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Viver nas Ruas

Entrevista com a jornalista Rebeca Kritsch que viveu por cinco dias nas ruas.



No mês de abril, tivemos o lançamento do livro “Viver nas Ruas”, de Rebeca Kritsch. A obra traz a republicação de uma série especial sobre pessoas em situação de rua feita em 1995 pela autora para o jornal O Estado de São Paulo. Rebeca e o fotógrafo Vidal Cavalcanti dormiram nas ruas de São Paulo por cinco dias e, na reportagem, ela apresentou a realidade e a dificuldade vividas por quem está nessa situação.


Trecheiro: Quais pontos te chamaram atenção e que você nunca tinha parado para pensar sobre quem está em situação de rua?


Rebeca: Eu não sabia como era difícil uma pessoa sair da rua. Eu tinha a mesma impressão de outros, que se você oferecesse um trabalho, uma casa, a pessoa saía.

Outra coisa é que eu achava que a pessoa em situação de rua não transava. Eu pensava: “como é que o povo engravida?” Daí eu descobri como é que transavam.

E um último ponto é como as mulheres faziam quando menstruavam. Então elas, muitas vezes, pediam dinheiro para comprar absorvente. E é algo que, antes, nunca me passou pela cabeça.


Trecheiro: você conheceu diversas pessoas que estavam verdadeiramente nesta situação. Qual trajetória de vida mais te marcou?


Rebeca: São duas que me deixaram muito triste. Uma delas é a Berenice, uma moça linda, nova e que foi estuprada dentro de casa. E por isso caiu na rua e nunca saiu. Ela tá até hoje. Aquilo me deu uma tristeza, a menina pirou.

Outra foi a dona Jane, uma aposentada que morava embaixo do Minhocão. Velhos de rua mexem comigo até hoje. As pessoas olham para pessoas velhas na rua e julgam. Olham e falam: “Isso daí não conseguiu nada da vida. O que deve ter feito para ter caído na rua?” As pessoas não entendem que muitas vezes esses idosos são maltratados pela família, são jogados na rua. A família toma casa, toma tudo. Por isso a senhora que vivia no elevado me marcou muito e também porque, inclusive, ela pegava a aposentadoria e era assaltada todo mês, vivia naquele perigo.


Trecheiro: Em 1995, sua reportagem foi importante para trazer visi bilidade à realidade e às dificuldades vividas por quem está em situação de rua. Você acha que o preconceito com quem está nessa situação (chamado de aporofobia) mudou ao longo desses 30 anos?


Rebeca: Eu saí do Brasil há 16 anos. Enquanto estive no Brasil, eu via aporofobia direto. E nesses últimos 16 anos, acho até que piorou. Nas minhas visitas ao Brasil, o preconceito contra pobre é horrível. Entre a elite se agravou. Como foi o caso do metrô em Higienópolis, que os moradores do bairro não queriam porque ia aparecer um público “diferenciado”.


Trecheiro: Tivemos o caso recente em Belém (PA), em que universitários davam choque num senhor em situação de rua com saúde mental comprometida. Eram dois jovens e a diversão era um deles dar o choque com aquelas armas de choque, o outro filmar dando risada e divulgar nas redes. É o tipo de notícia que acaba com a fé na humanidade.


Rebeca: São surreais. Vemos as pessoas falando mal de pobre. Eu tenho ex-amigos. Ouvi coisas que não tem como continuar sendo amigo. Frases como: “Olha que lama”, ao ver uma pessoa na rua. É muito triste. As pessoas em situação de rua são humilhadas. A normalização da agressividade, da violência, da falta de respeito. Liberou o pior das pessoas.


Trecheiro: Qual o papel do jornalismo no combate ao preconceito e na busca de uma sociedade mais justa?



Rebeca: Fiz jornalismo em Columbia, nos Estados Unidos. E eles falam que jornalista é um ser que é pago para se preocupar com os problemas do mundo. E, para mim, jornalista é isso. Jornalismo é uma função de servir ao público, servir à sociedade. Jornalismo é mais que um papel. É um dever de denunciar desigualdades e trabalhar para uma sociedade mais justa.

Outro papel muito importante do jornalismo é de educar. Com as redes sociais hoje, há grandes oportunidades para educar pessoas. E o jornalismo é uma profissão privile-

giada para fazer isso.


Trecheiro: Atualmente você vive fora do Brasil. A partir da sua experiência no Reino Unido, tem algo que o Brasil poderia aproveitar como exemplo na questão da situação de rua?


Rebeca: Quando lancei o livro, vi os números da Inglaterra e aprendi algumas coisas. Aqui tem duas categorias, homeless e rough sleeper. A pessoa é considerada homeless antes de estar em situação de rua, antes de dormir na rua. São pessoas que estão em moradia temporária, sem estabilidade na moradia, que estão em situação que podem ser despejadas a qualquer momento ou que estão em centros de acolhida. Atualmente há 140.227 homeless no Reino Unido (dados de março de 2024). Já rough sleeper é quem está dormindo nas ruas, em calçadas. São 4.667 rough sleeper só na Inglaterra (dados de outubro de 2024). Ou seja, a Inglaterra coloca recursos e esforços para não deixar a pessoa cair na rua. Porque uma vez que caiu, é difícil sair. Há uma atenção especial para famílias, para que não caiam nas ruas com crianças. Acredito que essa atenção antes de cair na rua é muito importante. Porque o que você investe aqui, economiza lá na frente.



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