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- Minha história de vida
Nasci em 23 de dezembro de 1980, tenho 29 anos, sou pai de três filhos e vou contar um pouco da minha história. Pouco tempo depois que nasci, fui morar com meus avós paternos, pois meus pais havia se separado. Com 5 anos de idade, minha avó, Maria Jandira, veio a falecer e meu avô entrou em depressão e acabou sua vida naquele momento. Assim conheci meus avós maternos e passei a morar definitivamente com eles. Conheci meu outro irmão mais velho e minha mãe. Foi difícil essa fase. Aos 8 anos, passei a ir à escola. Lembro-me até o nome: Escola de Primeiro Grau João Ribeiro Ramos, em Sobral, Ceará. No ano seguinte, mudamos de casa, e eu mudei de escola também. Cursei o antigo ginásio, até a 7ª série. Em 1999, acabei interrompendo os estudos por causa de problemas pessoais familiares. No ano seguinte, tomei uma decisão que iria mudar minha vida. Quebrei todos os laços com minha família, pois já estava cansado de tantas desavenças. Conheci uma mulher que iria mudar minha vida, a Adriana, uma pessoa ciumenta. Tão brava que parecia siri numa lata. Nesse ano, também, fui trabalhar numa empresa multinacional, a Grendene Calçados, na cidade de Sobral, onde logo fui demitido por causa de baixa produção da empresa. Com a demissão passei por dificuldade financeira.e quase me separei por causa disso. Eu não gostava que minha mulher trabalhasse e sempre dizia que era obrigação só minha. Ainda em 2001, consegui um trabalho de garçon que foi dando para levar. Em 2002, foi um ano que me marcou para sempre e não foi pelo penta da seleção brasileira, mas sim pelo nascimento de meu primeiro filho, Ivano. Estava morando com uma mulher que me valorizava, fui pai pela primeira vez. Eta muleque! É meu filho! E para completar, a Grendene me chamou de volta para trabalhar. Três anos depois comprei minha casa com muito suor e esforço. Em agosto desse ano nasceu minha filha Ivana Keyla, a gatinha mais linda da minha vida. Pouco tempo depois, estava já ficando chateado com minha mulher por causa do ciúme doentio dela e acabei fazendo besteiras, como farras e mulheres que resultaram na separação. No ano de 2006, conheci Ana Maria, com quem passei a viver. Ela trabalhava e era uma mulher cheia de opiniões. Ela odiava quando ia ver meus filhos e sem falar que suas amigas falavam mal de mim. Em 2007, estava sem trabalho, mantendo contato com os filhos e esperando a vinda de Geovanna Yngrid, minha primeira filha com Ana. Pensava que os problemas com as mulheres iriam parar, mas estava enganado. As dificuldades de relacionamento só aumentavam. Tomei uma decisão de ir embora de Sobral. Em dezembro de 2008, embarquei em um sonho chamado recomeço de vida e mudei para Fortaleza. Cheguei com a cara e a coragem. Conseguir um trabalho fixo, mas acabei não tendo êxito. Resultado: fui morar na rua. Fiquei de janeiro a abril de 2009, dormindo no papelão e debaixo de marquises até que uns anjos apareceram: Rodrigo, Sílvia e Cristiano. Todos eles funcionários do Centro de Apoio à População de Rua (CAPR) da prefeitura de Fortaleza. Eles me abordaram e disseram de um espaço em que eu poderia passar o dia, com direito a banho, alimentação e lavagem de roupas. Nesse espaço, descobri que existia uma casa nas proximidades que acolhiam pessoas, logo algo falou dentro de mim: “Vai atrás de saber disso, não pode deixar essa chance sumir”. Nessa casa tenho acompanhamento espiritual, alimentação e todos me tratam como gente. Estou falando da casa da Comunidade Shalom, que agora se chama Casa São Francisco. Em abril de 2010, recebi um convite para entrar no Movimento Nacional População de Rua (MNPR). No mesmo mês, ocorreu um seminário, onde fui o apresentador do evento por três dias. Depois fui eleito representante junto ao MNPR dessa galera tão sofrida de Fortaleza. Em 12 de julho de 2010, estou contando minha vida para quem interessar saber, não para aparecer, mas para mostrar que sou humano. Estou cansado de viver por nada, mas quero lutar e morrer por alguma coisa. Chega dessa mesmice! Edição N° 190 - Agosto de 2010
- “Não somos caso de polícia”
A população em situação de rua e a Polícia Civil de São Paulo realizaram, no dia 6 de agosto, o I Seminário da População de Rua e a Polícia Civil com o objetivo de promover o diálogo e a troca de experiência sobre a realidade das pessoas em situação de rua. O encontro foi na Academia de Polícia Civil (Acadepol) e contou com a presença do diretor da academia, Dr. Adilson José Vieira Pinto que reconhece que existem policiais que sabem atender bem e serem “solidários” com ricos e bonitos, mas que, também, terão que aprender a tratar com solidariedade os pobres e feios. “Temos que respeitar as diferenças e cumprir nosso papel, que é a defesa das instituições democráticas”, declarou Vieira. O Coordenador do Centro de Direitos Humanos da Acadepol, Dr. Tabajara Novazzi Pinto, defendeu que o policial precisa voltar seu olhar para a realidade daqueles que estão em situação de rua. “Nós fomos anestesiados pela ditadura, que nos disse que somos só repressão e nós acreditamos nisso”, declarou Novazzi. Para Anderson Lopes Miranda, do MNPR, a população de rua não é caso de polícia e defendeu no seminário que se acabe com a lei da vadiagem que tem criminalizado a população de rua. “Nós não somos caso de policia, nós somos a omissão do Estado”, conclui Anderson. A pesquisadora da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), Sílvia Schor, apresentou o perfil da população de rua identificado na última pesquisa da cidade de São Paulo no final de 2009. Padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, agradeceu a sensibilidade da polícia e destacou a importância de harmonizar as visões e participação da Guarda Metropolitana de Guarulhos e Osasco que estavam com, aproximadamente, 30 membros. “A população precisa conhecer esses dados (pesquisa apresentada), porque o morador de rua está no topo das queixas nos Conselhos de Segurança Comunitários (Consegs)”, afirmou Julio. Cleisa M. M. Rosa, representante do Fórum Permanente de Acompanhamento das Políticas Públicas para População em Situação de Rua, apresentou o histórico do aumento da população de rua e afirmou que, a situação em 1991 já apontava que 85% da população trabalhava para sobreviver e apenas 15% vivia do pedido. “Se ele não tiver um projeto de reconstrução de vida não deixará a rua, porque quanto mais o tempo passa, mais vínculos vão sendo criando”. O assessor especial da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Dr. Ivair Augusto Alves dos Santos, ressalta o clima de cooperação das polícias e a abertura da direção da academia. “A participação propositiva da direção da Acadepol, que não só aceitou fazer este evento, mas abriu a possibilidade de fazer o seminário em todas as regiões de São Paulo”, afirmou Ivair. Valter Machado, que está em situação de rua, participou e ficou contente com a notícia de que a população de rua vai fazer parte do currículo da formação da Polícia Civil. “É um avanço”, concluiu Machado. Já para Átila, do MNPR, o evento foi um marco e foi produtivo para todos, inclusive para os segmentos da segurança pública. O Seminário contou, ainda, com a participação da Dra. Jacinta de Fátima Senna da Silva do Ministério da Saúde, coordenadora do Comitê da Saúde da População em Situação de Rua, que apresentou o recorte da saúde como um direito, um dever do Estado e da sociedade. “Aqui foram feitas propostas que podem alterar o desenho do aparelho do Estado em relação à ação das polícias no Brasil”, avaliou Senna. Edição N° 190 - Agosto de 2010
- “Direitos do Morador de Rua um guia na luta pela dignidade e cidadania”
Depois de quase dois anos de trabalho conjunto entre organizações e pessoas em situação de rua, foi lançada a cartilha de direitos humanos da população de rua, no dia 9 de agosto de 2010, em Belo Horizonte, numa ampla varanda, localizada no andar superior do prédio da Procuradoria-Geral da Justiça. Esse espaço público se transformou numa grande festa, alegre, acolhedora e musical. A apresentação do auto do “Boi Esperança” deu a dimensão da importância desse evento aberto festivamente por pessoas com trajetória de rua e por catadores de materiais recicláveis. A realidade se misturava, por assim dizer, a um sonho: a esperança de que direitos e felicidade estejam ao alcance de todos e nas palavras de Alexandre Camargo Bella, artista que se apresentou, “esperança de que todos tenham casa para morar, comida para comer, caderno para estudar e muita, muita e muita folia de boi porque o amor que se planta agora, ele vem depois”. Essa intervenção cultural foi o resultado da união de três grupos; um deles, o Karecoragem, constituído a partir de oficinas realizadas, em 2004, pela Pastoral de Rua de Belo Horizonte com catadores de materiais recicláveis da Asmare. Outro grupo, a Oficina de Cultura Popular Brasileira, ligada à Prefeitura de Belo Horizonte dirigida pela atriz e educadora social Paula Nunes. Esses dois grupos e outro denominado “Para Dançar”, dirigido por Dimir Viana, educador e diretor de teatro participaram em vários momentos do lançamento da cartilha. Segundo Dimir, educação e arte têm um poder transformador na vida das pessoas”. Para Anita Gomes dos Santos do MNPR “a cartilha é um grande marco porque através desse documento poderemos comprovar que somos cidadãos respeitáveis e com o MP abraçando essa causa, começamos a perceber que nossos direitos estão sendo reconhecidos como cidadãos brasileiros que somos”. “Esse é um momento de visibilidade porque a cartilha atinge a sociedade para que ela veja a situação de rua com outros olhos e, também, o poder público sensibilizando-o para ações apropriadas à realidade da população de rua”, disse Sérgio Carvalho Borges do Movimento Aquarela da População de Rua de Porto Alegre, que esteve presente ao evento. Segundo Samuel Rodrigues do MNPR, “essa cartilha é, pra nós da rua, uma grande vitória, uma grande conquista, uma coisa bem palpável, concreta, pela luta, pela articulação, pelas pessoas que se envolveram na construção dela, daí ela ter esse valor todo! Leandro Albano Trindade é catador, artista, mobilizador social e integra o grupo Karecoragem. Edição N° 190 - Agosto de 2010
- Articulação da Região Sul
Nos dias 23 e 24 de julho de 2010, no Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (CEPAT) em Curitiba, foi realizado o Seminário da População em Situação de Rua – Região Sul, com cerca de 70 participantes. Estiveram presentes pessoas que estão vivendo nas ruas das cidades de Curitiba, Londrina e Paranaguá do estado do Paraná e de Porto Alegre e vários parceiros dessas localidades, comprometidos com o fortalecimento do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), Dr. Fernando Tadeu David, assessor da Coordenadoria de Inclusão e Mobilização Sociais (Cimos) do Ministério Público do estado de Minas Gerais (MPMG), reafirmou os compromissos pessoais e do MP de Minas Gerais, contra a violação dos direitos humanos. “Este encontro contribui para o fortalecimento do movimento e a troca de experiências com outros grupos articula a luta por políticas públicas“. Veridiana Machado, educadora social que trabalha com a população em situação de vulnerabilidade social em Porto Alegre disse que “tratase de um momento histórico porque estamos reunidos para pensar a articulação da Região Sul com temas importantes ligados ao fortalecimento do movimento para que consiga ocupar os espaços políticos“. Dr. Alberto Velozzo Machado, promotor de Justica no Paraná, disse das responsabilidades do MP frente às violações dos direitos humanos. “Para o MP uma pessoa só já justifica a ação de defesa de seus direitos, mas espera-se que mais e mais pessoas sejam ouvidas para que este movimento ganhe legitimidade e visibilidade, dando um perfil ao movimento, como organização social“. A imprensa local esteve presente e divulgou o evento, inclusive em programa televisionado dando visibilidade ao evento e às violações dos direitos das pessoas em situação de rua. Leonildo falou que “essa ampla visibilidade dada pelos meios de comunicação aumenta a credibilidade do movimento e das pessoas em situação de rua. Além disso. A criação do fórum local teve um papel importante na articulação entre as pessoas, ampliando as parcerias“, finalizou Leonildo. Sérgo Carvalho Borges do Movimento Aquarela da População de Rua (MAPR), atuante em Porto Alegre e aliado do MNPR, trouxe uma comitiva de 40 pessoas convidadas pelo MNPR e pelo Projeto para estarem presentes ao Seminário. Sérgio disse que o seminário apontou “uma luz no túnel, que apesar de ser escuro é preciso ver ao final dele, as políticas públicas como ferramentas. As pessoas em situação de rua não têm apenas deveres, mas também direitos. Edição N° 190 - Agosto de 2010
- Consultórios de Rua e Redução de Danos
Estar na rua, conviver, conversar, fazer um curativo, propor encaminhamentos pontuais, e ter escuta atenta são alguns dos objetivos do Consultório de Rua. Uma equipe profissional multidisciplinar formada por médicos, psicólogos, assistentes sociais, pedagogos, educadores sociais, além de veículos, preservativos, cartilhas instruções e material para curativos, medicamentos de uso mais frequente em tais situações. O Consultório de Rua é uma parceria do município de Guarulhos (SP) com o Ministério da Saúde. Ao aproximar-se, a equipe se esforça para criar um clima amigável. Alguns sentam no chão, improvisam banquinho, propõem atividades lúdicas e iniciam o trabalho individual ou em grupos. Para Orlando Mesquita da Silva, morador de “calçada”, “o pessoal do consultório é legal tem uma atenção e quer ajudá-los”. Segundo Cléia Martins Januário, coordenadora do Consultório de Rua, o principal objetivo é trabalhar com a redução de danos em álcool e em outras drogas. Para Sebastião Firmino do Nascimento Filho, 25 anos, com ensino médio concluído, egresso do sistema penitenciário e há três anos vive em situação de rua, afirma que tem conseguido melhorar com a ajuda dos profissionais. “Eles entram em foco para não deixar agravar a doença dos moradores de rua e eles tentam tirar a gente da rua, mas o albergue é pior do que a rua”, afirma Firmino. Para a assistente social, Helena Luiza de Sá Almeida, do Consultório de Rua, o desafio está em todo o processo. “A conquista da confiança, a criação de vínculos, o levantamento das necessidades deles e a dificuldade de convencê-los a começar o tratamento ou a ir para um equipamento é o nosso dia a dia”, afirmou Helena. Ainda, segundo ela, as demandas são pela obtenção de documentos. “Após a documentação, passamos para outros encaminhamentos, pois tudo precisa de documentos” conclui Helena. Para a dra. Julie Mustafa, a tentativa é diminuir a vulnerabilidade que as doenças próprias da rua podem estar agravando a vida das pessoas em situação de rua. “Em casos mais graves, levamos ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e depois fazemos o encaminhamento para especialistas e acompanhamos”, afirma Julie. O diferencial e o avanço do Consultório de Rua de Guarulhos estão na gestão compartilhada entre as secretarias municipais da Saúde e da Assistência Social. Mesmo assim, a equipe ainda sente falta de um espaço de acolhida. “Algumas pessoas já têm uma cultura de rua, já não aceitam a instituição como o trabalho, a família e até o albergue. Por isto, o espaço intermediário poderia ajudar a fazer essa passagem. Edição N° 196 - Abril de 2011
- Catadores lutam pela efetividade da lei
A geração de lixo sempre foi um grande problema para as cidades. Anos e anos os catadores de materiais recicláveis e moradores em situação de rua realizaram um serviço ambiental de limpeza pública e proteção do meio ambiente. O Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) elegeu entre seus objetivos prioritários a construção de políticas públicas para o tratamento adequado do lixo com inclusão social dos catadores. Durante muitos anos, provocou a sociedade e o poder público para a necessidade de um marco regulatório para a produção e destinação final de resíduos sólidos no Brasil. Antes mesmo de se ouvir falar em aquecimento global e mudanças climáticas, os catadores buscavam imprimir nessa nova lei um caráter social que atendesse às ansiedades dos trabalhadores que, desde sempre, fizeram a destinação correta dos resíduos sólidos, gratuitamente, em condições precárias e, em muitas situações, sendo marginalizados pelo poder público. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), aprovada pelo legislativo e regulamentada pelo Governo Federal (Lei 12.305 de 2 de agosto de 2010) é fruto de uma luta que durou 21 anos. Depois de muita briga e reivindicação, a Lei prevê incentivo às organizações de catadores, assim como a participação delas na gestão integrada dos resíduos sólidos e na cadeia produtiva. Segundo Roberto Laureano, catador da Coordenação Nacional do MNCR, a nova legislação traz para os catadores muitos desafios, “temos os planos de resíduos sólidos que os municípios têm que elaborar, por isso estamos articulando para que todas as organizações discutam esses planos em seus municípios para garantir, de fato, a participação dos catadores no processo”, explica. “Temos que fazer valer aquilo que está na lei, é importante que os municípios entendam que é preciso reduzir, reutilizar e reciclar, para em último caso pensar em processos de reciclagem energética”, esclarece Laureano, informando também que a recuperação energética não é apenas a incineração, mas há outras alternativas de recuperação que não a queima dos recicláveis. Para Laureano, “os municípios estão pulando etapas e o movimento está buscando apoio jurídico para travar esses municípios que estão tentando implantar incineradores e excluir os catadores do processo. Estamos nos unindo a outros movimentos sociais para fazer barulho, para dizer não à incineração”, completa. O andamento da PNRS sempre foi bloqueado pelo interesse das indústrias que preferiam não se responsabilizar por seus resíduos. São, na realidade, resíduos perigosos que afetam à saúde humana e à natureza de forma irreversível. A indústria tem uma dívida histórica com os catadores e deve pagar o trabalho realizado pelas cooperativas para recuperação de suas embalagens pós-consumo. É preocupação do MNCR que se garanta a presença, também, dos catadores nas políticas públicas de gestão de resíduos sólidos no Brasil. “Nossa luta é para que estejamos juntos, presentes nesse processo. Não queremos que as indústrias nos vejam apenas como forma de ajuda ou assistência, queremos de fato sermos vistos como um braço de trabalho nesse processo e que esse trabalho tem que ser remunerado”, declara Laureano. Íntegra da lei no site do MNCR: www.mncr.org.br/box_2/instrumentos-juridicos/leis-edecretos-federais Edição N° 196 - Abril de 2011
- “Dia de Luta”
“Entidades que trabalham com moradores de rua preparam para esta quarta-feira, mais um Dia de Luta do Povo da Rua. Uma comissão de dez pessoas representando os moradores de rua e as entidades negocia com o prefeito a implantação da Lei nº12.316/97, Lei do Povo da Rua”. ( O Trecheiro , Ano VIII, nº 54, maio, 1998, pg. 1). No início dos anos de 1990, verifica-se em São Paulo um olhar e atenção diferenciados em relação às pessoas em situação de rua. É o governo democrático-popular na gestão de Luiza Erundina que propiciou, nessa área, a realização de estudos e implantação de serviços. O diálogo e discussão das necessidades e possibilidades de trabalho com a população de rua com a sociedade civil abriram o horizonte do poder público municipal, que em parceria com organizações sociais inovaram ações. Nesse contexto, organizações sociais reuniram-se, no Brás, e criaram o Dia de Luta. Nessa preparação, estavam presentes, representantes das casas de convivência do Brás, Penha, Porto Seguro, o Centro Comunitário São Martinho de Lima, a Coopamare e o Centro de Documentação, hoje, Rede Rua. Assim, no dia 10 de maio de 1991, com o tema “A miséria fala por si mesma”, aproximadamente, 1.000 pessoas caminharam do Brás em direção à Câmara Municipal, onde foram recebidos pela prefeita Luiza Erundina nesse 1º Dia de Luta do Povo da Rua. Nunca pessoas em situação de rua tinham entrado neste local e recebidos por autoridades municipais. ( O Trecheiro , Ano IX, nº 77, junho, 2000, pg. 4). Nessa primeira plenária, pessoas em situação de rua e organizações sociais definiram a luta por políticas públicas e persistiram nessa trajetória de defesa de direitos sociais e de ações nas áreas da habitação, saúde, assistência social e educação, prioritariamente. As diversas mobilizações propiciaram conquistas, dentre elas a Lei nº12.316/97 e o Programa “A Gente na Rua” com a criação dos agentes comunitários de saúde da rua, reivindicação do Dia de Luta do Povo da Rua de 2003. Além disso, esses atos de caráter político deram visibilidade à sociedade, das mortes e violência cotidiana nas ruas, das duras condições de vida, mas também consciência da importância da organização popular para quem deles participaram. Em 2010, o Movimento Nacional da População de Rua decidiu que o “Dia Nacional de Luta do Povo da Rua” será sempre realizado no dia 19 de agosto, data do massacre de 2004 em São Paulo. Para conhecer mais sobre temas, datas e reivindicações dos dias de luta ver O Trecheiro , Ano VIII, nº 165, maio, 2008, pgs. 2 e 3. Edição N° 107 - Maio de 2011
- Glicério: território de resistência dos catadores
Pesquisa realizada pela arquiteta Márcia Hirata aponta a região do Glicério como território de resistência do catador de material reciclável. O estudo foi defendido como tese de doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, sob orientação do sociólogo Paulo Cesar Xavier Pereira. A pesquisa baseou-se no método de história oral abrangendo catadores organizados na Cooperglicério, fundada em 2006 na baixada do Glicério. O Glicério sempre foi uma região rica em debates sobre a população em situação de rua e dos catadores. “À medida que fui conhecendo o local, desde 1997, tomando conhecimento da quantidade de entidades que desenvolvem seus trabalhos ali, fui percebendo que tal convergência não se tratava apenas de uma coincidência. A partir desta percepção fui instigada a entender o que significa esta mobilização em torno da região”, explica. O estudo se desenvolveu baseado no interesse da pesquisadora de entender como as pessoas de baixa renda constroem suas vidas, seu trabalho, em meio ao conflito, à disputa por espaço e à ameaça de expulsão, uma realidade do centro da cidade imposta pela valorização imobiliária. “O trabalho começa na década de 1980, momento de bastante mobilização dos movimentos urbanos, que se reflete no Glicério. Minha estratégia foi amarrar a história da construção da Cooperglicério com a história pessoal das pessoas. Assim fui entendendo como o Glicério foi se constituindo como um espaço dos catadores”. De acordo com a arquiteta, ao longo da história, construiu- se uma rede social no Glicério, composta por entidades, pastorais, apoiadores e universidades, em torno do trabalho do catador. “O Glicério oferece possibilidades para a reciclagem que garante a permanência deles ali. O trabalho destas pessoas foi construindo e aglutinando uma rede social, sobretudo a partir do final dos anos 1970, quando houve a oportunidade, com a ajuda de apoiadores, de um fazer mais politizado em relação ao trabalho. Este é um fator decisivo para a permanência do catador na região”. Do ponto de vista urbano, define Márcia, a condição colocada no Glicério permite perceber o catador por um viés que ultrapassa a condição de trabalhador superexplorado pelo capital. “Ele está em uma cadeia produtiva do capitalismo, e por isso está na condição de explorado, mas é também um sujeito político do ponto de vista urbano. Ele organiza, por meio de decisões coletivas, o seu trabalho, luta por reconhecimento, por leis e conquistas institucionais”, afirma. Território do catador A pesquisadora recorre ao processo histórico para avaliar como o Glicério foi se constituindo como espaço dos catadores. Logo no início da formação de São Paulo, a centralidade estava no Pátio do Colégio, voltada para o rio Tamanduateí (Avenida do Estado). Na década de 1910, o setor imobiliário começou a ter interesse pelo outro lado da cidade, a região oeste. “O Glicério passou a ser as costas da cidade. Isso significa dizer que a região não despertava interesse nos investimentos imobiliários, espaço de uso das elites e acabou se tornando espaço de possibilidade para as pessoas que não possuíam acesso à cidade formal”. Pela concentração de pobreza, explica Márcia, a região passou a atrair a atenção e os esforços das pastorais e de entidades, como a Organização de Auxílio Fraterno (OAF). Na década de 1980, com a efervescência dos movimentos sociais, havia debates e luta por direitos, principalmente, na periferia da cidade, que não poderia deixar de incluir o Glicério. “Ali sempre houve entidade assistencial. Mas no final de 1970, iniciou-se um processo de reflexão sobre as causas desta pobreza, cujo método de trabalho era provocar o debate junto às próprias pessoas que estavam passando pela situação de pobreza”, explica. Um dos atores que apareceram como potenciais superadores da pobreza foram os catadores. “Tinham uma renda e passaram a fazer um debate da superação da pobreza por meio de seu próprio trabalho, afinal eram superexplorados”. Na época era comum a dependência do catador em relação ao dono do ferro-velho. “Eles moravam nos depósitos em troca de vender o que catassem para o dono do ferro-velho. A construção do fazer politizado e sua consolidação foi fator fundamental para que a própria condição do trabalho do catador se modificasse. Hoje a quantidade de catadores que se submete ao dono de um ferro-velho no Glicério é bem menor”. Leia mais: www.rederua.org.br Edição N° 198 - Junho de 2011
- “Respeito ao cidadão das ruas”
O Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), o Fórum Permanente de Acompanhamento e Monitoramento das Políticas Públicas para População em Situação de Rua e o Fórum de Assistência Social da Cidade de São Paulo (FAS) promoveram ato público na manhã do dia 25 de maio de 2011, em frente à Câmara Municipal de São Paulo Vindas de vários cantos, albergues e organizações sociais da cidade, aproximadamente, 1.000 pessoas estiveram presentes nas ruas do Centro para protestar pelo fim da violência contra a população de rua e reivindicar políticas públicas articuladas entre as secretarias municipais e já previstas na Lei 12.316 de 1997. “Este ato tem importância grande porque torna visível algumas deficiências das políticas públicas, que é a falta de intersetorialidade. A população de rua precisa de moradia, emprego, saúde e não apenas a Assistência Social”, destacou Maria Nazareth Cupertino, Rede Rua e FAS. De início, reunidos na parte externa da Câmara, manifestantes ouviram Jamil Murad, vereador e presidente da Comissão Extraordinária de Direitos Humanos, Cidadania, Segurança Pública e Relações Internacionais da Câmara Municipal de São Paulo. “Os moradores em situação de rua de São Paulo são cidadãos que merecem respeito, proteção e todos os instrumentos para que eles tenham sua dignidade humana preservada, especialmente, para não serem assassinados covardemente como vem ocorrendo”. Juntos nas ruas Anderson Lopes Miranda, MNPR, ressaltou a importância da manifestação e convocou a todos saírem juntos pelas ruas da cidade. Muitos trouxeram cartazes confeccionados individualmente e em oficinas coletivas nos serviços, que expressavam necessidades e insatisfação de como são tratados pela Prefeitura e agentes públicos. “Falta de espaço para fazer tratamento da dependência química”; “Moradia, saúde, educação e cumprimento da Lei 12.316/97”; “Repúdio à violência e discriminação com o povo de rua”; “Respeito ao cidadão das ruas”. Desde o início e durante a manifestação, foram ouvidos cantos e palavras de ordem acompanhados por música: “Nosso direito vem, nosso direito vem, se não vierem nossos direitos, o Brasil perde também”! “O povo está na rua, Kassab a culpa é sua”! Eduardo Ferreira de Paula, MNCR, declarou que “o movimento dos catadores está junto e temos que nos unir com o MNPR nessa caminhada porque a Prefeitura de São Paulo está parada”. Durante o ato, o microfone foi usado por muitos que falaram contra a política higienista do prefeito Kassab, a falta de política pública, a incompetência das secretarias municipais, o preconceito sofrido nas ruas e albergues, dentre outras manifestações. Nas passagens pelos órgãos públicos, como Ministério Público (MP), Smads e Prefeitura outros usaram a palavra e ao final um coro de vaias. “No ano passado, seis morreram com tiros na cabeça. Não há Justiça nesta cidade de São Paulo. Pedimos atenção do MP para o povo mais pobre”, disse Anderson em frente ao MP. Para José Fernandes Junior, o Zeca, vendedor da OCAS´ “é preciso fomentar a luta e nos organizarmos da melhor forma para que as respostas dignas venham o mais rápido possível. Meu sentimento é de desesperança e de orgulho de estar aqui presente”. Em frente ao prédio da Smads foi lida carta protocolada. (Ver box) Davi Eduardo Depiné Filho, subdefensor público-geral do Estado, disse que se sentia honrado em abrir as portas aos manifestantes. “Defensoria existe para atender a população mais carente, a que mais precisa de justiça. Ela não é favor, é direito de vocês”, concluiu dr. Depiné. Anderson destacou a criação de um Núcleo de Atendimento à População de Rua na Riachuelo 268, em parceria com a Ouvidoria da População de Rua, MNPR e Franciscanos. Dr. Carlos Weis, coordenador do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo declarou, ao término do ato, que telefonaria a Edson Ortega, secretário de Segurança Urbana para dizer que é direito de cada pessoa ficar na rua, se quiser”, após denúncia do padre Júlio Lancellotti de que a CGM retiraria as pessoas das ruas por ordem do secretário, no dia seguinte. Robson Mendonça, do movimento estadual se manifestou: “É lamentável escutar isso do secretário da Segurança Urbana. Quando manda tirar da rua, oferece o quê? Queremos dignidade e trabalho”! Para Debora Galvani, terapeuta ocupacional e pesquisadora do Projeto Metuia (USP) “é um alento ver pessoas mobilizadas romperem um silêncio da sociedade, em relação aos massacres de pessoas em situação de rua que continuam acontecendo. Isso é fruto de um longo trabalho”. Na subida da Rua Líbero Badaró, encontro com funcionários públicos em greve seguido de palmas e juntos cantaram: “O povo unido jamais será vencido”! Após três horas, manifestantes chegaram à Praça da Sé e em torno do Marco Zero queimaram cartazes das dificuldades enfrentadas e em voz alta diziam: “queimando tudo o que é violência e preconceito contra a população de rua; políticos corruptos; violência física; falta de assistência em São Paulo”. O ato foi encerrado com salva de palmas para a população de rua, organizações parceiras e movimentos estadual e nacional da população de rua. “O povo está na rua, Kassab a culpa é sua”! Em face da inoperância da rede de atendimento e ausência de informações e diálogo, o Fórum Permanente, o MNPR e o FAS protocolaram carta no mesmo dia 25 de maio solicitando esclarecimentos num prazo de 20 dias sobre: • Serviços efetivamente fechados e os que tiveram alteração de público-alvo ou forma de atendimento. • Critérios usados para mudanças e/ou fechamento dos serviços. • Alterações foram discutidas e aprovadas pelo Conselho Municipal da Assistência Social e Conselho de Monitoramente? Leia mais: www.rederua.org.br Edição N° 198 - Junho de 2011
- 10 anos do Movimento dos Catadores
Sabemos que o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) é importante para a nossa organização social, pois antes do MNCR, nós catadores(as), não passávamos de verdadeiras marionetes nas mãos de políticos profissionais, ongueiros, governantes e dos patrões do lixo. Tivemos vários momentos em que estávamos sendo explorados, enganados e sequer, podíamos ver isso. Apenas sentir, aceitar e calar. Vamos relembrar um pouco, onde cada um de nós estava há 10 anos atrás? A maioria de nós vivíamos em lixões, sem condições dignas de trabalho e sujeitos a todos os riscos impostos pela situação de exploração da nossa categoria. Nessa época nem se ousava pensar que os catadores(as) eram uma categoria. Até meados do ano 2000, nossa tarefa na cadeia produtiva era simplesmente catar. Se perguntávamos para qualquer companheiro, “você gosta de ser catador”? Entre as várias respostas, o que se constatava era que a maioria de nós estávamos catando por falta de oportunidade de trabalho, marginalizados pelo mercado formal de trabalho em que poucos têm tudo e muitos quase nada, vindos do interior, negros, brancos, mulheres, crianças, idosos, analfabetos ou com pouca escolaridade, concentrados nas grandes metrópoles do País. Foi em 2001, que conseguimos dar vida, cara, cor e rosto a nossa organização, o MNCR, cujo nascimento foi cheio de problemas e poucas pessoas para resolvê-los. Desde o início, os princípios de protagonismo de classe com a autogestão/organização nos uniram, pois os grandes desafi os éramos nós, os catadores, que deveríamos encarar com o próprio sangue, suor e força de vontade. Com o passar do tempo e com nossas ações a todo vapor, vimos que vários grupos da sociedade, que antes da existência do MNCR nos viravam as costas, hoje, das formas mais inimagináveis possíveis, nos assediam para colocarem suas logomarcas e seus patrocínios. A maioria de nós não acreditava que chegaríamos até aqui, mais fortes, maiores, mais organizados. É sempre assim, a gente é desse jeito, não acreditamos no novo, apoiamos e desconfi amos ao mesmo tempo, somos brasileiros por excelência. Precisávamos disso, pois as difi culdades que estavam expostas aos nossos olhos apontavam para a formação de um movimento social, combativo e solidário, criando a independência dos catadores em relação aos ferros-velhos, a governos e fortalecendo a autogestão dos catadores. Foram muitas lutas, muitas ruas tomadas, muitas prefeituras ocupadas, muitas portas fechadas que tivemos que abrir. Tudo o que conquistamos foi por meio da luta e da solidariedade. Somos povo e nos realizamos com outros movimentos desse mesmo povo. São os princípios que norteiam a nossa organização. Chegamos a ser presos, fomos perseguidos, já tentaram nos comprar, mesmo com todas as condições adversas, nos mantivemos firmes em nosso propósito de justiça e de liberdade. Isso tudo só faz fortalecer cada vez mais nossa luta. Éramos chamados de lixeiros, hoje gerimos empreendimentos autogestionários, conquistamos políticas públicas de inclusão e de valorização de nossa categoria. No entanto, muitos oportunistas procuram não reconhecer o movimento, mas querem se beneficiar das conquistas forjadas no suor do dia a dia dos nossos companheiros. Permanecer e durar no tempo é o que vai garantir nossa vitória sobre todas essas condições injustas impostas pelos inimigos que ganham e se promovem em cima da miséria alheia. Ainda temos muitos desafios pela frente. Vida longa ao MNCR! Viva os dez anos! Porque quem tem medo da luta não nasce! Que venham mais dez, vinte, trinta anos! Viva os catadores e as catadoras do mundo! Edição N° 198 - Junho de 2011
- Túnel do tempo
“Brasília é palco do 1º Congresso Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis que acontece de 04 a 06 de junho. Neste período, os mais de 1.500 participantes do evento estarão debatendo problemas de, por exemplo, como enfrentar a dura realidade da absoluta exploração da mãode- obra dos catadores. Com o aumento da exclusão, as grandes cidades do país continuam sendo o retrato fi el da realidade vivida pela população de rua. E, consequentemente, as questões das ruas têm se agravado.” ( O Trecheiro , Ano XI, nº 86, junho de 2001, pág. 1). Há exatamente dez anos, catadores de todo o Brasil fundavam em Brasília o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) e O Trecheiro acompanhou de perto essa história em sua edição de junho de 2001, que mostra também sua luta ao lado da população, por ocasião da 1ª Marcha Nacional da População de Rua em Brasília. De lá pra cá, o MNCR só cresceu e acumulou forças e conquistas para a categoria, um crescimento tão rápido nunca visto em outros movimentos sociais brasileiros. Hoje, o MNCR tem cerca 85 mil catadores associados em 23 estados brasileiros e beneficia cerca de 800 mil catadores ainda em processo de organização com programas e leis para valorização de seu trabalho. Cresceu também o número de cooperativas e associações de catadores em todo o País, assim como as prefeituras incluem os catadores na coleta seletiva municipal. Alguns municípios já pagam diretamente aos catadores pelos serviços de coleta e destinação dos resíduos. As cooperativas e associações podem ser contratadas pelas prefeituras sem a necessidade de licitação e burocracia, além de poderem receber investimento público da União sem intermediários. Isso tudo graças à luta do MNCR. Uma década depois, podemos dizer que o maior desafio se concretizou, mesmo que haja ainda muito que avançar, os catadores conquistaram seu espaço na sociedade e planejam avançar muito mais nas conquistas. Um exemplo é o projeto de lei de iniciativa popular do MNCR em tramitação no Congresso Nacional que busca uma aposentadoria especial e justa para os catadores. Edição N° 198 - Junho de 2011
- Defensoria realiza seminário sobre população de rua
Defensores públicos conversam com pessoas em situação de rua no Pátio do Colégio, centro de São Paulo Defensores do Estado de São Paulo realizaram, nos dias 8 e 9 de junho, o I Seminário Estadual “Atendimento Jurídico à População em Situação de Rua”, com o objetivo de capacitar defensores públicos acerca dos direitos e das garantias das pessoas que vivem nas ruas. Na abertura do seminário, a defensora pública geral do Estado de São Paulo, Daniela Sollberger Cembranelli, falou da importância da participação da Defensoria na afirmação pela cidadania e pelos direitos das pessoas em situação de rua. Cembranelli destacou que “a desigualdade social não se combate com o discurso de segurança pública, a desigualdade se combate com a defesa dos direitos humanos e com a defesa da cidadania.” Na mesma direção, o diretor acadêmico institucional da Associação Nacional dos Defensores Públicos, Felipe Augusto Soledade, conclamou os defensores a ousarem na busca de uma Defensoria Pública para o povo”. “Que esta iniciativa de discutir avance na direção com outras medidas concretas”, declarou Soledade. Francilene Gomes de Brito Bessa, presidente do Conselho Nacional de Defensores Públicos Gerais (Condege) destacou a importância dos defensores na erradicação da miséria. “Ser defensor público não é meramente ser advogado dos vulneráveis, aqueles que não podem pagar advogado, custa processual e que estão fora das políticas públicas, é muito mais que isto. Na verdade, o papel do defensor público é contribuir para a erradicação das desigualdades, da pobreza e da diminuição dos índices de violência”, declarou Bessa. Anderson Lopes Miranda, representante do Movimento Nacional da População em Situação de Rua, falou da importância do seminário na visibilidade das pessoas que moram nas ruas. “A Defensoria Pública está criando outro olhar para a população de rua”, destacou Miranda. Carlos Weis, coordenador do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, falou da importância do apoio da direção da Defensoria na realização do seminário e da construção de política de defesa para a população em situação de rua. No final do primeiro dia do Seminário, dia 8, os defensores públicos andaram pelas ruas do centro de São Paulo para conversar com as pessoas de rua. As reclamações de falta de vagas, da violência e retirada de crianças de seus pais foram algumas delas ouvidas pelos defensores. No Largo São Francisco, os defensores presenciaram e impediram ação da Guarda Civil Metropolitana (GCM) para retirada das pessoas que já estavam dormindo nos arredores daquele local. Edição N° 198 - Junho de 2011











