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Imagens e memórias

Desenhos e impressões sobre o que é a vida, a cultura, a memória na e da rua em São Paulo.


Por Adriana Fernandes e Joana Barros*

 

O que é a memória da rua?


Foi a partir desta pergunta que convidamos os frequentadores da Chapelaria social Irmã Alberta, ao longo do primeiro semestre, a produzirem desenhos e colagens sobre suas experiências e impressões de São Paulo. Durante as oficinas, tanto esses registros, quanto as músicas ouvidas e cantadas, e os pequenos trechos do jornal O Trecheiro foram permeados por comentários e bate-papo que resultaram em um conjunto de imagens e narrativas que contam um pouco do muito vivido nas ruas, das relações familiares, dos amigos, do trabalho, dos corres do dia a dia e da violência da polícia e da guarda, dos amores, das dores e dificuldades de sobreviver. E, tão importante quanto, do que cada pessoa viveu e de como viveu, como sonha, como constrói e pensa sua vida.

Todo esse trabalho fará parte de uma exposição que tem por objetivo trazer ao público - pelos desenhos, colagens e depoimentos - as passagens líricas e sensíveis sobre o que é a vida, a cultura, a memória na e da rua, Ora é um desenho com um coqueiro e uma casa que remete à origem alagoana; em outro, a imagem é a de uma igreja que fala do “sonho de casar”(sem que houvesse, até aquele momento, nenhum pretendente). Já Daniela fez um “coração com asas”, preenchido com glitter prateado. Para Beatriz, de sotaque mineiro, foi a paisagem do Vale do Anhangabaú passando no Youtube da tela de tv da Chapelaria que capturou sua atenção: “Gostava muito de deitar-se embaixo de uma árvore do parque pra ver o céu azul”.

O humor não é algo menor nesses encontros: implicar com outros participantes, reparar em algum gesto, pegar no pé por conta da derrota no futebol. Sobre o desenho do amigo sentado ao seu lado, um convivente disparou:  “Água de rio, água de mar, só faltou a água de aguardente [risos]”.

Quando propomos como fio condutor as memórias da infância, Hector fez uma ponte enorme com dois rios de cores diferentes e explicou: era a ponte que liga o Brasil ao Peru, os dois rios se encontram embaixo dela, “o mais claro é o que banha o lado do Peru, a parte escura é o Rio Amazonas” - lembrou que ele e outros meninos se jogavam e se banhavam ali, havia uma diversidade de tipos de peixe!

Um tópico sempre sensível são as passagens envolvendo familiares. Um rapaz vindo do Ceará explicou que estava na Rede Rua para se reerguer e “não ser vergonha pra família”. Logo que veio para São Paulo, conheceu Salesópolis (SP), a cidade onde se encontra a nascente “bem limpinha” do rio Tietê. “Quando cheguei eu andava muito, sempre gostei de andar, eu ia marcando os lugares, tem gente que anda e não marca nada, aí não consegue se localizar, eu ia cada vez mais longe e voltava onde eu tinha marcado”.

Dois dias antes de uma oficina, havia caído muita chuva em São Paulo, o clima era de desolação, as urgências se concentraram no café com pão, no banho quente e em trocar a roupa molhada. Ana (com seus cachorros esperando na calçada da Chapelaria) repetia a mesma coisa: “Acabou a oficina? Vão servir o café? Eu tô com a maior fome!”. À desolação, somou-se à notícia de que o prefeito mandaria fechar a Casa São Martinho, lugar referência de acolhimento, por conta das mobilizações, a medida foi suspensa. Esse não seria o primeiro equipamento encerrado na atual gestão. Semanas depois, falando sobre São Paulo, um convivente resumiu: “São Paulo é uma mãe e é também a rainha das enchentes”. Mas Márcio, presente em todas as oficinas, trouxe a solução: fez um barco de cores vibrantes, nele, é certo, cabem todos os lascados do mundo.

É esta força e sensibilidade que estão retratadas nestes painéis e nos vídeos que compõem a exposição: “Memórias da Rua”. Com elas podemos conhecer um tanto mais da vida na rua e de quem constrói todos os dias a cidade. 

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