“Um anjo que surgiu nas nossas vidas”
- Alderon Costa

- há 3 dias
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Memória de Maria Alice, suporte e inspiração dos vendedores da Revista Ocas

Maria Alice Vassimon, um ano longe de nós. Mas não parece. Temos a sensação de que ela continua muito presente. Ela nos deixou um legado que ninguém nos tira: a defesa de uma vida em que prevaleça a justiça, com muito — mas muito — amor; onde a acolhida respeitosa aconteça, onde haja alegria de viver, firmeza nas posições e ternura por todo ser humano.
No dia 26 de fevereiro de 2025, recebemos uma mensagem de sua filha, Georgia: “Querido, notícia triste. Mamãe faleceu essa noite”. Um susto e uma tristeza tomaram conta de todos que souberam. Eduardo Jair Oliveira Pinto, ex-vendedor da Revista Ocas e eu fomos à sua despedida. Foi um momento muito forte, marcado pelo carinho de todos que estavam ali.
Conversei com alguns vendedores da Revista Ocas, vendida nas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro, que gerava renda para pessoas com trajetória de rua. Maria Alice teve uma importância enorme na sobrevivência e até no fortalecimento do projeto. Ela cuidava, fortalecia e acompanhava voluntariamente alguns vendedores da Ocas. Aqueles que desejavam participavam, todas as segundas-feiras, de um momento terapêutico.
Para Eduardo, que foi morador do Arsenal da Esperança, um albergue que acolhe pessoas em situação de rua, ter conhecido Maria Alice mudou sua vida:

“Lá no Arsenal, eu vi um anúncio: ‘Precisa-se de vendedor da Ocas’. Vim para a rua Campos Sales, 88, e conheci o Marcos, que na época era atendente dos vendedores. Logo conheci Maria Alice e comecei a participar do psicodrama toda segunda-feira”, contou Eduardo.
Para Sérgio Borges Carvalho, que foi vendedor da Ocas por oito anos e batalhou muito para superar suas dificuldades, aquele período foi decisivo:
“Naquela época, todos os problemas pareciam ter caído nas minhas costas de uma vez só. Lutar pela vida, a gente tem que lutar para sobreviver, senão fica difícil”, relembra Borges.
Na Ocas, ele iniciou um trabalho terapêutico para ajudá-lo no convívio e a melhorar suas vendas. Passou a participar dos encontros das segundas-feiras porque acreditava que ali poderia encontrar apoio para sua saúde mental.
“Maria Alice sempre vai ser uma pessoa que, para mim, está viva. Maria Alice é sempre Maria Alice. Isso incentivou bastante a gente”, conclui.

Walter Machado, frequentador assíduo das sessões de psicodrama que aconteciam no Centro Cultural — até mesmo antes de tentar vender a revista Ocas — passou também a participar de alguns encontros na Ocas. Sempre com presença marcante e personalidade forte, declarou:
“Eu não sou terapeuta, melhor para mim, mas muita luz, Maria Alice Vassimon, na dimensão em que estiver.”
Em 3 de novembro de 2025, Roberto Francisco de Oliveira Santos, vendedor fiel da Ocas, também fez sua passagem. Antes, deixou gravada uma fala sobre Maria Alice:
“Eu não tenho religião, mas dizia sempre que a Maria Alice era um anjo que surgiu nas nossas vidas. Por tudo que ela proporcionou para nós, pela ajuda psicológica que nos deu. Ela também abriu o consultório dela, lá nas Perdizes, para fazer um atendimento mais individual”, concluiu Francisco.

Junto com Roberto e Maria Alice, lembramos também de Pilar, Ruth e de outros vendedores da Ocas que tiveram sua importância nessa história coletiva.
Maria Alice não foi apenas terapeuta. Foi ponte, foi escuta, foi coragem. Foi presença. E continua sendo, na memória viva de cada pessoa que ajudou a se reerguer.
Maria Alice não foi apenas terapeuta. Foi ponte, foi escuta, foi coragem. Foi presença. E continua sendo, na memória viva de cada pessoa que ajudou a se reerguer. Na próxima edição, entrevista com Georgia Vassimon sobre a trajetória de sua mãe, Maria Alice.




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