“Ela conseguia olhar coisas coloridas”
- Alderon Costa

- 27 de abr.
- 3 min de leitura
Entrevista com Georgia Vassimon sobre sua mãe, Maria Alice

Custódio, Cecília, Maria Alice, Ana Maria, Custódio (filho) e Maurício. Poderia ser uma foto de família. Nesta foto estão presentes os pais de Maria Alice, sua irmã e seus 2 irmãos. Depois temos a outra foto. Maria Alice Vassimon, Sérgio Gomes Vassimon, Georgia, Guilherme. Poderíamos seguir com estas fotos até chegar nas famílias dos filhos e de todos os grupos que ela de certa forma gerou: GETEP, ECOS, OCAS e tantas outras.
No dia 26 de fevereiro, fez um ano que ela partiu. O jornal O Trecheiro gravou uma entrevista com sua filha Georgia Vassimon, educadora, psicopedagoga e, atualmente, parte da diretoria do Instituto Sedes Sapientiae.
O Trecheiro:
Quem foi Maria Alice?
Georgia:
A minha mãe vem de uma família com algumas posses e viviam no Rio de Janeiro. Teve uma oportunidade incrível de estudar fora. Naquela época, não era uma coisa comum. Fez o fundamental na França e teve uma oportunidade de estar nos Estados Unidos. É interessante você pensar que é uma pessoa que teve várias oportunidades. Aí resolveu casar-se com um comunista cinco estrelas (Sérgio Gomes Vassimon), que é assim que a gente brinca.
Tivemos uma vida muito regrada, muito organizada porque eles eram bem certinhos nas coisas. Acho que a relação deles era uma relação muito generosa. Ela foi fazer faculdade e a gente era pequeno. Ela trabalhava numa escola e meu pai ficava tomando conta da gente.

Logo que ela terminou os estudos, foi trabalhar no Colégio Nossa Senhora do Morumbi, que era uma escola ligada à rede do SEDES.
Então fez psicodrama, montou o curso do GETEP e o próprio GETEP. Esse ano deve estar fazendo 52 anos e ela foi fundamental na construção desse espaço. Ela criou também o Caracol, que era uma escola de arte e tinha vários amigos.
A minha mãe sempre foi uma pessoa que gostava de juntar pessoas. Ela foi sempre uma pessoa, eu diria, precursora. Ela montou o GETEP e a psicopedagogia do SEDES.
O Trecheiro:
Maria Alice também teve uma relação forte com a periferia. Ela fala dos mal vistos, dos invisibilizados.
Georgia:
Eu fui conversar com o psiquiatra dela do final de vida e ele ficou muito entristecido porque tinha uma conversa muito boa com ela. Ele falou assim, “Geogia, eu nunca vi alguém que se entregava na relação com o outro com tanta intensidade.” Então, acho que a minha mãe fazia isso, sim, com todo mundo, mas com uma preocupação histórica com as pessoas, sim, da periferia e, acho que aí a gente vai vendo todo o movimento dela.
O GETEP já existia, teve um trabalho na favela Manoel Assom, na época. A dona Eunice era uma liderança nessa favela e a mamãe ia lá. Ela criou uma escola na casa da dona Eunice para as crianças que ficavam lá meio sozinhas.
O pessoal do GETEP, como um todo, foi para esse lugar e conversava com a dona Eunice.
Antes da dona Eunice ela fez um trabalho na Cidade Patriarca com mulheres. Assim, a mamãe sempre tinha esse olhar.
Ela sempre teve essa coisa de ir conectando as pessoas e tirando um pouco os preconceitos. O taxista que levava ela na Ocas devia achar que ela era um pouco maluquinha, mas ele começou a olhar o mundo de outro jeito. “Puxa, que bacana que as pessoas estão mudando de vida de alguma forma, vendendo Ocas”.
O Trecheiro:
E o GETEP na vida da sua mãe?
Georgia:
Foi o momento que ela fez psicodrama. Na época, a intenção já era na direção de como a gente melhora a educação no país, de olhar para as pessoas que não tinham condições. Então, acho que esse é um lugar que ela sempre olhou. O GETEP nasce nesse desejo e ela aglutinou pessoas da época que ou fizeram o curso ou estiveram com ela de alguma maneira. O GETEP teve muito essa função de trabalhar com as equipes, com os grupos, enfim, de formar pessoas.
O Trecheiro:
Um aprendizado com sua mãe.
Georgia:
Olhar para todos de igual qualidade e uma alegria, minha mãe era uma pessoa muito alegre. Ela sempre trazia coisas muito divertidas. Ela conseguia olhar coisas coloridas. Talvez a vida fosse bem mais colorida.





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