Superação e luta por dignidade
“É preciso ter um lugar onde possa dormir, acordar e ter privacidade.”

Por Alderon Costa e Júlia Lima
As pessoas aparecem e oferecem suas histórias como contribuição para fortalecer a luta de outras. Foi assim com Natalício Batista Lins, conhecido como Natal, que apareceu, no dia 26 de julho de 2026, na reunião de preparação para o “Dia de Luta”. Chegou como se estivesse caindo de paraquedas, diretamente da Paraíba. Participou da reunião e deixou sua contribuição para o lema do ato: “E se fosse você?”.
Natalício sugeriu que fosse feita uma filmagem mostrando uma pessoa arrumando seu cantinho, preparando seu papelão para dormir e, em seguida, “morrendo de hipotermia”. Ele resume assim sua proposta:
“Diante de uma pessoa que acabou de morrer de hipotermia, que estava vivendo na rua, o que você gostaria que fizessem com você se estivesse no lugar dela? Isso precisaria ser mostrado às autoridades e perguntar: e se fosse você?”
Ao término da reunião, o convidamos para fazer um “Vida no Trecho”, para registrar a história desse trecheiro que viveu em São Paulo e que agora superou a situação de rua e vive em João Pessoa, na Paraíba.
Sua história
“Bem, eu nasci em 11 de janeiro de 1966, no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Duque de Caxias. Aos quatro anos de idade, meus pais, que eram pernambucanos, retornaram para a cidade de origem, Recife, capital de Pernambuco. Foi lá que eu cresci, no Nordeste.”
Seu pai, João Batista Lins, e sua mãe, Maria Vicentina de Sequeira Lins, tiveram 11 filhos. Natal lembrou, com tristeza, a morte de um dos irmãos, há cerca de dez anos. Recordou também o apoio que recebeu do deputado Eduardo Suplicy, então secretário de Direitos Humanos e Cidadania, que o levou ao velório em seu próprio carro.
“Aos 17 anos, resolvi conhecer o nosso país, o Brasil. Fui um homem andarilho e viajei por muitas capitais. Acabei chegando a São Paulo, onde fiquei, entre idas e vindas, por cerca de 13 anos.
Trabalhei durante muito tempo, mas sempre em uma situação difícil. Até que chegou uma época em que deixei o trabalho de lado e comecei a beber. Durante aproximadamente 55 anos, convivi com a bebida. Tornei-me alcoólatra e permaneci durante muitos anos em situação de rua em São Paulo.
Morei nas calçadas e vivi assim por muito tempo, até chegar a um ponto em que me cansei daquela situação. Viajei novamente, dessa vez para o estado da Paraíba, onde estou há mais de dois anos.
Cheguei a João Pessoa ainda bebendo muito. Mas fui acolhido pela Paraíba de braços abertos. Tive a oportunidade de conhecer o Centro Pop, que atende e ajuda as pessoas em situação de rua, e o Consultório na Rua, o que foi muito importante para mim.
Fiquei em uma casa de acolhimento durante um ano e dois meses, fazendo tratamento para superar a dependência do álcool. Consegui vencer essa situação e deixar totalmente o uso da bebida.
Hoje estou muito bem em João Pessoa. Tive a oportunidade de fazer um curso de produção de velas aromáticas. É um trabalho de que gostei muito e com o qual me identifiquei.
Hoje moro de aluguel e fabrico minhas próprias velas aromáticas. É o meu artesanato. Com as vendas, consigo arcar com minhas despesas. Hoje eu não bebo mais. Sou uma presença viva diante daquelas pessoas que realmente querem sair das drogas e do álcool. Já não bebo há mais de dois anos.”
Viver na calçada e na rua
“Desde o princípio, a maior dificuldade é dormir na rua. Eu me alojava na rua. Na rua eu me deitava. Na rua eu acordava. Na rua eu bebia. Na rua eu permanecia.
Anoitecia, amanhecia, entardecia, anoitecia novamente, e eu estava sempre na rua.”
Moradia
“É o primeiro passo para que uma pessoa em situação de rua possa se levantar. É preciso ter um lugar onde possa dormir, acordar e ter privacidade.”
O sonho
“Meu sonho é que essas pessoas que estão nas ruas, que estão passando fome, possam ter realmente um lugar para ficar. Possam ter dignidade.”
Recados
1. “Saiam enquanto é tempo. Ainda há tempo. Hoje consigo ser, perante a sociedade, novamente o Natalício que eu era quando nasci.”
2. “Não baixem a cabeça. Nós precisamos de uma luta, e a luta é justamente essa: o encontro, a organização e a união para buscar e cobrar das autoridades tudo aquilo de que precisamos.
E o que precisamos, acima de tudo, é da nossa dignidade.”






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