Editorial: Vida curta ao jornal O Trecheiro

Chegamos à edição nº 311 e aos 35 anos de publicação do Jornal O Trecheiro. Nosso maior sonho, porém, continua sem se realizar: que o jornal deixe de ser necessário. Infelizmente, pouco mudou desde a primeira edição.
Gostaríamos de escrever que ninguém mais perca a família, o trabalho e a moradia para sobreviver em calçadas, praças, viadutos, centros de acolhidas ou abrigos improvisados. Gostaríamos de dizer que quem enfrenta essa realidade encontra, no Estado proteção, acolhimento e oportunidades para reconstruir a vida. Mas essa ainda não é a realidade.
Há 35 anos acompanhamos, denunciamos, criticamos e apresentamos propostas para transformar essa situação. Divulgamos experiências bem-sucedidas, estudos que comprovam que a moradia é o principal caminho para romper o ciclo da exclusão e defendemos políticas integradas de trabalho, qualificação profissional, cultura e geração de renda. Mostramos, repetidamente, que sair da rua exige muito mais do que assistência emergencial: exige políticas públicas permanentes e articuladas.
Mesmo assim, a população em situação de rua continua crescendo. A realidade tornou-se mais complexa, enquanto a resposta do poder público segue insuficiente. Ainda predominam serviços precários, ações de expulsão, fechamento de equipamentos e a equivocada ideia de tratar uma crise social como caso de polícia.
Esta nova etapa do jornal coincide com mais um processo eleitoral. É tempo de cobrar dos candidatos compromissos concretos com políticas públicas capazes de garantir moradia, trabalho, renda, cultura e respeito. Programas permanentes, com orçamento adequado, participação social e diálogo efetivo. É preciso que as pessoas sintam que o Estado as reconhece como sujeitos de direitos e que isso esteja refletido nos planos de governo.
Seguiremos fazendo um jornalismo sério, profissional enquanto ele for necessário. Mas continuaremos desejando o mesmo desde 1991: vida curta ao Jornal O Trecheiro. Porque o dia em que ele deixar de existir será o dia em que ninguém mais vai precisar das ruas para sobreviver. Vida melhor para nosso povo!





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