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  • 2ª chamada para candidaturas de vagas Cidadania Pop Rua

    Chapelaria Social Irmã Alberta | Chapelaria Social Irmãs Regina e Ivete Oportunidade de trabalho A Associação Rede Rua está com novas vagas abertas pelo projeto Cidadania PopRua – Chapelaria Social Irmã Alberta e Chapelaria Social Irmãs Regina e Ivete, em parceria com a Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. As oportunidades são para atuação nas unidades do Brás e de Santo Amaro, na cidade de São Paulo: Assistente Social – Santo Amaro (1 vaga) Psicóloga(o) – Brás (1 vaga) Pedagoga(o) (1 vaga) Terapeuta Ocupacional – Serviço de Acolhimento MM – SENEV – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Terapeuta Ocupacional – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Agente Redutor de Danos – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Técnico Nível Superior – Direito – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Mediador(a) de Conflitos em Direitos Humanos – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Intérprete e Tradutor de LIBRAS – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Arquiteta(o) e Urbanista (1 vaga) Se você tem compromisso com os direitos humanos, sensibilidade para atuar com a população em situação de rua e deseja fazer parte de um trabalho que promove cidadania, inclusão social e garantia de direitos, essa pode ser a sua oportunidade. As vagas contemplam diferentes áreas de formação e incentivam a candidatura de mulheres, pessoas negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+, pessoas em situação de rua e/ou em situação de vulnerabilidade social, reafirmando o compromisso da Rede Rua com a diversidade e a inclusão. As inscrições vão até o dia 27 de junho de 2026. Para mais informações sobre requisitos, atribuições e processo de inscrição, acesse o edital completo: https://drive.google.com/file/d/14ZKw4ZTEWKP00QH-BnhPof3srJOKRtQ9/view?usp=sharing As entrevistas serão agendadas na segunda semana de julho, para início imediato das atividades ainda no próprio mês de julho.

  • “Condomínio Minhocão”

    Dando sentido às entranhas e patas do Minhocão Começo pelas notícias que cada um de nós, mais ou menos, já conhece para então abrir as frestas e os vãos entre as manchetes sobre o Elevado João Goulart, o Minhocão. Há quase um ano, no dia 29 de abril de 2025, deu-se início a construção de um estacionamento embaixo do elevado, no Centro de São Paulo. Cerca de um mês depois, esse projeto deu lugar a outro plano, a criação de jardins de inverno na extensão do canteiro central abaixo da cobertura do viaduto. Os jardins começaram a ser instalados no trecho entre as ruas General Jardim e Jaguaribe, continuando pela avenida São João. Tal empreendimento da prefeitura municipal de São Paulo é identificado pela gestão pública como parte da “requalificação de vias ao redor do Minhocão”. Parte significativa da Pop Rua cultiva plantas em locais públicos, dá atenção a cães e recicla resíduos sólidos descartados pelas pessoas domiciliadas - inclusive os moradores do Minhocão. O projeto municipal de embelezamento verde do elevado, entretanto, tem como consequência expulsar dezenas de pessoas que utilizavam o viaduto como um tipo de moradia há vários anos. Algumas delas se dispersaram na região de Santa Cecília e outras resistem no local enfrentando as investidas sistemáticas da Polícia Militar e dos agentes de Zeladoria Urbana. Como pesquisadora, acompanhei o cotidiano de dois destes moradores do Minhocão, Wiliam Pereira, S.Chok e Roger Desenho, em 2023 e 2024, quando eles ainda moravam em barracas nas malocas sob o viaduto. Com eles aprendi um pouco do tanto que cada um conhece sobre a região e sobre os muitos “jeitos” inventados para transformar essa brutal estrutura de concreto em habitação. E, como toda habitação tem vizinhos, acompanhei os moradores tornarem os vãos do elevado ambientes ricos em relações sociais, atravessados por solidariedade, por trocas, por “corres” de várias naturezas. Desde um fogão que passeava entre malocas até o compartilhamento de alimentos, mantas e informações. Estas trocas criavam elos entre os moradores do viaduto e com os moradores dos prédios convencionais e também com os comerciantes da região. Tal vínculo entre as malocas do Minhocão sugeriu imaginar a estrutura do viaduto como um grupo com os contornos de uma comunidade e, de certa forma, um condomínio de unidades que talvez pudesse se chamar “Condomínio Minhocão”. Construído durante a ditadura civil-militar e oficialmente finalizado em 1971, o Minhocão foi criado sem ser submetido a uma consulta popular e é considerado uma obra polêmica desde o seu início. Com 3,4 km de extensão, o projeto privilegiou o fluxo dos automóveis, conectando a Zona Oeste e o centro histórico. Da perspectiva de Super Chok, Desenho e de outros moradores, entretanto, diria que o Minhocão não está nunca definitivamente concluído. Ele é obra em contínua construção, dinamizada pelas atividades que se dão em seu ambiente, em especial no início da noite quando cada um dos moradores utiliza os materiais descartados por outros para colocar suas habitações de pé. Construções estas que serão destruídas pelos agentes da Zeladoria Urbana na manhã seguinte e reconstruídas ao entardecer novamente. Daí cada morador do Minhocão, assim como cada pessoa em situação de rua, com sua energia admirável, ser também um agente produtor das formas da cidade criando constantemente paisagens. Cada morador parece conhecer com intimidade as superfícies assim como as entranhas das paredes e do piso do elevado. Nos dias de chuva intensa, me apontaram como o Minhocão vaza e pinga, levando-os a colocar baldes no piso para conter as goteiras da estrutura. Deste ponto de vista, cada morador do Minhocão era também um zelador dele. Enquanto o direito à moradia não for de efetivo interesse das administrações públicas, contem comigo para lutar para que os moradores do Minhocão tenham o direito de permanecer no Elevado sem ter de enfrentar humilhações cotidianas e expulsões. Luciana Stein é jornalista e pesquisadora.

  • Editorial: As baixas continuam… e vão se intensificar

    O frio chegou e o calor humano parece que está se distanciando da sociedade e principalmente dos gestores da cidade. Até o momento ainda não se sabe quais as ações que vão acontecer para amenizar as consequências das baixas temperaturas. A preocupação da sociedade hoje é com toda a precarização dos serviços que atendem as pessoas em situação de rua, em particular as que não estão nos abrigos institucionais e não conseguem uma vaga em tempos normais, sem o frio. Imagine quando a demanda aumentar por conta do inverno. Todos os anos recebemos as avaliações da baixa qualidade dos serviços implantados de forma emergencial para suprir a maior demanda. Muitas reclamações em relação aos gastos, em particular, o preço da garrafa de água que custou mais de R$ 4 por unidade no ano passado, enquanto, no mercado, se compra pela metade do preço. Outras denúncias são sobre a qualidade da comida e a forma de entrega, além da qualidade do cobertor distribuído à noite, que não esquenta e deixa pêlos nas pessoas, e, ainda por cima, é recolhido no outro dia pela zeladoria. Não podemos esquecer das pessoas que todo ano morrem por hipotermia e por outras consequências do frio. Além do abandono em vida, há também o abandono na morte. Dados não contabilizados e dificuldade no acesso ao enterro digno e gratuito. Agora vivemos uma realidade preocupante com a política de expulsão das pessoas do centro, e as tentativas de fechamento dos serviços de atendimento e acolhimento, em particular a Estação Cidadania I, situada próximo da Praça da Sé e que teve o fechamento anunciado recentemente. Para piorar, com uma justificativa que não tem cabimento. Fechar um serviço por ter outros serviços semelhantes, em um contexto de aumento dessa população e de demanda maior que a oferta, é revoltante. O fechamento de qualquer serviço compromete ainda mais o atendimento das pessoas numa situação de vulnerabilidade crescente. Fica aqui nossa preocupação com este momento e que se implante serviços com alta qualidade para enfrentar as baixas temperaturas.

  • Colar de Honra ao Mérito

    ALESP concedeu Colar de Honra ao Mérito a Benedito Barbosa (Dito) pela sua luta por uma cidade justa e inclusiva. Na segunda-feira, 13 de abril de 2026, o plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo foi ocupado por movimentos de moradia, pelo Fórum da Cidade de São Paulo em Defesa da População em Situação de Rua, pesquisadores e pela sociedade civil em uma cerimônia histórica. Tratava-se da entrega do Colar de Honra ao Mérito (a maior honraria do Legislativo Estadual) ao Doutor Benedito Roberto Barbosa - o nosso querido Dito. Por iniciativa do Deputado Eduardo Suplicy, o prêmio reconheceu a luta histórica de Dito pelos direitos humanos, e principalmente por moradia digna. Dito, que é advogado e Doutor em Planejamento e Gestão de Território, iniciou sua atuação militante junto à Pastoral da Moradia, mas logo expandiu suas ações, colaborando ativamente com os movimentos de moradia organizando comunidades, apoiando ocupações e dialogando com o poder público para garantir direitos. Sua luta incansável foi considerada um exemplo pelos que estiveram presentes e fizeram as homenagens. Fátima dos Santos, representante da União dos Movimentos de Moradia, pontuou sua prontidão para atender às demandas dos movimentos a qualquer momento e o considerou um “herói”. Já Luiz Kohara, do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, ressaltou a gratuidade e a solidariedade que sempre pautam a conduta de Dito, além de sua habilidade política apurada que o permite mediar conflitos dos mais acirrados. Ao agradecer a honraria recebida, Dito relembrou a importância do trabalho da Defensoria Pública e de defensores de direitos humanos que são perseguidos, como Preta Ferreira e Alessandra Moja, e de vítimas da violência do Estado, como os sobreviventes do incêndio do Edifício Wilton Paes de Almeida e o senegalês ambulante Ngange Mbaye. Por fim, ressaltou a importância de se lutar por direitos de forma coletiva e popular para que possamos, assim, realizar o sonho de uma cidade justa e inclusiva. Assista à cerimônia Clicando no link Abaixo https://www.youtube.com/live/fIICDRpB1Sk

  • Recado da Rua

    A história de dona Maura de Alagoas Maria Maura dos Santos, de 75 anos, recebeu uma moradia digna através do programa estadual “Novo Lar, Nova Vida”, recebendo casa com intervenção do MNPR e benção do Padre Júlio, é o mínimo! Desde que Alcione recebeu a chave do apto de Eduardo Paes (RJ), viu-se que as mulheres têm prioridade em sair da rua (calçada). Agora precisamos criar uma plataforma nacional e entregar a todos os candidatos a governador, inclusive aos que militam na nossa contramão, ainda que tenhamos nossos candidatos próprios. Mas, se outros ganharem, eles não podem dizer que não sabiam que o lema Terra, Pão e Teto continua na pauta do dia desde o tempo de dom Helder e dom Evaristo Arns. Eles já sabem que ao não nos contemplarem estão sendo desonestos, pois não é nós que não os procuramos, eles que nos invisibilizam. As mulheres continuam prioridade, mas a Habitação de interesse social continua prioridade também. Rio de Janeiro, 1 de abril de 2026.

  • Viver nas Ruas

    Entrevista com a jornalista Rebeca Kritsch que viveu por cinco dias nas ruas. No mês de abril, tivemos o lançamento do livro “Viver nas Ruas”, de Rebeca Kritsch. A obra traz a republicação de uma série especial sobre pessoas em situação de rua feita em 1995 pela autora para o jornal O Estado de São Paulo. Rebeca e o fotógrafo Vidal Cavalcanti dormiram nas ruas de São Paulo por cinco dias e, na reportagem, ela apresentou a realidade e a dificuldade vividas por quem está nessa situação. Trecheiro: Quais pontos te chamaram atenção e que você nunca tinha parado para pensar sobre quem está em situação de rua? Rebeca: Eu não sabia como era difícil uma pessoa sair da rua. Eu tinha a mesma impressão de outros, que se você oferecesse um trabalho, uma casa, a pessoa saía. Outra coisa é que eu achava que a pessoa em situação de rua não transava. Eu pensava: “como é que o povo engravida?” Daí eu descobri como é que transavam. E um último ponto é como as mulheres faziam quando menstruavam. Então elas, muitas vezes, pediam dinheiro para comprar absorvente. E é algo que, antes, nunca me passou pela cabeça. Trecheiro: você conheceu diversas pessoas que estavam verdadeiramente nesta situação. Qual trajetória de vida mais te marcou? Rebeca: São duas que me deixaram muito triste. Uma delas é a Berenice, uma moça linda, nova e que foi estuprada dentro de casa. E por isso caiu na rua e nunca saiu. Ela tá até hoje. Aquilo me deu uma tristeza, a menina pirou. Outra foi a dona Jane, uma aposentada que morava embaixo do Minhocão. Velhos de rua mexem comigo até hoje. As pessoas olham para pessoas velhas na rua e julgam. Olham e falam: “Isso daí não conseguiu nada da vida. O que deve ter feito para ter caído na rua?” As pessoas não entendem que muitas vezes esses idosos são maltratados pela família, são jogados na rua. A família toma casa, toma tudo. Por isso a senhora que vivia no elevado me marcou muito e também porque, inclusive, ela pegava a aposentadoria e era assaltada todo mês, vivia naquele perigo. Trecheiro: Em 1995, sua reportagem foi importante para trazer visi bilidade à realidade e às dificuldades vividas por quem está em situação de rua. Você acha que o preconceito com quem está nessa situação (chamado de aporofobia) mudou ao longo desses 30 anos? Rebeca: Eu saí do Brasil há 16 anos. Enquanto estive no Brasil, eu via aporofobia direto. E nesses últimos 16 anos, acho até que piorou. Nas minhas visitas ao Brasil, o preconceito contra pobre é horrível. Entre a elite se agravou. Como foi o caso do metrô em Higienópolis, que os moradores do bairro não queriam porque ia aparecer um público “diferenciado”. Trecheiro: Tivemos o caso recente em Belém (PA), em que universitários davam choque num senhor em situação de rua com saúde mental comprometida. Eram dois jovens e a diversão era um deles dar o choque com aquelas armas de choque, o outro filmar dando risada e divulgar nas redes. É o tipo de notícia que acaba com a fé na humanidade. Rebeca: São surreais. Vemos as pessoas falando mal de pobre. Eu tenho ex-amigos. Ouvi coisas que não tem como continuar sendo amigo. Frases como: “Olha que lama”, ao ver uma pessoa na rua. É muito triste. As pessoas em situação de rua são humilhadas. A normalização da agressividade, da violência, da falta de respeito. Liberou o pior das pessoas. Trecheiro: Qual o papel do jornalismo no combate ao preconceito e na busca de uma sociedade mais justa? Rebeca: Fiz jornalismo em Columbia, nos Estados Unidos. E eles falam que jornalista é um ser que é pago para se preocupar com os problemas do mundo. E, para mim, jornalista é isso. Jornalismo é uma função de servir ao público, servir à sociedade. Jornalismo é mais que um papel. É um dever de denunciar desigualdades e trabalhar para uma sociedade mais justa. Outro papel muito importante do jornalismo é de educar. Com as redes sociais hoje, há grandes oportunidades para educar pessoas. E o jornalismo é uma profissão privile- giada para fazer isso. Trecheiro: Atualmente você vive fora do Brasil. A partir da sua experiência no Reino Unido, tem algo que o Brasil poderia aproveitar como exemplo na questão da situação de rua? Rebeca: Quando lancei o livro, vi os números da Inglaterra e aprendi algumas coisas. Aqui tem duas categorias, homeless e rough sleeper. A pessoa é considerada homeless antes de estar em situação de rua, antes de dormir na rua. São pessoas que estão em moradia temporária, sem estabilidade na moradia, que estão em situação que podem ser despejadas a qualquer momento ou que estão em centros de acolhida. Atualmente há 140.227 homeless no Reino Unido (dados de março de 2024). Já rough sleeper é quem está dormindo nas ruas, em calçadas. São 4.667 rough sleeper só na Inglaterra (dados de outubro de 2024). Ou seja, a Inglaterra coloca recursos e esforços para não deixar a pessoa cair na rua. Porque uma vez que caiu, é difícil sair. Há uma atenção especial para famílias, para que não caiam nas ruas com crianças. Acredito que essa atenção antes de cair na rua é muito importante. Porque o que você investe aqui, economiza lá na frente.

  • Direitos na praça, dignidade em movimento

    Pessoas em situação de rua acessaram no mesmo espaço os serviços que normalmente exigiriam longos deslocamentos e enfrentamento de barreiras institucionais. Foto: Divulgação Entre os dias 13 e 17 de abril de 2026, a Praça da Sé, no centro de São Paulo, tornou-se espaço de garantia de direitos com a realização da 7ª edição do Mutirão Pop Rua Jud. Durante cinco dias, pessoas em situação de rua puderam acessar no mesmo espaço os serviços que normalmente exigiriam longos deslocamentos e enfrentamento de barreiras institucionais. A iniciativa, que é uma previsão da política judiciária para a população em situação de rua da Resolução nº 425/2021 do Conselho Nacional de Justiça, reuniu tribunais, defensorias públicas, órgãos federais, estaduais e municipais, além de dezenas de organizações da sociedade civil, coletivos e movimentos sociais. Documentação civil, atendimento jurídico, cadastro em programas sociais, orientações previdenciárias, serviços de saúde, vacinação, alimentação e encaminhamentos para trabalho foram oferecidos no decorrer da semana. Para quem vive na rua, o que está em jogo não é apenas o atendimento pontual, mas o reconhecimento da condição de sujeito de direitos. A ausência de documentos, por exemplo, segue sendo uma das principais engrenagens da exclusão: sem certidão, RG ou CPF, não há acesso a políticas públicas básicas. O Pop Rua Jud enfrenta essa lógica ao concentrar serviços e reduzir exigências que, no cotidiano, afastam quem mais precisa. O eixo do acesso à justiça foi um dos destaques da ação. Defensorias, tribunais e serviços jurídicos estiveram disponíveis diretamente na praça, invertendo a lógica tradicional que exige das pessoas em situação de rua circulação por prédios hostis e burocráticos. Nesse gesto, o Estado se desloca até onde a exclusão é mais visível. A diversidade das trajetórias atendidas revela a complexidade da rua: pessoas que perderam o emprego e a moradia, migrantes e refugiados em busca de regularização, mulheres, idosos, pessoas adoecidas e famílias com crianças. Embora potente, o mutirão também expõe um limite: direitos ainda não chegam à população em situação de rua. A alta demanda durante o evento - média de mais de mil pessoas por dia - revela a carência de políticas públicas permanentes, integradas e territorializadas. Mutirões não substituem políticas estruturais de moradia, renda, saúde e cuidado continuado.

  • Direitos Humanos para as pessoas que estão em situação de rua

    Cidadania Pop Rua, uma porta aberta em Santo Amaro para atender as pessoas da região Representantes das OSCs à frente do Cidadania PopRua-SP: Rede Rua, Identidade Periférica, Instituto Becei, É de Lei e Casa Neon Cunha. (Foto: Alderon Costa) Dia 30 de abril, foi inaugurado em Santo Amaro, São Paulo, um primeiro espaço para reforçar a política pública de atendimento das pessoas em situação de rua. A chapelaria irmãs Ivete e Regina já funciona desde 2025 e agora passa a fazer parte do programa “Cidadania Pop Rua” PAR (Pontos de Apoio da Rua) e CAIS (Centros de Acesso a Direitos e Inclusão Social). “Trata-se de um equipamento multidisciplinar para atender, da melhor forma possível e com respeito aos direitos humanos, as pessoas em situação de rua”, destacou a secretária-executiva do MDHC, Caroline Reis. Para Andreza do Carmo, coordenadora da Rede Rua, o que vemos hoje na cidade de São Paulo não é apenas o aumento da população em situação de rua, é uma reorganização forçada dessa população nos territórios. “Essas pessoas estão sendo empurradas para as margens. Santo Amaro tem sido um dos destinos desse deslocamento, mas sem o devido investimento”, conclui Carmo. Além de atendimento por equipe especializada multidisciplinar que garante acolhimento humanizado e acesso a direitos, os novos equipamentos também vão oferecer serviços como higiene pessoal, guarda de pertences, lavanderia e cuidados pessoais. Na mesma data também foi anunciado o 1º Censo Nacional da População em situação de rua, parceria entre o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o MDHC. O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, participou da inauguração e esteve no espaço onde funciona o atendimento. Para ele, o Censo vai ser uma oportunidade, uma espécie de pagamento de uma dívida que o sistema estatístico tem com uma parcela da população do nosso país. “Agora estamos tendo um outro olhar, contar a população que não tem domicílio e essa é uma parcela importante de reconhecimento da necessidade de estatística, mas também o próprio reconhecimento da experiência que está sendo feita aqui.” Segundo Malu Burgareli Gama, Diretora de Promoção dos Direitos da População em Situação de Rua do MDHC serão 7 unidades em São Paulo e mais 40 em 20 unidades federativas, totalizando 47 unidades. Em São Paulo, serão implantados 7 serviços do programa Cidadania Pop Rua nas regiões de Santo Amaro, Cidade Tiradentes, Santana, Cambuci, Vila Leopoldina, Brás e Sé. “É uma resposta do Governo Federal ao aumento da violência contra a população em situação de rua. Este programa vem para completar a rede”, destacou Burgareli. O Coordenador-geral do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para a População em Situação de Rua (CIAMP-RUA Nacional), Anderson Lopes Miranda, destacou a importância do serviço para garantir a dignidade: “Não é tirar o papel do Centro Pop, mas é agregar, melhorar e que seja atendida com dignidade”.

  • Trecheirinhas

    Sem-teto e Sem-enterro Na noite do dia 13 de junho de 2025, Jeferson de Souza dos Santos foi executado com 3 tiros de fuzil pelo 1º tenente Allan Wallace dos Santos e o soldado Danilo Gehrinh. Até o dia 27 de fevereiro de 2026 a família continuava aguardando o translado para Craíbas-AL (Processo n°: 1500355-97.2025.8.26.0053). Os policiais continuam presos aguardando a data do júri (Processo nº: 0000312-43.2025.8.26.0052). De novo, tentam despejar a Coopamare Dia 14 de maio foi o aniversário de fundação da Coopamare (Cooperativa de Catadores de Papel, Papelão e Materiais Reutilizáveis). São 37 anos reciclando, possibilitando alternativas de vida digna para mais de 80 famílias e dando fôlego para o planeta. Segundo Eduardo Ferreira de Paula, um dos fundadores da Coopamare, “Se for para tirar daqui para outro viaduto nós ficamos aqui.” Coopamare, fica! #coopamarefica

  • Acolher e criar oportunidades

    Arsenal da Esperança, 30 anos acolhendo e possibilitando que pessoas em situação de rua reconstrua suas trajetórias. Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO No dia 21 de março de 2026, o Arsenal da Esperança celebrou 30 anos de atuação na cidade de São Paulo. A data foi marcada por uma programação que reuniu pessoas acolhidas, trabalhadores(as), voluntários(as) e religiosos(as), em um momento de celebração e memória. A comemoração contou com barracas de comidas típicas, música e atividades de convivência. Também foi celebrada uma missa presidida pelo cardeal Dom Odilo Scherer, concelebrada por padres da casa e convidados, com transmissão ao vivo para a Itália, país de origem dos religiosos responsáveis pelo projeto. Fundado em 1996, o Arsenal da Esperança se consolidou como uma das principais iniciativas de acolhimento à população em situação de rua na capital paulista. Ao longo dessas três décadas, o espaço ampliou sua atuação para além do abrigo emergencial, que atende diariamente cerca de 1.200 homens. Com foco na reconstrução de trajetórias, no fortalecimento de vínculos e na promoção da dignidade, a iniciativa também oferece atividades de formação e espiritlidade. Segundo o padre Simone Bernardi, da Fraternidade da Esperança do SERMIG*, a proposta do Arsenal se baseia na convivência e na presença cotidiana. “Amar é fazer com que os outros sejam capazes de amar”, afirma. Ele destaca a inspiração em Dom Luciano Mendes de Almeida, um dos incentivadores da missão. A iniciativa também busca ampliar sua relação com o território. A perspectiva, segundo o religioso, é tornar o espaço cada vez mais aberto à comunidade, integrando diferentes públicos e promovendo relações baseadas no respeito e no apoio mútuo. Histórias como a de Adriano Mangueira dos Santos, um dos acolhidos, demonstram os impactos do trabalho. Há oito meses em São Paulo, ele afirma ter encontrado no Arsenal oportunidades para recomeçar. Atualmente empregado, segue reconstruindo sua trajetória. “O Arsenal da Esperança dá muitas oportunidade para quem quer. Eu sou um deles. Estou trabalhando registrado e, com a graça de Deus, sendo abençoado pelo Arsenal”, relata. Instalado na antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás, o Arsenal ocupa um espaço historicamente ligado ao acolhimento e à busca por novas oportunidades. Esse processo, no entanto, ocorreu em meio a profundas desigualdades: enquanto imigrantes chegavam em busca de melhores condições de vida, a população negra, recém-saída da escravização e sem acesso a políticas de inclusão, foi sendo empurrada para as margens da sociedade. Hoje, essa realidade ainda se reflete no perfil das pessoas em situação de rua — 70% delas negras — que voltam a ocupar esse mesmo espaço na tentativa de reconstruir suas trajetórias. A marca dos 30 anos ocorre em um contexto de agravamento da crise social. Em São Paulo, cresce o número de pessoas vivendo nas ruas, reflexo da insuficiência de políticas públicas, do desemprego e da dificuldade de acesso à moradia. Mais do que um marco comemorativo, a celebração reforça a necessidade de respostas contínuas e efetivas para a população em situação de rua. *SERMIG (Servizio Missionario Giovani): Uma fraternidade internacional cristã fundada na Itália por Ernesto Olivero.

  • São Martinho e São Leopoldo FICAM!

    Núcleo de Convivência São Martinho de Lima No início do mês de março de 2026, tivemos a grave notícia do futuro fechamento de dois importantes serviços para a população em situação de rua: o Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, na Mooca, e o Centro de Acolhida São Leopoldo, no Belenzinho. O São Martinho existe há 35 anos e atende 450 pessoas diariamente, com oferta de refeições, banho, oficinas e atendimento socioassistencial. O São Leopoldo é um centro de acolhida para 180 pessoas e que funciona também como núcleo de convivência para mais 270 pessoas, totalizando 450. Ou seja, juntos, os dois equipamentos, que são extremamente bem avaliados pelos conviventes, atendem 900 pessoas na região da Subprefeitura da Mooca. Em ambos os serviços, a Secretaria da Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) informou a rescisão dos Termos de Colaboração com as organizações que gerenciam os espaços, sem qualquer justificativa. O caso do São Martinho teve grande visibilidade nos jornais, principalmente pelo fato dele ter sido criado pelo querido Padre Júlio Lancellotti. Com isso, poucos dias após o anúncio do fechamento, o Ministério Público abriu um inquérito civil para apurar o caso e fez uma Recomendação para que o serviço não feche. No dia 11, a SMADS recuou no fechamento do São Martinho! Entretanto, o mesmo não ocorreu com o São Leopoldo. O Grupo de Trabalho PopRua (GT PopRua), da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo, fez visitas nos dois serviços no dia 09 de março, antes do recuo da SMADS no caso do São Martinho, e constatou a qualidade e a importância da continuidade dos serviços. No dia 11, o GT PopRua divulgou uma nota pública e a vereadora Luna Zarattini e o deputado estadual Eduardo Suplicy protocolaram uma representação ao Ministério Público contra o fechamento dos serviços. No dia 18, Luna e Suplicy organizaram um ato contra o fechamento do São Martinho e do São Leopoldo na Faculdade de Direito da USP, em que os conviventes dos serviços puderam expor suas opiniões e seus medos. No dia seguinte, o Ministério Público informou que, a partir da representação dos parlamentares, instaurou um inquérito civil e fez uma Recomendação para que o São Leopoldo não feche, similar à do São Martinho. No dia 20, uma nova vitória: o Tribunal de Justiça determinou que a Prefeitura está proibida de fechar os serviços. Vitória! Mas seguiremos de olho.

  • O que te sobra?

    Foto: Alderon Costa Quem sobrevive e está vivendo em situação de rua tem pouco ou quase nada de sua vida fora das ruas. Sua história parece que foi interrompida. Seus projetos de vida, seus sonhos e perspectivas se perderam. A vida virou uma: aqui e agora! A rotina de sobrevivência tomou conta de quase toda a vida. O restinho do tempo que sobra é fazer as coisas para se estar viva: uma dose de pinga, um cigarro, um bom papo de história passadas, projetos e sonhos que muitas vezes ficam ali na roda de conversa. O fato é que estar em situação de rua é sobreviver dentro de uma realidade difícil de suportar. Para Roseli Kraemer, do Fórum da Cidade, “no Brasil e no mundo a gente não tem o direito de viver, de ocupar e não tem o direito de ir e vir. Porque tudo no meu quintal, não! Principalmente pop rua. Todos os projetos do governo são para a elite, para as pessoas que podem pagar. A gente não tem nada. A gente não tem moradia. Tiraram tudo da gente. Então, o que resta pra a gente além de andar com a casa nas costas [mochila] e viver numa resistência constante?” Essa fala aconteceu na última oficina (21/03) do Coletivo Luta Pelo Direito ao Centro, onde Roseli foi convidada a falar sobre a luta por moradia das pessoas em situação de rua. Logo depois, a caminho da Câmara Municipal de São Paulo, por coincidência num muro que cerca umas das Vilas Reencontro, onde moram famílias com trajetória de rua, encontrei a frase: “O que te sobra?” Mais à frente uma pessoa deitada, provavelmente alguém em situação de rua dormindo. Essa é a história de milhares de pessoas que estão em situação de rua e próximas dessa situação. O que sobra para estas pessoas? Nesta edição é apresentado o PL do Bom Prato; os 30 anos do Arsenal da Esperança, um espaço de acolhimento para mais de mil pessoas, situado num espaço que já foi usado por muitos migrantes; trazemos também a triste tentativa da Prefeitura de São Paulo de fechar espaços que são muito importantes para as pessoas que não tem onde ficar. É uma contradição, pois a prefeitura não quer ninguém na rua, mas ao mesmo tempo não abre novos espaços mais qualificados e até fecham os que já existem. O que sobra? No mesmo muro, encontrei a frase: “Se ninguém é especial, você pode ser!” Daí, para completar esse pensamento que nem tudo está perdido, trazemos a segunda parte de nossa homenagem à Maria Alice, “Ela conseguia olhar coisas coloridas”, numa entrevista com sua filha Georgia Vassimon.

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