O que te sobra?
- Editorial

- 27 de abr.
- 2 min de leitura

Quem sobrevive e está vivendo em situação de rua tem pouco ou quase nada de sua vida fora das ruas. Sua história parece que foi interrompida. Seus projetos de vida, seus sonhos e perspectivas se perderam. A vida virou uma: aqui e agora!
A rotina de sobrevivência tomou conta de quase toda a vida. O restinho do tempo que sobra é fazer as coisas para se estar viva: uma dose de pinga, um cigarro, um bom papo de história passadas, projetos e sonhos que muitas vezes ficam ali na roda de conversa. O fato é que estar em situação de rua é sobreviver dentro de uma realidade difícil de suportar.
Para Roseli Kraemer, do Fórum da Cidade, “no Brasil e no mundo a gente não tem o direito de viver, de ocupar e não tem o direito de ir e vir. Porque tudo no meu quintal, não! Principalmente pop rua. Todos os projetos do governo são para a elite, para as pessoas que podem pagar.
A gente não tem nada. A gente não tem moradia. Tiraram tudo da gente. Então, o que resta pra a gente além de andar com a casa nas costas [mochila] e viver numa resistência constante?”
Essa fala aconteceu na última oficina (21/03) do Coletivo Luta Pelo Direito ao Centro, onde Roseli foi convidada a falar sobre a luta por moradia das pessoas em situação de rua.
Logo depois, a caminho da Câmara Municipal de São Paulo, por coincidência num muro que cerca umas das Vilas Reencontro, onde moram famílias com trajetória de rua, encontrei a frase: “O que te sobra?” Mais à frente uma pessoa deitada, provavelmente alguém em situação de rua dormindo. Essa é a história de milhares de pessoas que estão em situação de rua e próximas dessa situação. O que sobra para estas pessoas?
Nesta edição é apresentado o PL do Bom Prato; os 30 anos do Arsenal da Esperança, um espaço de acolhimento para mais de mil pessoas, situado num espaço que já foi usado por muitos migrantes; trazemos também a triste tentativa da Prefeitura de São Paulo de fechar espaços que são muito importantes para as pessoas que não tem onde ficar. É uma contradição, pois a prefeitura não quer ninguém na rua, mas ao mesmo tempo não abre novos espaços mais qualificados e até fecham os que já existem. O que sobra?
No mesmo muro, encontrei a frase: “Se ninguém é especial, você pode ser!” Daí, para completar esse pensamento que nem tudo está perdido, trazemos a segunda parte de nossa homenagem à Maria Alice, “Ela conseguia olhar coisas coloridas”, numa entrevista com sua filha Georgia Vassimon.




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