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- Caminhar com quem nunca deixou de (r)existir
“É preciso gritar no ouvido das pessoas, já que sua surdez aparente é uma espécie de defesa, de autodefesa covarde e malsã. É preciso que se consiga despertar nos demais a vergonha de si mesmos, que se lhes substitua a autodefesa pelo auto enojamento” Mário Benedetti, em A Trégua (1960). A rua tornou-se o símbolo da resistência diante dos problemas que a vida impõe a milhares de pessoas. A cada dia, para um número crescente de brasileiros, ela passa a ser a única alternativa possível para prolongar um pouco mais a própria existência. Essa realidade deveria nos interpelar profundamente. Em vez disso, grande parte da sociedade se arma contra essas pessoas, como se fossem seres de outro planeta. Não as quer por perto. O "enojamento" recai sobre quem vive na rua, quando, na verdade, o que deveria causar repulsa são as práticas de expulsão, higienização, encarceramento e, por fim, de morte. O jornal O Trecheiro nasceu em um momento em que ainda se acreditava ser possível transformar essa realidade, que já se agravava. No início da década de 1990, após o fim de um longo período de repressão, o sonho de construir uma nova sociedade contagiava a todos, inclusive quem vivia sob os viadutos, nos cortiços e nos mocós. Com a eleição da prefeita Luiza Erundina, acreditamos que mudanças concretas seriam possíveis. E, por um breve período de quatro anos, elas aconteceram. Para quem vivia nas calçadas, entretanto, essas transformações ainda ficaram aquém do necessário. O maior avanço daquele momento foi dar visibilidade ao problema e iniciar o debate sobre políticas públicas efetivas. O primeiro passo foi conhecer essa população: realizar a primeira contagem e compreender quem eram e como viviam as pessoas em situação de rua. O tempo passou. Novos censos foram realizados, programas e projetos foram criados com o objetivo de enfrentar essa realidade. Surgiram casas de convivência, iniciativas de geração de renda por meio de cooperativas, espaços de alimentação e ações de incentivo à organização da própria população em situação de rua. Mas o tempo não parou, e a população de rua continuou crescendo. Com ela, cresceram também os conflitos urbanos. A ampliação da rede de acolhimento mostrou-se insuficiente diante da nova realidade. A política de zeladoria urbana passou a ser acompanhada por operações constantes das forças de segurança, aumentando a violência contra quem vive nas ruas. Desde a gestão Erundina, nenhuma política pública de caráter estrutural foi implementada para alterar esse cenário. Os governos seguintes, inclusive os de orientação progressista, limitaram-se, em grande medida, à ampliação de programas já existentes, buscando amenizar o sofrimento, mas sem enfrentar as causas profundas que empurram milhares de pessoas para a rua. O resultado é conhecido: hoje, a cidade de São Paulo ultrapassa a marca de 100 mil pessoas vivendo em situação de rua. Ao longo desses 35 anos, vimos a criação de leis, políticas nacionais, movimentos organizados da população em situação de rua, programas de saúde, iniciativas de moradia e experiências de inclusão social. Houve avanços importantes. Mas nada foi implementado em escala suficiente para alterar a tendência permanente de crescimento dessa população. Mais recentemente, especialmente após a pandemia, o Poder Judiciário aproximou-se dessa realidade. Foram realizados mutirões de cidadania, criados comitês voltados ao tema e conquistada uma importante decisão do Supremo Tribunal Federal, por meio da ADPF 976, que determina a elaboração de planos de ação, o respeito aos direitos da população em situação de rua e a adoção de políticas preventivas. O Governo Federal também instituiu uma coordenação específica para dialogar com os movimentos sociais e enfrentar esse desafio. Apesar desses avanços institucionais, a realidade continua se agravando. O que vemos crescer é a criminalização da pobreza, o preconceito, a violência, o fechamento de serviços públicos em pleno inverno, as mortes provocadas pelo frio, a precariedade dos equipamentos de acolhimento e o abandono de quem mais precisa. Passados 35 anos, ainda não conseguimos vislumbrar uma solução efetiva, ampla e estrutural para quem vive — ou está prestes a viver — nas ruas. Há uma incapacidade coletiva dos gestores públicos, das instituições e, em muitos casos, das próprias organizações responsáveis por propor respostas à altura desse desafio. Em vez de reduzir o problema, assistimos ao aumento contínuo da população em situação de rua e à permanência de políticas públicas insuficientes, fragmentadas e temporárias. Na prática, a repressão, a higienização social, a expulsão dos espaços públicos, a prisão e até a eliminação física têm ocupado o lugar de políticas de inclusão. As pessoas em situação de rua seguem submetidas ao preconceito, à discriminação, à violência e à morte prematura. Em muitos casos, trata-se de uma morte anunciada. Gestores públicos sabem que, sem proteção diante das mudanças climáticas, sem acesso efetivo à saúde, à moradia e à renda, essas pessoas morrerão de forma antecipada. Ainda assim, continuam sendo devolvidas às ruas após passagens por hospitais ou postos de saúde, levando consigo as mesmas doenças e a mesma exclusão. Não temos muito a comemorar, além da própria existência deste jornal. Celebramos o fato de O Trecheiro continuar vivo, independente e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Agradecemos a cada leitor, cada apoiador e cada parceiro que tornou possível essa caminhada. Agradecemos especialmente à Paulus Editora, que esteve ao lado do jornal durante tantos anos, e também aos escritores, fotógrafos, diagramadores, revisores, distribuidores, voluntários e a todas as pessoas que ajudaram a manter esta voz circulando. Celebrar 35 anos também exige reconhecer uma verdade incômoda: enquanto a sociedade, os governos, as instituições e todos nós não formos capazes de construir saídas reais para quem vive nas ruas, a rua continuará crescendo. Quando uma sociedade naturaliza que milhares de pessoas sobrevivam e morram ao relento, ela não está apenas condenando essas pessoas. Está condenando a si mesma. O futuro de uma cidade não pode ser construído sobre calçadas transformadas em moradia permanente. Se a casa continuar sendo a rua para tantos, a rua acabará se tornando o retrato do fracasso de todos nós. 35 anos, agora é ver o que nos aguarda nos próximos anos.
- "Uma pipa de esperança"
Nova vinheta do jornal O Trecheiro Comecei colocando a noite porque ela sempre chega, e pode ser iluminada. Tudo depende de como conduzimos esses caminhos. Também inseri o mapa de São Paulo, onde nasce o jornal O Trecheiro e onde se desenvolvem suas principais atividades. O sol representa esse lugar de esperança, de direção e de horizonte. É a luz que ilumina o caminho à frente. Por isso, as pessoas olham para o sol e seguem em frente, apesar de todas as dificuldades. As figuras representam pessoas diversas, como uma grande família. É assim que muitas pessoas em situação de rua se organizam: em famílias construídas na convivência, diversas e mutáveis, com diferentes composições a cada momento e a cada novo trecho percorrido. O jornal aparece voando porque as notícias também voam. As informações ultrapassam fronteiras e alcançam outros lugares, conectando pessoas e histórias. O cobertor, conhecido pelos fiapos que ficam impregnados na roupa e no corpo após o uso, foi transformado em uma faixa de luta. Ele simboliza a capacidade das pessoas em situação de rua de transformar o luto em luta a partir dos poucos elementos que possuem. Suas escassas bagagens e aquilo que as protege do frio tornam-se símbolos de resistência e da busca por um lugar no mundo — um lugar que, muitas vezes, lhes é negado. Esses elementos também representam mapas, caminhos e os trechos percorridos por quem vive nas ruas. São os lugares por onde passam, permanecem por um tempo ou seguem adiante. O saco de lixo preto simboliza o descaso, o abandono e a invisibilidade. É o peso que precisa ficar para trás para que a vida possa seguir em frente. O bandeirão representa a luta permanente da população em situação de rua por direitos, dignidade e reconhecimento. Por fim, coloquei uma criança segurando o jornal como se ele fosse uma pipa, símbolo da esperança. As informações levadas pelo O Trecheiro estão profundamente conectadas à vida das pessoas. São elas que sustentam e contam suas próprias histórias. A criança representa a possibilidade de um outro mundo, mais justo e humano. Que essas informações alcancem lugares capazes de transformar vidas e de abrir novos caminhos para quem, durante tanto tempo, teve sua voz silenciada.
- “A Rua Foi Minha Madrasta e Minha Escola”
Vanilson da Silva revisita sua trajetória e destaca o papel histórico do Trecheiro Aos 52 anos, José Vanilson da Silva carrega no corpo e na memória quase três décadas vividas nas ruas de Natal. Militante do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), poeta, educador e referência na luta por direitos, ele revive sua trajetória e analisa caminhos, retrocessos e esperanças na política pública voltada à população em situação de rua. Nesta entrevista, Vanilson comenta a importância do Jornal O Trecheiro, que completa 35 anos em 2026. Conte um pouco sobre a sua trajetória de vida. A rua foi minha madrasta. Pisei na rua pela primeira vez aos 12 anos, empurrado por conflitos familiares. Minha infância e adolescência foram nas ruas. A rua é uma escola e uma madrasta. E eu tive uma má drasta. A rua tem uma lógica própria. Aprendi que a gente tem dois ouvidos e uma boca. Precisamos ouvir mais e falar menos. No bar ou na rua, quando você fala demais, pode se complicar. Entre consumos de experiências e territórios — albergues, praças, viadutos — vivi 27 anos nas ruas de Natal. Sai apenas em 2014, após conhecer minha companheira, Fátima. Já havia ingressado no MNPR em 2012, mas o movimento não tira ninguém da rua, mas luta para que o Estado cumpra suas obrigações. O movimento luta por políticas públicas. Não é favor, é Constituição. Gestão é que tem que garantir direitos. Você avalia que temos avanços na política pública para a população em situação de rua? Avanços temos poucos e quase sempre no papel. Houve avanços, mas tímidos, lentos e majoritariamente formais. O Decreto 7.053/2009, a ADPF 976 julgada pelo STF, a Lei 14.121 (Trabalho e Cidadania PopRua) — mas tudo isso não basta sem orçamento. A crônica falta de financiamento é o que impede que direitos saiam do papel. Sem orçamento, política pública vira tinta. A ADPF está aí, mas não está sendo respeitada. Vejo que há um aumento da violência institucional e propostas de internação compulsória disfarçadas de voluntárias. É afronta. É retrocesso. Estamos vivendo em um governo de coalizão. Poderia ser pior. Mas não basta discurso. Lula precisa colocar os óculos da visibilidade. E moradia continua sendo o direito mais negado. A moradia é a política que mais expõe a negligência do Estado. Existem avanços como a portaria que destina 3% das unidades do programa habitacional para população em situação de rua, mas isso depende de empenho e vontade política local. Além disso, precisamos de vários modelos: locação social, repúblicas, moradia digna. Do jeito que está, nada sai do papel. 35 anos do Trecheiro: memória, luta e visibilidade. Você poderia falar um pouco do jornal e sua importância para a população em situação de rua? Ao falar do Jornal O Trecheiro, Vanilson sorri. Poeta e colaborador do jornal, ele vê na publicação um instrumento único de visibilidade e resistência. O Trecheiro é feito pela rua e para a rua. É memória das lutas, das dores e das violências. Lembro a transformação do logotipo do jornal — antes com a figura clássica do andarilho carregando trouxas no ombro; hoje uma pessoa vestida como qualquer outra, trazendo consigo a mesma dignidade, apenas privada de moradia. Essa mudança é simbólica: mostra a evolução de um olhar mais justo e menos estigmatizado sobre a população em situação de rua. O jornal é muito importante por estar na capital paulista, onde se concentra o maior número de pessoas em situação de rua do país. São Paulo é a capital negra e a capital da população em situação de rua. E o Trecheiro está lá, dando voz, dando luz, publicando o que ninguém mais publica. O Trecheiro tem papel fundamental na divulgação dos protocolos, das resoluções do PopRuaJud, das lutas em todo o Brasil. Ele já contribuiu muito — e vai contribuir ainda mais. Enquanto houver pessoas andando, haverá Trecheiros. Com a lucidez de quem viveu a rua por dentro, Vanilson encerra com poesia: “Enquanto houver pessoas sem rosas, haverá Trecheiro. Enquanto houver andarilhos, haverá luta.” Nos 35 anos do jornal, seu testemunho reafirma a importância da memória e da palavra — e de que, na rua, ninguém luta sozinho.
- “Mensageiro e Travesseiro”:
Samuel Rodrigues fala sobre o jornal que o acompanhou na luta O Trecheiro nasceu para ampliar a voz de quem caminha o país pelo asfalto, pelas ocupações, pelos centros, viadutos e abrigos. Nesses 35 anos, o jornal construiu uma relação íntima com a população em situação de rua — e, entre essas histórias, está a de Samuel Rodrigues, militante, poeta e liderança histórica do movimento. Nesta entrevista exclusiva, Samuel revisita como conheceu o Trecheiro, o impacto do jornal em sua trajetória e a importância desta publicação na formação, informação e resistência da rua. Como você conheceu o jornal O Trecheiro? Eu conheci o Trecheiro pelas mãos do movimento, em eventos de população de rua. Acho que pelas mãos de Alderon, Cleisa Rosa, de Renata Besses e também de Regina Manoel, querida e saudosa. Foi nesse mesmo ambiente — de encontros, assembleias, debates — que o Trecheiro se tornou presença constante. Conheci nessa seara, com essas pessoas, nos espaços onde a Rede Rua, o Argemiro e o movimento estavam. Qual a importância do jornal O Trecheiro para a população em situação de rua? O Trecheiro cumpre funções que poucos veículos cumprem no país. Eu não tenho dúvida que o jornal Trecheiro contribui — e muito — com a rua. Ele leva as informações da rua, fala sobre políticas públicas, divulga os acontecimentos do país sobre população de rua, catadores. Ele é um foco de informação para quem conhece o tema e também de formação para quem não conhece. O Trecheiro chega a universidades, a religiosos, a pessoas que só conhecem a realidade local da rua. O jornal carrega essa informação. Até as minhas poesias foram publicadas no Trecheiro. O jornal não apenas me acompanhou, mas as minhas poesias foram divulgadas no Trecheiro. Eu tenho matérias no jornal. O Trecheiro dá voz à rua, entrevista a população de rua, exalta a luta das mulheres, do povo negro em situação de rua. É um espaço de expressão, memória e celebração da vida. O jornal escolhe na fonte, trechando, terminando os nossos congressos e fazendo essa escuta direta. O Trecheiro é útil até para embrulhar alguma coisa… e muitas vezes ele é travesseiro. Jornal muitas vezes vira travesseiro. Então ele é de grande importância para a rua: por ser mensageiro e muitas vezes por ser travesseiro. O jornal é mais do que veículo, ele é companheiro. Como o jornal O Trecheiro pode continuar contribuindo com a rua? O Trecheiro sempre acompanhou os acontecimentos urgentes do país, especialmente aqueles que impactam diretamente a população em situação de rua. Ele é um jornal muito dinâmico. Trabalhou o decreto 7.653, trabalhou a lei de Belo Horizonte, as questões permanentes dos catadores, a integração… Ele precisa continuar publicando as notícias de momento. Eu espero que o Trecheiro possa trabalhar um dia a entrega de moradias para a população de rua, o acesso ao trabalho. Mas enquanto isso não chega, que continue dando voz ao povo da rua e à sociedade civil. O Trecheiro completa 35 anos como um jornal vivo, resistente, coletivo — construído por mãos que conhecem o asfalto de perto.
- “Até que a pobreza seja um negócio de museu"
Praça Clovis Beviláqua, em São Paulo, é lugar de muitos encontros. Ali passei uma tarde com Paula Corinã Gonçalves Pereira. Há anos assumiu sua condição de trans. Toda manhã ela desmonta sua barraca e junta seus pertences antes que o rapa e a zeladoria da prefeitura façam seu giro e expulsem as pessoas em situação de rua do seu local de sobrevivência — parte da política higienista da prefeitura. Paula sobrevive a sol e chuva na praça que, há séculos, era habitada pelo povo Guaianás. “A Praça da Sé é o marco zero de São Paulo. Eu não posso chamar esse lugar de lar. É uma praça de todos nós! Aqui é mais seguro porque é um lugar de trânsito de várias pessoas.” Sua cosmovisão vem dos povos originários: “O índio já tem o estigma de que tem de estar lá na floresta, tem que estar vestido, caracterizado. Não pode ser um índio trans.” Começa pelo cotidiano: “Eu acordo, faço exercícios, vou rezar, boto água para o cachorro e vou procurar o que comer.” Pergunto onde encontra comida: “A providência divina me alimenta!” E sobre os cachorros? “Eu durmo na rua com dez cachorros... Eles são meus irmãos! É como ser o irmão mais velho. Se passar algum malfazejo, aqui por perto, o cachorro na hora sente e late!” Conhecida no entorno, ela comenta: “É revigorante para um trabalhador passar e ver uma pessoa suja desejando-lhe um bom dia verdadeiro”. Segue a conversa: “Eu nasci lá numa tribo, mas eu sou registrada em Tucuruí. Uma cidade lá no sul do Pará”. A violência doméstica a fez sair de casa: “Com 9 anos. Eu fui criada trabalhando, morando na casa dos outros. Lá no Pará, eles têm um hábito de receber gente do interior. A gente chama de madrinha, padrinho. Na verdade, é um apadrinhamento de trabalho. A gente faz o serviço doméstico e tem um lugar para morar e estudar.” “Acho que no meu caminho foi que construíram aquela lei de trabalho infantil doméstico”, comenta. Daí por diante, seguiu no trecho: “Naquele tempo era normal na Transamazônica pedir carona, até para criança. Tinha horas que o Conselho Tutelar me pegava e eu chorava porque queria ficar nas casas trabalhando e não ir para um abrigo. Peguei esse senso de fuga e fui fugindo. Morei em muitas casas, andei em muitos lugares, centenas! Fugi de trem de Marabá, no Pará, e fui chegar no Maranhão. Conheci um moço da Organização Internacional do Trabalho em Imperatriz, no Maranhão. Um outro da Vara da Infância e Juventude, ficou meu amigo.” São Paulo ainda não estava no horizonte: “era lugar de trecheiro, a gente só passava. Passei algumas vezes. Minha adolescência toda foi na estrada.” A atração pela capital não demorou: “Já deve ter mais de vinte anos que estou em São Paulo.” Também a afinidade com a praça é antiga: “Nós passamos toda a pandemia aqui. Quando acabou, cercaram a praça, a gente alugou uma casa no Glicério. Depois voltamos para cá.” Paula chorou a primeira vez na rua quando encontrou um piolho na cabeça. “Se uma pessoa me contasse toda a rotina da rua, toda a falta de privacidade, toda a falta de descanso, eu não conseguiria mensurar”. Entre as pessoas que passam pelo seu dia a dia, cita “acadêmicos, gente solidaria, prostitutas.” “Sei falar com o policial, com o bandido, com a criança, com o cachorro! Conheci pessoas que ajudavam o cachorro, mas não me davam um prato de comida”. Paula se indigna com o feminicídio: “Em algum momento, o ser humano precisa compreender que ele nasceu de uma mulher, de uma mãe. Isso o impossibilita de bater em qualquer outra mulher!” Quando lhe pergunto: “E se o município oferecesse uma casa para você?”, o senso do coletivo aflora: “Só se for pra gente alugar um galpão no centro da cidade. Não vai ser nas franjas da sociedade! Se a gente tiver de se alinhar, nos alinharemos todos juntos como uma família humana na terra”. Pergunto quando deixará a praça: “Se eu tiver de ficar aqui eu ficarei até a pobreza ser um negócio de museu!”
- Uma história de superação e luta
As ruas nos revela o imponderável. O ano era 2015, durante as conferências distritais de assistência social de Maceió, quando uma criatura rara cruza meu caminho com um discurso cortante, quase um grito de socorro. Hoje, como Rafaelly, pleiteando sua condição de delegada na Conferência Municipal de Assistência Social. A partir desse momento nasceu o que hoje conhecemos como uma das maiores lideranças e expressão política do Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR). De delegada municipal a delegada da conferência nacional em Brasília, Rafaelly conhece ideranças do MNPR e recebe a tarefa de articulação e a criação do movimento em Alagoas. Sua trajetória impressiona pela superação das adversidades. Com um histórico de dependência química e sucessivas internações traumáticas em comunidades terapêuticas, prostituição e conflitos familiares. Aos 12 anos, era bailarina de um projeto social de uma grande escola de ballet da cidade, morava num bairro periférico de Maceió e teve contato com as drogas na escola. A dependência química a levou a romper vínculos familiares. Passou então a viver nas ruas por 14 anos, após ter vendido todos os bens da família para comprar drogas, fazendo uso de psicotrópicos e se prostituindo, até o momento que foi “resgatada” pelo Consultório na Rua e levada ao Centro de Apoio Psicossocial para dependentes de álcool e outras drogas (CAPs AD). Foi durante o processo de redução de danos que aflorou sua militância política. Esse interesse começou em 2014, ao participar de uma oficina do Ministério da Saúde e Ministério Público para falar sobre uma rede de cuidados para a PSR e teve a oportunidade de ouvir a fala de uma liderança do MNPR. A partir de então foi identificando o movimento como o “seu lugar” e buscou a redução de danos para superar o uso das drogas e potencializar o que considera um “dom” que é sua capacidade de falar, seu senso crítico. Na condição de articuladora regional pelo MNPR criou o Fórum de Usuários de Alagoas em 2016. Em 2018 se torna presidente do Conselho Estadual de Assistência Social de Alagoas, tendo participação ativa na defesa dos direitos sociais assistenciais da população e situação de rua tanto em Alagoas como em outros estados, o que levou a assumir uma cadeira no Conselho Nacional de Assistência Social de 2022 a 2026. Essa projeção nacional foi adquirida pela força de suas intervenções, chegando a participar de audiências com o presidente Luís Inácio Lula da Silva, com o vice presidente do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e receber várias honrarias do poder legislativo e judiciário. Atualmente, Rafaelly Machado é acadêmica de serviço social, coordenadora nacional do MNPR em Alagoas e uma das referências nas instâncias de controle social do país e na defesa dos direitos da PSR. Rafaelly traz a marca de uma guerreira insurgente e é um exemplo de como as políticas públicas são capazes de revelar a extraordinária potência humana. *Ana Lúcia Soares Tojal - assistente social, professora e pesquisadora alagoana, conhecida por sua forte atuação em políticas públicas, saúde pública e defesa dos direitos humanos. Rafaelly com a Ana Tojal
- Mulheres em Situação de Rua: para Além da Violência
“A mulher que mora na rua precisa escolher seu estuprador, seu agressor, que vai defendê-la de outros agressores e estupradores”. Segundo dados de junho de 2026 do Cadastro Único, há no Brasil 392.389 pessoas em situação de rua. Desse total, 61.933 são mulheres. Apesar de representar 16% da população em situação de rua, as mulheres são desproporcionalmente as maiores vítimas de violência. Enfrentam desafios diários e extremamente duros, que incluem a gestão da higiene menstrual, a maternidade nessas condições, o assédio sexual e a necessidade de criar redes de apoio para sobreviver à insegurança constante. Para a proteção física, muitas mulheres acabam se associando a parceiros ou grupos, o que pode aumentar a sua exposição a relacionamentos abusivos e exploração em troca de proteção. Um relatório de 2024 da Comissão Arns em parceria com os movimentos sociais, trouxe uma frase forte de uma mulher em situação de rua: “A mulher que mora na rua precisa escolher seu estuprador, seu agressor, que vai defendê-la de outros agressores e estupradores”. Em junho deste ano, foi publicado o estudo Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua, pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/Polos-UFMG). Em entrevista à Veja, o coordenador do Observatório disse que “As violências de maior gravidade acontecem com as mulheres.” Segundo o estudo, mulheres e pessoas trans em situação de rua apresentam risco significativamente maior de sofrerem agressões com consequências graves ou fatais. Em dezembro de 2023, foi lançado pelo Governo Federal o Plano Ruas Visíveis, que foi criado como resposta à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ADPF 976. O Plano prevê, dentre outras ações, a criação do Programa Mulheres Mil de educação profissional para mulheres; prioridade para mães e gestantes em programas de moradia; orientação para maternidades e hospitais da rede de atenção materno-infantil para atendimento das pessoas em situação de rua; criação de protocolo para proteção da população em situação de rua e enfrentamento à violência institucional; criação de Pontos de Apoio à Rua, com serviços diversos, como lavanderias, banheiros, distribuição de itens de higiene pessoal e outros serviços. Além disso, em dezembro de 2024, ocorreu um importante evento: o I Encontro Nacional de Mulheres em Situação de Rua e Suas Diversidades, organizado pela Comissão de Mulheres, Gênero e Raça do CIAMP RUA Nacional. O evento debateu temas como moradia, dignidade menstrual, maternidade, saúde, violência, racismo institucional e a inclusão das mulheres trans. Roseli Kraemer participante do Encontro da Rutras O relatório da Comissão Arns, citado no início, traz também diversas recomendações como, por exemplo, elaborar um plano de acesso à justiça para as mulheres vivendo em situação de rua e elaborar políticas e ações pelo Ministério da Saúde voltadas para a saúde integral à mulher e da populaçãoLGBTQIA+ vivendo em situação de rua. Por fim, a experiência do projeto "No Trecho das Mulheridades", da Associação Rede Rua, uma iniciativa de acolhimento e escuta focada nas mulheres em situação de rua. O projeto propõe abrir espaços de diálogo e reflexão, enfrentar a violência de gênero e as desigualdades diárias e construir coletivamente soluções para a realidade das mulheres na rua. Roseli Kraemer, que faz parte do grupo, afirmou: “o grupo tem uma importância muito grande na troca de saberes, desenvolvimento de projetos e criação de oportunidades de trabalho, renda, redução de danos, cultura, cuidado. O grupo está estruturando uma proposta de moradia compartilhada que envolve todos esses temas com foco na superação da situação de rua e da violência”. A experiência do projeto No Trecho das Mulheridades, demonstra que enfrentar a violência contra mulheres em situação de rua exige muito mais do que medidas de proteção: requer a construção de espaços permanentes de escuta, acolhimento e fortalecimento coletivo. O projeto consolidou um local seguro de partilha, onde as participantes puderam refletir sobre suas trajetórias, trocar saberes e construir estratégias para superar a violência e a exclusão. Essa experiência tem dimensão internacional por meio da articulação com mulheres do Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, fortalecendo uma rede latino-americana de apoio e incidência política. Entre os resultados desse processo está a construção coletiva de uma proposta de moradia compartilhada, voltada à superação da situação de rua e das diferentes formas de violência que atravessam a vida dessas mulheres. Proposta do I Encontro Nacional: Garantia de moradias dignas e definitivas para mulheres em situação de rua; Criação de um sistema de proteção para que possam exercer a maternidade sem o risco de perder a guarda de seus filhos; Criação de frentes de trabalho para garantir a autonomia financeira das mulheres em situação de rua; Equipamentos de acolhimento e cursos que trabalhem a autoestima dessas mulheres; Criação de oficinas de sexualidade e gênero; Formação específica para policiais e agentes públicos Ato das participantes do II encontro Latino Sul Americano (RUTRAS) e Mulheridades em São Paulo 2024.
- A cartografia invisível
10 anos de violência contra a população em situação de rua: algumas questões para reflexão e atuação em redes de direitos humanos O Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/POLOS-UFMG) publicou recentemente o estudo intitulado “A cartografia invisível: 10 anos de violência contra a população em situação de rua”, resultado de uma estratégia metodológica inovadora de integração e cruzamento de bases de dados nacionais, especialmente o Disque 100 e o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), do Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa representa um avanço significativo na produção de evidências sobre a violência dirigida à população em situação de rua no Brasil, ao articular registros administrativos distintos e evidenciar padrões sistemáticos de violações de direitos historicamente subnotificados e pouco visibilizados nas estatísticas oficiais. Os resultados indicam que a violência contra essa população não se caracteriza por eventos isolados, mas por um fenômeno estrutural, contínuo e associado ao racismo estrutural, às desigualdades sociais, à precarização das políticas de proteção social e às formas de organização excludente dos espaços urbanos. O estudo evidencia ainda um quadro de subnotificação crônica, indicando que uma parcela expressiva das vítimas não acessa os serviços de saúde ou de denúncia após sofrer agressões, em função do medo, da desconfiança institucional, de experiências reiteradas de discriminação e das barreiras de acesso às políticas públicas. Esse cenário reforça a compreensão de que os registros oficiais expressam apenas uma fração do fenômeno real, configurando um “efeito de visibilidade parcial” das violências. Outro achado relevante refere-se à recorrência das situações de violência ao longo das trajetórias de vida das vítimas, frequentemente marcadas por ciclos de exposição contínua a riscos, ausência de proteção efetiva e insuficiência das redes intersetoriais de acolhimento e proteção. A pesquisa também aponta para a persistência de lacunas estruturais nas políticas públicas de habitação, trabalho, renda, educação e assistência social, elementos centrais para a reprodução das condições de vulnerabilização social. Em termos demográficos, observa-se predominância de homens (65%), a porcentagem de mulheres tem pessoas negras (78%) e indivíduos entre 15 e 49 anos (82%), o que evidencia a sobreposição entre racismo estrutural, juventude e pobreza urbana na produção das desigualdades. No que se refere às formas de violência, os dados do SINAN indicam predominância da violência física (65%), seguida por violência psicológica (42%), negligência e abandono (18%), violência sexual (15%) e violência autoprovocada (10%). Já os registros do Disque 100 destacam a centralidade da negligência (45%) e da violência psicológica e institucional (30%), evidenciando a relevância das omissões estatais, do tratamento discriminatório e das violações de direitos básicos. Esses resultados revelam a simultaneidade e a interseção das diferentes formas de violência, que tendem a ocorrer de maneira combinada e reiterada. A análise territorial demonstra que a maior parte das ocorrências se concentra em vias públicas (cerca de 70%), evidenciando a rua como espaço de elevada exposição à violência. Contudo, também são registrados casos em instituições de acolhimento, o que indica falhas nos mecanismos de proteção e fiscalização. Em termos regionais, Sul e Sudeste concentram os maiores números absolutos de notificações, com destaque para São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro, além de um processo de interiorização da violência em municípios de médio porte. Nas demais regiões, destaca-se a forte subnotificação, ainda que alguns municípios já apresentem crescimento expressivo dos registros. Quanto à autoria das violências, predominam agressores desconhecidos, o que sugere a presença de dinâmicas associadas ao Racismo e à Aporofobia, conceito desenvolvido por Adela Cortina para descrever a aversão social à pobreza. Também se destacam conflitos entre conhecidos e a atuação de agentes estatais em ações de controle e ordenamento urbano, ainda que em menor proporção, além de episódios envolvendo parceiros íntimos, especialmente em casos de violência contra mulhres. Por fim, o estudo indica tendência de crescimento das notificações ao longo da última década, com aumento expressivo entre 2020 e 2023, e alerta para o agravamento das condições estruturais que sustentam esse quadro. Aproximadamente 12% dos casos evoluem para lesões graves ou óbito, evidenciando a severidade do fenômeno. Diante desse cenário, o estudo aponta que o enfrentamento da violência exige a superação de abordagens exclusivamente repressivas e a implementação de políticas públicas estruturantes e integradas, com centralidade na garantia de direitos, especialmente moradia, trabalho, educação e proteção social, além do fortalecimento de sistemas de monitoramento e prevenção intersetorial. André Luiz Freitas Dias - Professor e pesquisador-extensionista da Universidade Federal de Minas Gerais; Membro da Coordenação do Programa Polos de Cidadania e do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/POLOS-UFMG); Membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Direito da UFMG; Diretor da Diretoria de Divulgação Científica da Pró-Reitoria de Extensão da UFMG. Dados e estudos do OBPopRua/POLOS-UFMG: https://polos.direito.ufmg.br/bem-vindo-ao-obpoprua/ Memorial para denunciar o assassinato de Jerfeson de Souza no dia 13 de junho de 2025. Até o momento a família continua aguardando o Translado.
- Quadro de dados do jornal O Trecheiro
"Diversidade temática das matéria foi crescendo!" Por Por José Vicente Kaspreski e Marina Torres Em comemoração aos 35 anos do jornal O Trecheiro, separamos algumas curiosidades sobre o jornal. Ao longo de sua trajetória, 314 edições já foram publicadas, das quais são 11 são especiais: Quanto aos temas publicados, manifestações e ações políticas são os mais recorrentes, o que está relacionado ao próprio propósito do Jornal O Trecheiro: informar o povo da rua de modo engajado na luta por direitos e políticas públicas. Entrevistas e Vidas no Trecho também são matérias presentes na maioria das edições, preservando a memória coletiva da população em situação de rua. Ao todo, mais de 120 Vidas no Trecho já foram publicados (65% homens no trecho e 35% mulheres). No entanto, se somar mos todas as entrevistas e relatos já publicados, esse número passa dos 800. Nesse sentido, cada edição trata dos mais diversos assuntos:
- Moradia, Renda e o Fim da Violência
“Hoje, normalizamos vendo a pop rua sendo expulsa, massacrada e morta na noite porque não é só no dia, mas é a noite quando se apagam as luzes.” Roseli Kraemer Por Alderon Costa e José Vicente Kaspreski “Rua não é casa!” foi o grito que ecoou pelo auditório externo da Câmara dos Vereadores de São Paulo no último dia 09 de junho. “A política pública sobre habitação não existe. Não adianta ter emprego se não temos moradia,” destacou Edvaldo Gonçalves (MNLDPSR). Tratava-se de uma audiência pública organizada pelo Grupo de Trabalho de População em Situação de Rua da Comissão Extraordinária de Direitos Humanos, que contou com a presença de dezenas de pessoas em situação de calçada, acolhidas, dos movimentos sociais e pesquisadores. O evento foi organizado pela Vereadora Luna Zarattini, presidente da comissão, mas Luana Alves, Amanda Paschoal e Nabil Bonduki também estiveram presentes, além do Deputado Estadual Eduardo Suplicy. O Núcleo de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, assim como a Defensoria Pública do Estado e as Secretarias Municipais de Habitação, Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) e Desenvolvimento Econômico e Trabalho (SMDET) enviaram representantes. Ainda assim, o protagonismo foi da rua, que pôde fazer amplo uso da fala para reivindicar por programas de moradia (como a locação social) e de trabalho (além do POT) e pelo fim da violência. “Não aceitaremos também nenhum tipo de violência a população em situação de rua. Retirada de pertences, retirada de barracas, violência em relação à população por meio da GCM e das forças policiais, declarou a vereadora Luna Zarattini. Após a audiência pública, os presentes caminharam até a Prefeitura, onde um almoço coletivo foi servido e as reivindicações continuaram em um momento de falas abertas. Uma comissão, encabeçada pela vereadora Zarattini, foi recebida pelos servidores do Governo e protocolou a carta manifesto com diversas demandas construídas coletivamente, incluindo a interrupção de fechamento dos serviços até que se tenha um plano geral para possibilitar a inclusão das pessoas em políticas de moradia fixa; e a implementação da cota mínima de 2% prevista no Decreto Municipal nº 62.149/2023, que determina a contratação de pessoas em situação de rua em contratos realizados pela administração municipal. Além disso, foi protocolada uma ação civil pública com o pedido de desapropriação de imóveis ociosos para a implementação de programas de locação social; e a prefeitura se comprometeu a fazer uma reunião Inter secretarial com os vereadores/as, movimentos e organizações.
- Editorial: Só tecnologia não aquece o frio
Nos meses de junho, julho e agosto, São Paulo enfrenta temperaturas que chegam a 4ºC em algumas regiões. No centro, onde se concentra a maior população em situação de rua, o frio intenso provoca sofrimento e até mortes por hipotermia. Para quem vive sem um teto, cada noite gelada é marcada por dor e risco de morte. O que ameniza esse cenário são os grupos solidários que distribuem cobertores, roupas e comida quente. Já o poder público, ano após ano, mostra descuido e improviso. A chamada Operação Baixas Temperaturas (OBT), embora emergencialmente necessária, é insuficiente: poucas tendas, estrutura precária e distribuição desorganizada, que expõe ainda mais a falta de dignidade no atendimento. A recente Portaria nº 068/SMADS/2026 criou a Central de Vagas OBT, prometendo tecnologia e inteligência de dados para melhorar a política de assistência. Na prática, porém, as vagas são escassas, os serviços não garantem respeito mínimo e os fluxos previstos não funcionam. Apesar da aparente organização e uso de tecnologias, a realidade tem se mostrado bem diferente. As vagas oferecidas são muito poucas frente a crescente demanda, a qualidade dos serviços oferecidos não oferece dignidade e mínimo de respeito pelo ser humano, os fluxos não funcionam como previsto na portaria, a criação de um voucher e a comunicação dos check in e check out (utilizados na rede hoteleira), não tem mostrado praticidades frente às emergências, a limitação dos atendimentos espontâneos vem gerando aglomerações nas portas dos serviços que são impedidos de atender. "As vagas não são do serviço e nem do CREAS, são nossas, do gabinete", conforme relato na reunião extraordinária do Comitê Pop Rua, no último dia 10/06. Tecnologia pode apoiar a gestão, mas não substitui o essencial: acolhimento digno, planejamento antecipado e respeito humano. Enquanto isso não acontece, a cidade segue repetindo o ciclo de improviso e sofrimento, deixando claro que só tecnologia não aquece o frio.
- ADPF 976: do papel para a vida real
A ADPF 976 é hoje o principal processo no Supremo Tribunal Federal que trata do desafio das pessoas que estão em situação de rua no Brasil — e não como um caso isolado, mas como um problema estrutural, que envolve violações contínuas de direitos fundamentais. Em 2023, o STF reconheceu essa realidade e determinou que União, estados e municípios implementem de forma obrigatória a Política Nacional para a População em Situação de Rua, com medidas concretas de proteção, prevenção e saída das ruas. O que está em jogo aqui é simples de dizer, mas difícil de fazer: transformar uma decisão judicial em mudança real na vida das pessoas. Quase três anos depois dessa decisão intermediária, o que vivenciamos é o agravamento da vida nas ruas com uma política ainda mais higienista e violenta por parte das gestões municipais e estaduais. Comitê Nacional PopRuaJud Nesse cenário, o Comitê Nacional PopRuaJud cumpre um papel central. Criado no âmbito do Conselho Nacional de Justiça, o Comitê reúne Judiciário, Defensoria, Ministério Público, academia e movimentos sociais. É um espaço de articulação nacional, que chega na ponta, nos territórios, por meio dos comitês locais e da Rede PopRuaJud — e que leva para o processo do STF aquilo que muitas vezes não aparece nos autos: a realidade concreta da rua. Em razão das constantes denúncias recebidas neste Comitê, foi solicitada uma reunião com o Ministro Alexandre de Moraes, relator e responsável pelo acompanhamento do processo para compartilhar a realidade e informar que a liminar não vem sendo cumprida pelos governos locais. Na reunião com o Ministro Alexandre de Moraes, o recado foi direto: não basta ter decisão — é preciso garantir que ela seja cumprida. Por isso, o Comitê se colocou à disposição para acompanhar o processo e fez alguns pedidos de encaminhamentos concretos. Primeiro, que o Supremo continue acompanhando o caso de perto, sem encerrar o processo, porque estamos diante de um problema estrutural. Segundo a criação de um espaço permanente de monitoramento, com participação das instituições e da sociedade, para acompanhar quem está fazendo e quem não está fazendo. Terceiro, que estados e municípios apresentem planos reais, com metas, prazos e responsabilidade — e não apenas declarações genéricas. No eixo “prevenção da entrada na situação de rua”, foi solicitado a inclusão da população em situação de rua no censo do IBGE; o acesso ao CadÚnico e ao BPC independentemente de endereço fixo; a suspensão dos despejos sem alternativa habitacional prévia; o mapeamento das pessoas que deixam as prisões, hospitais psiquiátricos e comunidades terapêuticas para inserir essas pessoas no sistema de proteção social; a regulamentação de lei que veda a arquitetura hostil; uma política estrutural de habitação acessível para a população em situação de rua. No eixo “garantia de direitos de quem já está na rua”, a criação de um protocolo nacional de zeladoria urbana; a remoção de arquitetura hostil; a criação de um canal direto de denúncias; a fiscalização das comunidades terapêuticas conveniadas; a realização de mutirões periódicos de documentação e acesso a direitos; e a criação de um sistema nacional de monitoramento de violações. No eixo “portas de saída das ruas” foram pedidos a regularização documental bancária como porta de entrada; plano individual de saída para pessoas que deixam as prisões, comunidades terapêuticas ou hospitais psiquiátricos; regulamentação e expansão do aluguel e locação social; expansão nacional do programa moradia primeiro; implementação dos centros de apoio ao trabalhador em situação de rua. Também foi solicitado que sejam realizadas audiências periódicas, para que o STF possa ouvir diretamente o que está acontecendo nos territórios. Por fim, foi destacada a necessidade de revisar o Plano Ruas Visíveis, que hoje ainda é insuficiente diante da dimensão do problema.











