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19 DE AGOSTO

há 9 horas
3 min de leitura

“Sem memória, há o risco de que as vítimas sejam reduzidas a números ou esquecidas pela história.”


Fotos: Alderon Costa / Rede Rua
Fotos: Alderon Costa / Rede Rua

Por Luciana Marin Ribas e Marina Torres


Desde o ano passado, o dia 19 de agosto ganhou um significado ainda mais profundo para os movimentos sociais, entidades de defesa dos direitos humanos e para a própria população em situação de rua. A data foi oficialmente instituída como o Dia da Luta da População em Situação de Rua, por meio da Lei nº 15.187, de 4 de agosto de 2025, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A escolha não foi casual: 19 de agosto é o marco da lembrança do Massacre da Sé, um dos episódios mais violentos e emblemáticos da história recente brasileira envolvendo pessoas que viviam nas ruas. 

Passados mais de vinte anos, a memória do “Massacre da Sé” continua sendo um chamado à justiça e à reflexão sobre a permanência das violências sofridas pela população em situação de rua. Relembrar essa história não significa apenas homenagear as vítimas, mas denunciar a continuidade de processos de exclusão, criminalização e invisibilização que ainda marcam a vida de milhares de pessoas no país.

Na madrugada de 18 para 19 de agosto de 2004, pessoas que dormiam nas ruas da região central de São Paulo foram atacadas de forma brutal enquanto descansavam. Os agressores utilizaram objetos contundentes para golpear as vítimas na cabeça, sem qualquer chance de defesa. Entre os mortos estavam José Manuel da Cruz, conhecido como Qua-quá, e Ivanildo Amaro da Silva, a Pantera, figura respeitada na região central e conhecida como “Mãe da Rua” por sua atuação solidária junto a outras pessoas em situação de rua. Nos dias seguintes, os ataques continuaram deixando mortos e feridos e espalhando medo por toda a cidade. 

Memorial para denunciar o assassinato de Jerfeson de Souza no dia 13 de junho de 2025. Até o momento a família continua aguardando o Translado
Memorial para denunciar o assassinato de Jerfeson de Souza no dia 13 de junho de 2025. Até o momento a família continua aguardando o Translado

O crime chocou o país e gerou promessas de uma solução rápida. Entretanto, as investigações foram marcadas por controvérsias, falhas processuais e impasses judiciais. Apesar da mobilização de organizações sociais e defensoras dos direitos humanos, o caso tornou-se símbolo da impunidade. Para os movimentos da população em situação de rua, o Massacre da Sé permanece como uma ferida aberta na democracia brasileira. No entanto, o Massacre da Sé não pode ser compreendido como um episódio isolado, pois ele integra uma longa trajetória de violência contra pessoas empobrecidas, negras, migrantes e excluídas socialmente. O massacre se conecta historicamente a outras chacinas e assassinatos ocorridos em diferentes regiões do país, evidenciando padrões recorrentes de desumanização e negligência institucional.

Para quem acompanha a trajetória do Movimento nacional da população em situação de rua, a memória do “Massacre da Sé” é parte fundamental da construção de políticas públicas e da defesa da dignidade humana. Sem memória, há o risco de que as vítimas sejam reduzidas a números ou esquecidas pela história. Com memória, seus nomes e trajetórias permanecem vivos como denúncia e resistência.

Lembrar o Massacre da Sé significa também questionar as estruturas que produzem a exclusão social e a falta de acesso à moradia, ao trabalho, à saúde e à proteção social. Mais do que uma data no calendário, o 19 de agosto tornou-se um patrimônio da luta popular. É o dia de recordar Qua-quá, Pantera, Maria de Lourdes, Maria Baixinha, Antônio Odilon, Antônio Carlos e dois dos sete assassinados que ficaram ainda sem identificação (desconhecidos) e tantas outras vítimas da violência. É o dia de afirmar que nenhuma vida é descartável. E é, sobretudo, um dia para reafirmar que memória, verdade, justiça e moradia digna continuam sendo reivindicações urgentes da população em situação de rua em todo o Brasil.


Leia na íntegra a matéria da pesquisadora Rose Barbosa:



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