos em pleno inverno, as mortes provocadas pelo frio, a precariedade dos equipamentos de acolhimento e o abandono de quem mais precisa. Passados 35 anos, ainda não conseguimos vislumbrar uma solução efetiva, ampla e estrutural para quem vive — ou está prestes a viver — nas ruas. Há uma incapacidade coletiva dos gestores públicos, das instituições e, em muitos casos, das próprias organizações responsáveis por propor respostas à altura desse desafio. Em vez de reduzir o problema, assistimos ao aumento contínuo da população em situação de rua e à permanência de políticas públicas insuficientes, fragmentadas e temporárias. Na prática, a repressão, a higienização social, a expulsão dos espaços públicos, a prisão e até a eliminação física têm ocupado o lugar de políticas de inclusão. As pessoas em situação de rua seguem submetidas ao preconceito, à discriminação, à violência e à morte prematura. Em muitos casos, trata-se de uma morte anunciada. Gestores públicos sabem que, sem proteção diante das mudanças climáticas, sem acesso efetivo à saúde, à moradia e à renda, essas pessoas morrerão de forma antecipada. Ainda assim, continuam sendo devolvidas às ruas após passagens por hospitais ou postos de saúde, levando consigo as mesmas doenças e a mesma exclusão. Não temos muito a comemorar, além da própria existência deste jornal. Celebramos o fato de O Trecheiro continuar vivo, independente e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Agradecemos a cada leitor, cada apoiador e cada parceiro que tornou possível essa caminhada. Agradecemos especialmente à Paulus Editora, que esteve ao lado do jornal durante tantos anos, e também aos escritores, fotógrafos, diagramadores, revisores, distribuidores, voluntários e a todas as pessoas que ajudaram a manter esta voz circulando. Celebrar 35 anos também exige reconhecer uma verdade incômoda: enquanto a sociedade, os governos, as instituições e todos nós não formos capazes de construir saídas reais para quem vive nas ruas, a rua continuará crescendo. Quando uma sociedade naturaliza que milhares de pessoas sobrevivam e morram ao relento, ela não está apenas condenando essas pessoas. Está condenando a si mesma. O futuro de uma cidade não pode ser construído sobre calçadas transformadas em moradia permanente. Se a casa continuar sendo a rua para tantos, a rua acabará se tornando o retrato do fracasso de todos nós. 35 anos, agora é ver o que nos aguarda nos próximos anos.
- "Uma pipa de esperança"
Nova vinheta do jornal O Trecheiro Comecei colocando a noite porque ela sempre chega, e pode ser iluminada. Tudo depende de como conduzimos esses caminhos. Também inseri o mapa de São Paulo, onde nasce o jornal O Trecheiro e onde se desenvolvem suas principais atividades. O sol representa esse lugar de esperança, de direção e de horizonte. É a luz que ilumina o caminho à frente. Por isso, as pessoas olham para o sol e seguem em frente, apesar de todas as dificuldades. As figuras representam pessoas diversas, como uma grande família. É assim que muitas pessoas em situação de rua se organizam: em famílias construídas na convivência, diversas e mutáveis, com diferentes composições a cada momento e a cada novo trecho percorrido. O jornal aparece voando porque as notícias também voam. As informações ultrapassam fronteiras e alcançam outros lugares, conectando pessoas e histórias. O cobertor, conhecido pelos fiapos que ficam impregnados na roupa e no corpo após o uso, foi transformado em uma faixa de luta. Ele simboliza a capacidade das pessoas em situação de rua de transformar o luto em luta a partir dos poucos elementos que possuem. Suas escassas bagagens e aquilo que as protege do frio tornam-se símbolos de resistência e da busca por um lugar no mundo — um lugar que, muitas vezes, lhes é negado. Esses elementos também representam mapas, caminhos e os trechos percorridos por quem vive nas ruas. São os lugares por onde passam, permanecem por um tempo ou seguem adiante. O saco de lixo preto simboliza o descaso, o abandono e a invisibilidade. É o peso que precisa ficar para trás para que a vida possa seguir em frente. O bandeirão representa a luta permanente da população em situação de rua por direitos, dignidade e reconhecimento. Por fim, coloquei uma criança segurando o jornal como se ele fosse uma pipa, símbolo da esperança. As informações levadas pelo O Trecheiro estão profundamente conectadas à vida das pessoas. São elas que sustentam e contam suas próprias histórias. A criança representa a possibilidade de um outro mundo, mais justo e humano. Que essas informações alcancem lugares capazes de transformar vidas e de abrir novos caminhos para quem, durante tanto tempo, teve sua voz silenciada.
- “A Rua Foi Minha Madrasta e Minha Escola”
Vanilson da Silva revisita sua trajetória e destaca o papel histórico do Trecheiro Aos 52 anos, José Vanilson da Silva carrega no corpo e na memória quase três décadas vividas nas ruas de Natal. Militante do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), poeta, educador e referência na luta por direitos, ele revive sua trajetória e analisa caminhos, retrocessos e esperanças na política pública voltada à população em situação de rua. Nesta entrevista, Vanilson comenta a importância do Jornal O Trecheiro, que completa 35 anos em 2026. Conte um pouco sobre a sua trajetória de vida. A rua foi minha madrasta. Pisei na rua pela primeira vez aos 12 anos, empurrado por conflitos familiares. Minha infância e adolescência foram nas ruas. A rua é uma escola e uma madrasta. E eu tive uma má drasta. A rua tem uma lógica própria. Aprendi que a gente tem dois ouvidos e uma boca. Precisamos ouvir mais e falar menos. No bar ou na rua, quando você fala demais, pode se complicar. Entre consumos de experiências e territórios — albergues, praças, viadutos — vivi 27 anos nas ruas de Natal. Sai apenas em 2014, após conhecer minha companheira, Fátima. Já havia ingressado no MNPR em 2012, mas o movimento não tira ninguém da rua, mas luta para que o Estado cumpra suas obrigações. O movimento luta por políticas públicas. Não é favor, é Constituição. Gestão é que tem que garantir direitos. Você avalia que temos avanços na política pública para a população em situação de rua? Avanços temos poucos e quase sempre no papel. Houve avanços, mas tímidos, lentos e majoritariamente formais. O Decreto 7.053/2009, a ADPF 976 julgada pelo STF, a Lei 14.121 (Trabalho e Cidadania PopRua) — mas tudo isso não basta sem orçamento. A crônica falta de financiamento é o que impede que direitos saiam do papel. Sem orçamento, política pública vira tinta. A ADPF está aí, mas não está sendo respeitada. Vejo que há um aumento da violência institucional e propostas de internação compulsória disfarçadas de voluntárias. É afronta. É retrocesso. Estamos vivendo em um governo de coalizão. Poderia ser pior. Mas não basta discurso. Lula precisa colocar os óculos da visibilidade. E moradia continua sendo o direito mais negado. A moradia é a política que mais expõe a negligência do Estado. Existem avanços como a portaria que destina 3% das unidades do programa habitacional para população em situação de rua, mas isso depende de empenho e vontade política local. Além disso, precisamos de vários modelos: locação social, repúblicas, moradia digna. Do jeito que está, nada sai do papel. 35 anos do Trecheiro: memória, luta e visibilidade. Você poderia falar um pouco do jornal e sua importância para a população em situação de rua? Ao falar do Jornal O Trecheiro, Vanilson sorri. Poeta e colaborador do jornal, ele vê na publicação um instrumento único de visibilidade e resistência. O Trecheiro é feito pela rua e para a rua. É memória das lutas, das dores e das violências. Lembro a transformação do logotipo do jornal — antes com a figura clássica do andarilho carregando trouxas no ombro; hoje uma pessoa vestida como qualquer outra, trazendo consigo a mesma dignidade, apenas privada de moradia. Essa mudança é simbólica: mostra a evolução de um olhar mais justo e menos estigmatizado sobre a população em situação de rua. O jornal é muito importante por estar na capital paulista, onde se concentra o maior número de pessoas em situação de rua do país. São Paulo é a capital negra e a capital da população em situação de rua. E o Trecheiro está lá, dando voz, dando luz, publicando o que ninguém mais publica. O Trecheiro tem papel fundamental na divulgação dos protocolos, das resoluções do PopRuaJud, das lutas em todo o Brasil. Ele já contribuiu muito — e vai contribuir ainda mais. Enquanto houver pessoas andando, haverá Trecheiros. Com a lucidez de quem viveu a rua por dentro, Vanilson encerra com poesia: “Enquanto houver pessoas sem rosas, haverá Trecheiro. Enquanto houver andarilhos, haverá luta.” Nos 35 anos do jornal, seu testemunho reafirma a importância da memória e da palavra — e de que, na rua, ninguém luta sozinho.
- “Mensageiro e Travesseiro”:
Samuel Rodrigues fala sobre o jornal que o acompanhou na luta O Trecheiro nasceu para ampliar a voz de quem caminha o país pelo asfalto, pelas ocupações, pelos centros, viadutos e abrigos. Nesses 35 anos, o jornal construiu uma relação íntima com a população em situação de rua — e, entre essas histórias, está a de Samuel Rodrigues, militante, poeta e liderança histórica do movimento. Nesta entrevista exclusiva, Samuel revisita como conheceu o Trecheiro, o impacto do jornal em sua trajetória e a importância desta publicação na formação, informação e resistência da rua. Como você conheceu o jornal O Trecheiro? Eu conheci o Trecheiro pelas mãos do movimento, em eventos de população de rua. Acho que pelas mãos de Alderon, Cleisa Rosa, de Renata Besses e também de Regina Manoel, querida e saudosa. Foi nesse mesmo ambiente — de encontros, assembleias, debates — que o Trecheiro se tornou presença constante. Conheci nessa seara, com essas pessoas, nos espaços onde a Rede Rua, o Argemiro e o movimento estavam. Qual a importância do jornal O Trecheiro para a população em situação de rua? O Trecheiro cumpre funções que poucos veículos cumprem no país. Eu não tenho dúvida que o jornal Trecheiro contribui — e muito — com a rua. Ele leva as informações da rua, fala sobre políticas públicas, divulga os acontecimentos do país sobre população de rua, catadores. Ele é um foco de informação para quem conhece o tema e também de formação para quem não conhece. O Trecheiro chega a universidades, a religiosos, a pessoas que só conhecem a realidade local da rua. O jornal carrega essa informação. Até as minhas poesias foram publicadas no Trecheiro. O jornal não apenas me acompanhou, mas as minhas poesias foram divulgadas no Trecheiro. Eu tenho matérias no jornal. O Trecheiro dá voz à rua, entrevista a população de rua, exalta a luta das mulheres, do povo negro em situação de rua. É um espaço de expressão, memória e celebração da vida. O jornal escolhe na fonte, trechando, terminando os nossos congressos e fazendo essa escuta direta. O Trecheiro é útil até para embrulhar alguma coisa… e muitas vezes ele é travesseiro. Jornal muitas vezes vira travesseiro. Então ele é de grande importância para a rua: por ser mensageiro e muitas vezes por ser travesseiro. O jornal é mais do que veículo, ele é companheiro. Como o jornal O Trecheiro pode continuar contribuindo com a rua? O Trecheiro sempre acompanhou os acontecimentos urgentes do país, especialmente aqueles que impactam diretamente a população em situação de rua. Ele é um jornal muito dinâmico. Trabalhou o decreto 7.653, trabalhou a lei de Belo Horizonte, as questões permanentes dos catadores, a integração… Ele precisa continuar publicando as notícias de momento. Eu espero que o Trecheiro possa trabalhar um dia a entrega de moradias para a população de rua, o acesso ao trabalho. Mas enquanto isso não chega, que continue dando voz ao povo da rua e à sociedade civil. O Trecheiro completa 35 anos como um jornal vivo, resistente, coletivo — construído por mãos que conhecem o asfalto de perto.
- “Até que a pobreza seja um negócio de museu"
Praça Clovis Beviláqua, em São Paulo, é lugar de muitos encontros. Ali passei uma tarde com Paula Corinã Gonçalves Pereira. Há anos assumiu sua condição de trans. Toda manhã ela desmonta sua barraca e junta seus pertences antes que o rapa e a zeladoria da prefeitura façam seu giro e expulsem as pessoas em situação de rua do seu local de sobrevivência — parte da política higienista da prefeitura. Paula sobrevive a sol e chuva na praça que, há séculos, era habitada pelo povo Guaianás. “A Praça da Sé é o marco zero de São Paulo. Eu não posso chamar esse lugar de lar. É uma praça de todos nós! Aqui é mais seguro porque é um lugar de trânsito de várias pessoas.” Sua cosmovisão vem dos povos originários: “O índio já tem o estigma de que tem de estar lá na floresta, tem que estar vestido, caracterizado. Não pode ser um índio trans.” Começa pelo cotidiano: “Eu acordo, faço exercícios, vou rezar, boto água para o cachorro e vou procurar o que comer.” Pergunto onde encontra comida: “A providência divina me alimenta!” E sobre os cachorros? “Eu durmo na rua com dez cachorros... Eles são meus irmãos! É como ser o irmão mais velho. Se passar algum malfazejo, aqui por perto, o cachorro na hora sente e late!” Conhecida no entorno, ela comenta: “É revigorante para um trabalhador passar e ver uma pessoa suja desejando-lhe um bom dia verdadeiro”. Segue a conversa: “Eu nasci lá numa tribo, mas eu sou registrada em Tucuruí. Uma cidade lá no sul do Pará”. A violência doméstica a fez sair de casa: “Com 9 anos. Eu fui criada trabalhando, morando na casa dos outros. Lá no Pará, eles têm um hábito de receber gente do interior. A gente chama de madrinha, padrinho. Na verdade, é um apadrinhamento de trabalho. A gente faz o serviço doméstico e tem um lugar para morar e estudar.” “Acho que no meu caminho foi que construíram aquela lei de trabalho infantil doméstico”, comenta. Daí por diante, seguiu no trecho: “Naquele tempo era normal na Transamazônica pedir carona, até para criança. Tinha horas que o Conselho Tutelar me pegava e eu chorava porque queria ficar nas casas trabalhando e não ir para um abrigo. Peguei esse senso de fuga e fui fugindo. Morei em muitas casas, andei em muitos lugares, centenas! Fugi de trem de Marabá, no Pará, e fui chegar no Maranhão. Conheci um moço da Organização Internacional do Trabalho em Imperatriz, no Maranhão. Um outro da Vara da Infância e Juventude, ficou meu amigo.” São Paulo ainda não estava no horizonte: “era lugar de trecheiro, a gente só passava. Passei algumas vezes. Minha adolescência toda foi na estrada.” A atração pela capital não demorou: “Já deve ter mais de vinte anos que estou em São Paulo.” Também a afinidade com a praça é antiga: “Nós passamos toda a pandemia aqui. Quando acabou, cercaram a praça, a gente alugou uma casa no Glicério. Depois voltamos para cá.” Paula chorou a primeira vez na rua quando encontrou um piolho na cabeça. “Se uma pessoa me contasse toda a rotina da rua, toda a falta de privacidade, toda a falta de descanso, eu não conseguiria mensurar”. Entre as pessoas que passam pelo seu dia a dia, cita “acadêmicos, gente solidaria, prostitutas.” “Sei falar com o policial, com o bandido, com a criança, com o cachorro! Conheci pessoas que ajudavam o cachorro, mas não me davam um prato de comida”. Paula se indigna com o feminicídio: “Em algum momento, o ser humano precisa compreender que ele nasceu de uma mulher, de uma mãe. Isso o impossibilita de bater em qualquer outra mulher!” Quando lhe pergunto: “E se o município oferecesse uma casa para você?”, o senso do coletivo aflora: “Só se for pra gente alugar um galpão no centro da cidade. Não vai ser nas franjas da sociedade! Se a gente tiver de se alinhar, nos alinharemos todos juntos como uma família humana na terra”. Pergunto quando deixará a praça: “Se eu tiver de ficar aqui eu ficarei até a pobreza ser um negócio de museu!”











