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Vida no Trecho - Roseli: os caminhos de uma vida no trecho

há 27 minutos
3 min de leitura

Ao comemorar os 35 anos do jornal O Trecheiro, no seminário realizado no dia 20 de agosto, na Pinacoteca de São Paulo, tive a oportunidade de dialogar com Roseli Kreamer Esquilaro e trazer essa conversa, no formato de “Vida no Trecho”, para nossos leitores. Diante da profunda e longa trajetória de nossa entrevistada, apresentamos aqui algumas linhas dessa história que encanta, provoca e questiona nossa visão. Com a palavra, nossa querida Roseli.

“Eu não sei onde nasci, mas sei onde fui adotada.” É assim que Roseli começa a contar sua história. Filha de pai italiano e mãe alemã, foi adotada aos três meses de idade. Aos 64 anos, olha para trás e reconhece uma trajetória marcada por privilégios, dores, escolhas e muitos caminhos percorridos.

Desde cedo, encontrou na arte uma possibilidade de expressão. Aprendeu a pintar, a fazer artesanato e, mais tarde, a tatuar. Aos 35 anos, decidiu romper com o modo de vida que sua família esperava dela e anunciou ao pai: “Eu vou virar hippie”. Com a mochila nas costas, passou a conhecer cidades, culturas e pessoas, compartilhando conhecimentos com outros artistas e vivendo do próprio trabalho.

Mas sua infância guarda uma história dolorosa. Roseli conta que sofreu abusos do irmão mais velho durante anos. Ao revelar o que acontecia, sentiu que a resposta da família não enfrentou a violência sofrida. “Eu achei muito bizarro. É uma coisa que não dá para perdoar, porque é uma coisa, é uma violência que a gente leva para o resto da vida.”

A experiência deixou marcas profundas e influenciou suas escolhas. Mãe de três filhos, decidiu criá-los sozinha: “Eu nunca quis que meus filhos passassem pela mesma coisa que eu”.

Roseli também questiona a forma desigual como a sociedade trata quem vive na rua. Para ela, o acesso às drogas, ao tratamento e às oportunidades é profundamente marcado pela condição social. “Porque criminaliza aquele quem está na rua, se é aquele que está dentro de casa, tem a melhor droga, tem a melhor condição, tem o melhor tratamento. Se é aquele que está na rua não tem nada e tem o pior do lixo”, declara Roseli. Por fim, completa: “é um mundo muito bizarro esse que nos limita, nos divide e nos criminaliza.”

A vida no trecho também lhe trouxe encontros e lutas. Ela recorda a atuação de Eduardo Suplicy em defesa dos artistas de rua e dos artesãos que trabalhavam na região da Paulista.

Para Roseli, cada pessoa carrega um potencial que precisa ser reconhecido. “Quando a gente vê o ser humano como ser humano, não como uma cor ou com um título”, diz, é possível construir outra sociedade.

Ao passar o microfone para a plateia fazer suas perguntas, o deputado Eduardo Suplicy tomou a palavra e recordou o dia em que conheceu Maria Carolina de Jesus e a levou para almoçar em sua casa.

“Eu a levei para almoçar. Estava havendo um almoço de cerimônia da minha mãe, recebendo um desembargador do Rio de Janeiro, mas ela recebeu a Carolina, sentou-se à mesa. Depois, eu fui apresentá-la a todos os empregados da casa e me tornei amigo dela. Estou num livro sobre ela como personagem e agora, com você, Roseli, também me sinto um personagem da sua vida”, afirmou Suplicy.

Ao ser perguntada sobre os 35 anos do jornal O Trecheiro, sua resposta foi direta: “É luta, é muita luta, é muito ano”. E acrescenta que essa história precisa continuar viva. Para ela, o jornal não pode ser apenas um meio de comunicação, mas também um instrumento de luta.


Quer conhecer mais dessa história? Assista à conversa completa com a Roseli. Escaneie o QR Code ao lado :



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