“Eu faria tudo de novo”
Como era o dia a dia em um dos hotéis do De Braços Abertos?

Em 2014 a “Cracolândia” viu a implantação de um programa que ficou conhecido por seu modelo inovador de atendimento para as pessoas em situação de rua, que faziam uso abusivo de substâncias ou que apenas moravam nos entornos da Luz. Era o “De Braços Abertos” (DBA), criado durante a gestão do então prefeito Fernando Haddad, que tinha por finalidade garantir o acesso a direitos básicos (como saúde, alimentação, moradia e trabalho) sem exigir a abstinência como condição de inclusão. A lógica do programa se baseava no princípio de redução de danos, desta forma, os participantes eram encaminhados para hotéis, onde passavam a morar, recebendo alimentação, e para vagas de trabalho, tudo isso com apoio de equipes de saúde e assistência social. O programa foi um sucesso, e hoje sabemos que 88% dos beneficiários relataram redução no consumo de crack, e mais da metade restabeleceu contato com familiares.
Para melhor compreender como era o cotidiano do programa, a equipe do jornal “O Trecheiro” conversou com a senhora Francisca da Silva, proprietária do Hotel Semer (atualmente Taty’s Hotel), um dos hotéis que recebeu até 55 participantes do DBA, na Brasilândia. No início, Francisca nos contou que receber a rua foi um desafio, pois ela nunca havia tido contato com esse público, mas “Aí fui me adaptando e acabei ficando amiga de todo mundo e pronto. Aprendi muito com a população em situação de rua. São valores muito diferentes. Coisas que eu não daria valor, mas eles têm outros valores. A gente foi trocando experiências. Fiquei com eles durante quase dez anos. Mesmo quando o “De Braços Abertos” terminou, o projeto continuou comigo (...) . Nunca tive problema com essa galera, coisas maiores né, desavença a gente tem todos os dias, mas nada que não fosse consertado”.

Convivendo diariamente, ela pode notar com clareza a melhora da condição de vida dos beneficiários, principalmente em razão da disponibilização de trabalho e moradia: “Teve casais que vieram para cá, se casaram e tiveram filhos. Muitas coisas mudaram. Eles tinham frente de trabalho, muita coisa nova, eu vi muita mudança. Porque uma vez que a pessoa tem a sua casa, por menor que seja, um lugar para tomar banho, ai você vai mudando sozinho. (...) Naquele tempo, era isso, tinha frente de trabalho, eles saíam para trabalhar, voltavam para cá, tinha serviço. Muito serviço, chamado POT [Programa Operação Trabalho]. Então eles iam trabalhar e voltavam. Eu gostei da experiência. Eu faria tudo de novo, nunca tive problemas, aprendi muito com essas pessoas. Nem sempre alguém tá na rua porque quer, cada um tem os seus desafios, né?”.
Infelizmente, apesar dos excelentes resultados, o DBA foi encerrado em 2017 quando a mudança de gestão na Prefeitura levou à criação do programa Redenção. Ainda assim, o aprendizado ficou “Eles têm que fazer mais frentes de trabalho para as pessoas terem dignidade”.





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