“A Rua Foi Minha Madrasta e Minha Escola”
Vanilson da Silva revisita sua trajetória e destaca o papel histórico do Trecheiro

Aos 52 anos, José Vanilson da Silva carrega no corpo e na memória quase três décadas vividas nas ruas de Natal. Militante do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), poeta, educador e referência na luta por direitos, ele revive sua trajetória e analisa caminhos, retrocessos e esperanças na política pública voltada à população em situação de rua. Nesta entrevista, Vanilson comenta a importância do Jornal O Trecheiro, que completa 35 anos em 2026.
Conte um pouco sobre a sua trajetória de vida.
A rua foi minha madrasta. Pisei na rua pela primeira vez aos 12 anos, empurrado por conflitos familiares. Minha infância e adolescência foram nas ruas. A rua é uma escola e uma madrasta. E eu tive uma má drasta. A rua tem uma lógica própria. Aprendi que a gente tem dois ouvidos e uma boca. Precisamos ouvir mais e falar menos. No bar ou na rua, quando você fala demais, pode se complicar.
Entre consumos de experiências e territórios — albergues, praças, viadutos — vivi 27 anos nas ruas de Natal. Sai apenas em 2014, após conhecer minha companheira, Fátima. Já havia ingressado no MNPR em 2012, mas o movimento não tira ninguém da rua, mas luta para que o Estado cumpra suas obrigações. O movimento luta por políticas públicas. Não é favor, é Constituição. Gestão é que tem que garantir direitos.
Você avalia que temos avanços na política pública para a população em situação de rua?
Avanços temos poucos e quase sempre no papel. Houve avanços, mas tímidos, lentos e majoritariamente formais. O Decreto 7.053/2009, a ADPF 976 julgada pelo STF, a Lei 14.121 (Trabalho e Cidadania PopRua) — mas tudo isso não basta sem orçamento. A crônica falta de financiamento é o que impede que direitos saiam do papel. Sem orçamento, política pública vira tinta.
A ADPF está aí, mas não está sendo respeitada. Vejo que há um aumento da violência institucional e propostas de internação compulsória disfarçadas de voluntárias. É afronta. É retrocesso.
Estamos vivendo em um governo de coalizão. Poderia ser pior. Mas não basta discurso. Lula precisa colocar os óculos da visibilidade. E moradia continua sendo o direito mais negado. A moradia é a política que mais expõe a negligência do Estado. Existem avanços como a portaria que destina 3% das unidades do programa habitacional para população em situação de rua, mas isso depende de empenho e vontade política local. Além disso, precisamos de vários modelos: locação social, repúblicas, moradia digna. Do jeito que está, nada sai do papel.
35 anos do Trecheiro: memória, luta e visibilidade. Você poderia falar um pouco do jornal e sua importância para a população em situação de rua?
Ao falar do Jornal O Trecheiro, Vanilson sorri. Poeta e colaborador do jornal, ele vê na publicação um instrumento único de visibilidade e resistência.
O Trecheiro é feito pela rua e para a rua. É memória das lutas, das dores e das violências.
Lembro a transformação do logotipo do jornal — antes com a figura clássica do andarilho carregando trouxas no ombro; hoje uma pessoa vestida como qualquer outra, trazendo consigo a mesma dignidade, apenas privada de moradia. Essa mudança é simbólica: mostra a evolução de um olhar mais justo e menos estigmatizado sobre a população em situação de rua. O jornal é muito importante por estar na capital paulista, onde se concentra o maior número de pessoas em situação de rua do país. São Paulo é a capital negra e a capital da população em situação de rua. E o Trecheiro está lá, dando voz, dando luz, publicando o que ninguém mais publica.
O Trecheiro tem papel fundamental na divulgação dos protocolos, das resoluções do PopRuaJud, das lutas em todo o Brasil. Ele já contribuiu muito — e vai contribuir ainda mais. Enquanto houver pessoas andando, haverá Trecheiros.
Com a lucidez de quem viveu a rua por dentro, Vanilson encerra com poesia:
“Enquanto houver pessoas sem rosas, haverá Trecheiro.
Enquanto houver andarilhos, haverá luta.” Nos 35 anos do jornal, seu testemunho reafirma a importância da memória e da palavra — e de que, na rua, ninguém luta sozinho.





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