“Mensageiro e Travesseiro”:
Samuel Rodrigues fala sobre o jornal que o acompanhou na luta

O Trecheiro nasceu para ampliar a voz de quem caminha o país pelo asfalto, pelas ocupações, pelos centros, viadutos e abrigos. Nesses 35 anos, o jornal construiu uma relação íntima com a população em situação de rua — e, entre essas histórias, está a de Samuel Rodrigues, militante, poeta e liderança histórica do movimento. Nesta entrevista exclusiva, Samuel revisita como conheceu o Trecheiro, o impacto do jornal em sua trajetória e a importância desta publicação na formação, informação e resistência da rua.
Como você conheceu o jornal O Trecheiro?
Eu conheci o Trecheiro pelas mãos do movimento, em eventos de população de rua. Acho que pelas mãos de Alderon, Cleisa Rosa, de Renata Besses e também de Regina Manoel, querida e saudosa. Foi nesse mesmo ambiente — de encontros, assembleias, debates — que o Trecheiro se tornou presença constante. Conheci nessa seara, com essas pessoas, nos espaços onde a Rede Rua, o Argemiro e o movimento estavam.
Qual a importância do jornal O Trecheiro para a população em situação de rua?
O Trecheiro cumpre funções que poucos veículos cumprem no país. Eu não tenho dúvida que o jornal Trecheiro contribui — e muito — com a rua. Ele leva as informações da rua, fala sobre políticas públicas, divulga os acontecimentos do país sobre população de rua, catadores. Ele é um foco de informação para quem conhece o tema e também de formação para quem não conhece. O Trecheiro chega a universidades, a religiosos, a pessoas que só conhecem a realidade local da rua. O jornal carrega essa informação.
Até as minhas poesias foram publicadas no Trecheiro. O jornal não apenas me acompanhou, mas as minhas poesias foram divulgadas no Trecheiro. Eu tenho matérias no jornal. O Trecheiro dá voz à rua, entrevista a população de rua, exalta a luta das mulheres, do povo negro em situação de rua. É um espaço de expressão, memória e celebração da vida. O jornal escolhe na fonte, trechando, terminando os nossos congressos e fazendo essa escuta direta.
O Trecheiro é útil até para embrulhar alguma coisa… e muitas vezes ele é travesseiro. Jornal muitas vezes vira travesseiro. Então ele é de grande importância para a rua: por ser mensageiro e muitas vezes por ser travesseiro. O jornal é mais do que veículo, ele é companheiro.
Como o jornal O Trecheiro pode continuar contribuindo com a rua?
O Trecheiro sempre acompanhou os acontecimentos urgentes do país, especialmente aqueles que impactam diretamente a população em situação de rua. Ele é um jornal muito dinâmico. Trabalhou o decreto 7.653, trabalhou a lei de Belo Horizonte, as questões permanentes dos catadores, a integração… Ele precisa continuar publicando as notícias de momento. Eu espero que o Trecheiro possa trabalhar um dia a entrega de moradias para a população de rua, o acesso ao trabalho. Mas enquanto isso não chega, que continue dando voz ao povo da rua e à sociedade civil. O Trecheiro completa 35 anos como um jornal vivo, resistente, coletivo — construído por mãos que conhecem o asfalto de perto.






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