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Artista viajante: a arte de João Carlos Correa

“Olha, eu sempre tive vontade de dar uma volta ao mundo. ‘Mas de onde você tirou essa ideia?’  Ah, é porque eu sou daquele tempo do (Festival) Woodstock. Eu vi os hippies, não sou roqueiro, eu sou eclético na música, mas eu via os hippies viajando e pensei, eu vou pegar meu desenho e vou colocar a mochila nas costas. Essa é a minha vontade, até porque eu tava passando por um problema, uma questão lá pessoal e também tinha brigado com a namorada. É lógico, né!? Aí o homem tem essa questão, briga com a namorada e vai embora”, conta João Carlos Corrêa, um artista autodidata de 61 anos que decidiu viver de maneira simples, apenas do seu trabalho artístico, movido principalmente desejo de viajar e conhecer o mundo. Para isso, ele precisava que seus materiais de pintura coubessem em uma mochila e fáceis de transportar. Por isso, optou pelo uso do lápis de cor e papel banco como materiais do dia a dia, apesar de pintar com acrílico, óleo e as mais variadas técnicas. 

“Com o lápis de cor, se tiver chovendo lá fora, se tiver um temporal, é só achar um lugar coberto, não vai impedir de eu fazer meu trabalho, né? Agora na tela ou então uns trabalhos de dimensão maior e tinta, já não conseguiria. Até porque, deu o horário aqui, fechou, tem que ir embora, tem que guardar, colocar na pasta e acabou. Se fosse pintura não tinha jeito”, conta João, que faz trabalhos por encomenda nas ruas, como caricaturas e retratos realistas, mas seu trabalho autoral, que faz de modo livre, é mais rebuscado e moderno.

“Eu como artista, eu fiz tanta coisa, mas eu me defino assim, sou meio eclético, porque eu me identifico mais com o mundo é que bem surreal, então faço uns trabalhos por encomenda, mas eu gostaria mesmo é de ter o meu ateliezinho, né, para fazer as minhas obras surreais, poder mostrar ali esse mundo no meu surrealismo. Mas no momento tá meio difícil”

As obras de João impressionam pela qualidade técnica, pela beleza e pela diversidade. Ele também mostra domínio sobre escolas e tendência artísticas fruto de anos de estudos, talvez nas bibliotecas e centros culturais nos quais usa frequentemente como ateliês itinerantes.

“É como aquela música do Caetano que eu acho que é a minha cara, né? ‘Alegria, alegria, caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento.’ Aquilo lá era eu todinho. Uma coisa é você ir conhecer um lugar com dinheiro para pagar lá, estadia. Você conhece sem dinheiro vai conhecer o outro lado da moeda, a parte burocrática do mundo, né?”, lembra João quando começou a rodar o mundo vivendo da sua arte. No entanto, ele faz questão de ressaltar que nunca deixou de lado os laços familiares. “Eu tenho um filho, né? Um filho, hoje, e dois netos. Eu virei um artista meio nômade, um artista andarilho, viajante. Mas eu faço questão de lembrar que eu nunca esqueci que eu tenho uma família, tenho uma mãe, um pai, uns irmãos que são maravilhosos, né? Que às vezes eu vejo. De três em três meses eu fazia questão de vir ver meus parentes, que até porque eu tenho uma mãe maravilhosa, ela criou nove filhos”, disse João.

Seu trabalho ilustrou um documentário e ebook feito pelo programa de psicologia da USP retratando a trajetória da população de rua, seus desenhos mostram a história da dependência química e alcoolismo.

Apesar do talento indiscutível e da incrível história de vida vivendo em diversos países da América Latina, João nunca teve a oportunidade de fazer uma exposição com suas obras e receber a valorização pelo seu trabalho.

Esse sonho foi realizado no ano de 2026 por meio do projeto “Abrindo a pasta do sonhos”, selecionado por um edital público que permitiu que vários artistas como João pudessem aprender mais sobre produção cultural e dominar ferramentas para o desenvolvimento profissional. As aulas ministradas por Diana Tsonis resultaram em ações práticas como a exposição das obras reunidas de João Carlos Corrêa no dia 27 de janeiro no Teatro Arthur de Azevedo, na Mooca, São Paulo. Um momento importante de consagração de um verdadeiro artista popular e oportunidade para abrir portas para mais realizações.

 

Entrevista completa com Youtube por Diana Tsonis:

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