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- Sem moradia, sem direitos
Ato do Dia de Luta na Praça da Sé reivindica moradia, dignidade e denuncia tortura à população de rua Fotos: Alderon Costa Vinte e dois anos depois dos assassinatos na Praça da Sé, a pop rua continua a ocupar o espaço para exigir moradia, denunciar tortura e cobrar a colocação do marco do “massacre da Sé”. No Dia Latinoamericano de Luta da População em Situação de Rua, o ato "Parem de nos sufocar. E se fosse você? Dignidade e Moradia, já!" reuniu pessoas em situação de rua, religiosos, defensores públicos e ativistas em frente à Prefeitura de São Paulo. Dali, o grupo caminhou até a Praça da Sé, relembrando as sete pessoas em situação de rua assassinadas no local em agosto de 2004. O ato terminou com uma celebração ecumênica, reunindo a Mãe de Santo, Vanessa M. Labigalini, o Pastor Rick, o Frei Wagner, a Irmã Michael e o Padre Arlindo, presidente da Rede Rua, seguida de um grande abraço em torno do Marco Zero da cidade. Ali havia um outro marco em memória das vítimas, roubado no início de 2021, e nunca reposto pelo poder público. "A Secretaria de Direitos Humanos se cala. A gente quer o marco em respeito à população em situação de rua aqui na Praça da Sé", cobravam os manifestantes, lembrando o nome de cada uma das vítimas da violência urbana, do descaso e até do frio. "Este é o 36º Dia de Luta em que a Rede Rua está presente, e o nosso objetivo é fazer um grito para a cidade ouvir: políticas públicas que garantam moradia, trabalho e dignidade", disse Padre Arlindo. Para ele, a Prefeitura tem respondido com repressão, não com acolhimento, "até agora a política da prefeitura tem sido tomar as coisas das pessoas na rua, o que eu entendo como uma violação do direito à propriedade". Entre os presentes, Isaque Cimenato, 23 anos, mineiro, há quatro meses em situação de rua em São Paulo, resume a esperança e a cobrança: "aqui eu me sinto em casa, sinto que se a gente se esforçar tem oportunidade, só que a gente precisa do suporte do governo para começar". Já Monaliza, cabeleireira, veio de Foz do Iguaçu e hoje depende de uma vaga em um centro de acolhimento no Brás: "você não consegue trabalho se você não tem moradia. A gente precisa de trabalho, porém precisa de moradia também". Frei Wagner , Mãe Vanessa M. Labigalini, o Pastor Rico, Padre Arlindo e Irmã Michael no ato ecumênico. A falta de política habitacional foi o principal ponto cobrado por Júlia Lima, do Fórum da Cidade de São Paulo, que atua na defesa da população em situação de rua: "o último empreendimento d a cidade foi o Asdrúbal do Nascimento II, inaugurado em 2019. Depois disso, nada mais". Segundo ela, a cota federal de 3% para pessoas em situação de rua no Minha Casa, Minha Vida sequer foi adotada pela Prefeitura de São Paulo. O defensor público Victor Barros, do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública, confirmou que a instituição move ação civil pública contra o fechamento de hotéis sociais e equipamentos de acolhimento, com liminar concedida — em linha com decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, sobre a população de rua. A Campanha Estadual Permanente Contra a Tortura, que reúne a Ouvidoria de Polícia, o CONDEPE, o SOS Racismo, a OAB, o NEV/USP e a Defensoria, esteve no ato para divulgar o novo formulário de denúnicas. O Ouvidor das Polícias do Estado, Mauro Caseri, reforçou que remover pessoas à força e confiscar seus pertences "caracteriza tortura" e defendeu o direito de permanência: "a rua é nossa, não pertence a uma única classe social". A pesquisadora de pós-doutorado do Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP), que coordena a campanha, reforçou que a tortura "acontece sim no estado de São Paulo" e que a Campanha vai até os centros de acolhida e as ruas para recolher denúncias que hoje ficam silênciadas e cobrar medidas eficazes que acabem com a dor imposta aos trecheiros. Quem presenciou ou sofreu violência pode denunciar pelo site:
- Portas fechadas, direitos trancados
Alderon Costa Dezenove de agosto de 2026, por volta de 500 pessoas participaram do ato do Dia de Luta da População em Situação de Rua. Ato pensado e executado em conjunto com muitas pessoas com trajetória de rua e muitos ainda em situação de calçada. Nunca se viu uma situação tão caótica na política pública para as pessoas em situação de rua. A violência das forças de segurança que além das tradicionais violações, como as abordagens preconceituosas, agora são responsáveis por expulsar as pessoas das praças e outros espaços do centro. A atual gestão vem fechando espaços e dificultando a vida de quem precisa de um lugar para ser acolhido com dignidade. A falta de vagas, a piora nos equipamentos de acolhimento, a falta de investimento em serviços de moradia autônoma e de longo prazo e o aumento da violência são as marcas do atual prefeito, Ricardo Nunes. A população em situação de rua vem aumentando a cada dia e com os fechamentos o aumento das pessoas na frente de residências, praças e, principalmente, nas proximidades dos poucos serviços que vêm atendendo essa população conta com o ódio da população vizinha. Uma verdadeira guerra contra as pessoas que já estão em extrema vulnerabilidade social. E o que vemos é totalmente ao contrário do que deveria existie. Portas são fechadas com guardas na frente para que não haja a mínima possibilidade de entrada. No ato do dia 19 de agosto, a manifestação parou em frente à secretaria de direitos humanos e cidadania para cobrar a recolocação do marco do “massacre da Sé”. Ao chegar, a manifestação foi surpreendida com as portas fechadas e com guardas na frente. A Secretaria foi sempre um referencial de respeito e acolhida às pessoas em situação de rua. Para quem vive em situação de rua, portas fechadas não são novidade. Mas a Secretaria de Direitos Humanos não pode se dar ao luxo de fechar suas portas. Direitos humanos não se defendem atrás de portas fechadas. Defendem-se nas ruas, nos territórios, nos serviços públicos, nas reuniões, nas escutas e, sobretudo, na disposição de reconhecer o outro como sujeito de direitos. Afinal, como proteger Direitos trancando quem precisa de proteção para fora, sem ouvi-los? A população em situação de rua não precisa de portas fechadas. Precisa de moradia, trabalho, saúde, alimentação, documentação, cultura, educação e segurança. Precisa de políticas públicas articuladas e permanentes.
- Superação e luta por dignidade
“É preciso ter um lugar onde possa dormir, acordar e ter privacidade.” Fotos: Alderon Costa Por Alderon Costa e Júlia Lima As pessoas aparecem e oferecem suas histórias como contribuição para fortalecer a luta de outras. Foi assim com Natalício Batista Lins, conhecido como Natal, que apareceu, no dia 26 de julho de 2026, na reunião de preparação para o “Dia de Luta”. Chegou como se estivesse caindo de paraquedas, diretamente da Paraíba. Participou da reunião e deixou sua contribuição para o lema do ato: “E se fosse você?”. Natalício sugeriu que fosse feita uma filmagem mostrando uma pessoa arrumando seu cantinho, preparando seu papelão para dormir e, em seguida, “morrendo de hipotermia”. Ele resume assim sua proposta: “Diante de uma pessoa que acabou de morrer de hipotermia, que estava vivendo na rua, o que você gostaria que fizessem com você se estivesse no lugar dela? Isso precisaria ser mostrado às autoridades e perguntar: e se fosse você?” Ao término da reunião, o convidamos para fazer um “Vida no Trecho”, para registrar a história desse trecheiro que viveu em São Paulo e que agora superou a situação de rua e vive em João Pessoa, na Paraíba. Sua história “Bem, eu nasci em 11 de janeiro de 1966, no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Duque de Caxias. Aos quatro anos de idade, meus pais, que eram pernambucanos, retornaram para a cidade de origem, Recife, capital de Pernambuco. Foi lá que eu cresci, no Nordeste.” Seu pai, João Batista Lins, e sua mãe, Maria Vicentina de Sequeira Lins, tiveram 11 filhos. Natal lembrou, com tristeza, a morte de um dos irmãos, há cerca de dez anos. Recordou também o apoio que recebeu do deputado Eduardo Suplicy, então secretário de Direitos Humanos e Cidadania, que o levou ao velório em seu próprio carro. “Aos 17 anos, resolvi conhecer o nosso país, o Brasil. Fui um homem andarilho e viajei por muitas capitais. Acabei chegando a São Paulo, onde fiquei, entre idas e vindas, por cerca de 13 anos. Trabalhei durante muito tempo, mas sempre em uma situação difícil. Até que chegou uma época em que deixei o trabalho de lado e comecei a beber. Durante aproximadamente 55 anos, convivi com a bebida. Tornei-me alcoólatra e permaneci durante muitos anos em situação de rua em São Paulo. Morei nas calçadas e vivi assim por muito tempo, até chegar a um ponto em que me cansei daquela situação. Viajei novamente, dessa vez para o estado da Paraíba, onde estou há mais de dois anos. Cheguei a João Pessoa ainda bebendo muito. Mas fui acolhido pela Paraíba de braços abertos. Tive a oportunidade de conhecer o Centro Pop, que atende e ajuda as pessoas em situação de rua, e o Consultório na Rua, o que foi muito importante para mim. Fiquei em uma casa de acolhimento durante um ano e dois meses, fazendo tratamento para superar a dependência do álcool. Consegui vencer essa situação e deixar totalmente o uso da bebida. Hoje estou muito bem em João Pessoa. Tive a oportunidade de fazer um curso de produção de velas aromáticas. É um trabalho de que gostei muito e com o qual me identifiquei. Hoje moro de aluguel e fabrico minhas próprias velas aromáticas. É o meu artesanato. Com as vendas, consigo arcar com minhas despesas. Hoje eu não bebo mais. Sou uma presença viva diante daquelas pessoas que realmente querem sair das drogas e do álcool. Já não bebo há mais de dois anos.” Viver na calçada e na rua “Desde o princípio, a maior dificuldade é dormir na rua. Eu me alojava na rua. Na rua eu me deitava. Na rua eu acordava. Na rua eu bebia. Na rua eu permanecia. Anoitecia, amanhecia, entardecia, anoitecia novamente, e eu estava sempre na rua.” Moradia “É o primeiro passo para que uma pessoa em situação de rua possa se levantar. É preciso ter um lugar onde possa dormir, acordar e ter privacidade.” O sonho “Meu sonho é que essas pessoas que estão nas ruas, que estão passando fome, possam ter realmente um lugar para ficar. Possam ter dignidade.” Recados 1. “Saiam enquanto é tempo. Ainda há tempo. Hoje consigo ser, perante a sociedade, novamente o Natalício que eu era quando nasci.” 2. “Não baixem a cabeça. Nós precisamos de uma luta, e a luta é justamente essa: o encontro, a organização e a união para buscar e cobrar das autoridades tudo aquilo de que precisamos. E o que precisamos, acima de tudo, é da nossa dignidade.” Natalício com os participantes da preparação do 32º Dia de Luta da População em Situação de Rua
- Reafirmar direitos da População em Situação de Rua
No Rio de Janeiro, teve formação, mobilização popular, ato público, celebração e iluminação do Cristo Redentor. Fotos: Claudio Santos O Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua foi marcado, no Rio de Janeiro, por uma programação de formação, mobilização social, memória e defesa de direitos. Realizadas nos dias 18 e 19 de agosto, as atividades reafirmaram o protagonismo das pessoas em situação de rua e a necessidade de políticas públicas efetivas e permanentes. No dia 18, no Ponto de Apoio, na Catedral Metropolitana aconteceu uma roda de conversa que abordou a formação popular e a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População em Situação de Rua, com a participação do Projeto Trilhas de Cuidado, da Fundação Oswaldo Cruz. No dia 19, um painel discutiu a organização dos movimentos nacionais de luta e defesa dos direitos dessa população. Em seguida, pessoas em situação de rua, representantes de movimentos sociais e integrantes de 26 organizações participaram de uma mobilização na Cinelândia. O ato incluiu um momento de memória, a leitura coletiva de um manifesto e a apresentação de reivindicações relacionadas à moradia, saúde, assistência social, segurança alimentar, trabalho, geração de renda e enfrentamento às diferentes formas de violência e violação de direitos. Entre as entidades organizadoras estavam o Fórum Permanente de Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua, a Casa Franciscana e a Pastoral do Povo da Rua. Com uma celebração eucarística no Santuário Arquidiocesano Cristo Redentor, presidida pelo Monsenhor Manuel de Oliveira Manangão, vigário episcopal para a Caridade Social encerrou a programação. Contamos ainda com o Coral Canto da Rua, formado por pessoas acompanhadas pela Pastoral do Povo da Rua e pela Rede Dom Helder Câmara. Para Luiz Felipe da Silva, participante do Fórum e convivente dos serviços da Casa Franciscana do Rio de Janeiro é importante a luta por dignidade e contra a invisibilidade da sociedade e pelo próprio Poder Público. "Precisamos deixar de ser apenas um número na estatística e ter nossa dignidade e direitos respeitados", afirmou Felipe. Ao final, o Cristo Redentor foi iluminado em vermelho, em memória das vítimas do “massacre da Sé”, representando a memória, resistência, solidariedade e compromisso com a dignidade humana. Claudio Santos é integrante do Fórum Permanente em Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua do Rio de Janeiro
- “Escrevendo juntos"
O Trecheiro celebra 35 anos com Seminário e anúncio do livro. Fotos: Tatiane Lui O jornal O Trecheiro completou 35 anos. A data foi celebrada com um seminário no dia 20 de agosto, no Auditório da Pinacoteca de São Paulo, em frente à Estação da Luz. Fundadores, jornalistas e pesquisadores contaram histórias do jornal. O Trecheiro nasceu em 1991, na gestão da prefeita Luiza Erundina com o apoio da Editora Paulus Social. Padre Arlindo, co-fundador da Associação Rede Rua e do jornal, explicou por que ele existe: "O Trecheiro nasceu com a proposta simples e radical de que a população em situação de rua tem o que dizer e sabe dizer melhor do que ninguém sobre si mesma". O Padre participou da mesa de abertura com mediação de Joana Barros, do Centro de Memória Urbana — CMUrb, da Unifesp; e Andreza do Carmo, coordenadora geral da Rede Rua. A assistente social, Cleisa Rosa, que foi revisora do jornal por muitos anos, disse que as universidades precisam conhecer o trabalho desenvolvido em O Trecheiro como ferramenta didática para seus alunos. "Se as faculdades de jornalismo descobrissem o material vivo que existe no Trecheiro, veriam que é um jornal único", declarou, listando tarefas para o futuro do jornal no mundo digital. O seminário teve dois momentos de participação ativa da plateia. No primeiro, "Escrevendo Juntos", o público leu trechos da coluna Vida no Trecho e depois escreveu, ali mesmo, um pedaço da própria história e sua relação com a rua. No segundo momento, "Vida no Trecho", o jornalista Alderon Costa entrevistou Roseli Kraemer na frente da plateia que também pôde fazer suas perguntas. Foi uma verdadeira aula ao vivo para todos que querem publicar seus trabalhos no jornal. Na mesa de encerramento, "Jornalistas do Trecho", quem atua no jornal contou como é fazer esse trabalho. O fotógrafo Sorriso, e as colaboradoras Júlia Lima e Luciana Ribas dividiram a mesa mediada por José Vicente, outro voluntário do jornal. Luciana Ribas destacou o que ouviu de Samuel Rodrigues em uma de suas entrevistas para o aniversário do jornal: "O Trecheiro era o travesseiro dele. É o papel físico mesmo, que às vezes é tudo o que a pessoa na rua tem". Um ponto forte de O Trecheiro é que ele é feito por quem vive ou já viveu na rua. Luciney Martins, o Sorriso, que se apaixonou pela arte de fotografar a partir da sua experiência no jornal contou como se tornou fotógrafo profissional e saiu da rua. "Enquanto puder colaborar com O Trecheiro e a Rede Rua, sempre vou estar presente. É uma forma de devolver o que a Rede Rua me deu", explicou. Para fechar o seminário com alegria, foi anunciado o pré-lançamento do livro Vida no Trecho, com os textos publicados ao longo dos 35 anos na coluna que tem esse nome e existe desde o lançamento do jornal. O livro deve ficar à disposição a partir de novembro. ASSISTA AO SEMINÁRIO DOS 35 ANOS:
- O cuidado exige criatividade.
A equipe foi desafiada a encontrar outra abordagem, o que originou a ideia da cartilha ilustrada com animações Equipe comemora a indicação da cidadedo Rio de Janeiro para sediar o 10º Congresso do Consultório da Rua - Fotos: Alderon Costa No 9º Congresso do Consultório na Rua, realizado em Foz do Iguaçu entre os dias 10 e 12 de agosto, foram apresentados vários trabalhos dos Consultórios na Rua das regiões presentes no Congresso. De São Paulo, a organização Bom Par levou o trabalho relacionado ao cuidado com a sífilis. Nielson de Quadros Paulino foi um dos responsáveis pelo projeto. Com longa convivência com a realidade da rua desde os tempos de formação em Manaus, Nielson conta: “Minha trajetória com as pessoas em situação de rua começou há 17 anos, ainda em Manaus, no Amazonas, onde fui impactado por uma realidade que só via na televisão.” Na UFAM (Universidade Federal do Amazonas), Nielson já realizava um trabalho junto às pessoas que faziam uso de substâncias. Depois, seguiu para o Rio de Janeiro, onde atuou em um projeto voltado para crianças e adolescentes. Após dois anos, mudou-se para São Paulo, onde começou a estudar enfermagem, formando-se posteriormente como técnico de enfermagem. Nesse período, conheceu o Consultório na Rua, onde passou a trabalhar com pessoas em situação de rua no cuidado à saúde. “Terminei o curso técnico de enfermagem. Atuo como auxiliar na área. Estou no quarto semestre da Faculdade de Enfermagem,” conta Quadros. Os desafios no trabalho do Consultório na Rua exigem que os profissionais se esforcem, usem a criatividade e tenham muita paciência no cuidado com as pessoas. “Precisamos dar conta de um serviço que muitas vezes requer um computador disponível, uma impressora, coisas do dia a dia do trabalho. E não temos esses recursos no local onde atuamos, na calçada. Assim, vamos nos adaptando.” Foi a partir dessa necessidade que surgiu a ideia de criar uma cartilha de orientação e incentivo à prevenção e tratamento da sífilis. “Todos os meses realizamos ações de testagem rápida para identificar algumas infecções, entre elas a sífilis. E a sífilis é uma infecção comum no público que atendemos,” explica ele. Segundo Nielson, a sífilis é um desafio para todos os serviços de saúde, pois os pacientes geralmente se submetem a um tratamento dolorido, com penicilina, durante um período de três semanas. Em um caso acompanhado, a testagem rápida feita durante o pré-natal diagnosticou sífilis no casal. “A mãe iniciou o tratamento no mesmo dia, mas o pai apresentou uma fobia severa à medicação e não conseguia nem ver a agulha.” Nesse caso, a equipe foi desafiada a encontrar outra abordagem, o que originou a ideia da cartilha ilustrada com animações, explicando o que é a sífilis e seu tratamento. O material foi lido para a família da mesma forma que se lê histórias para crianças, sensibilizando o pai. “No final da leitura, ele se comprometeu a começar o tratamento naquele mesmo dia, porque entendeu a necessidade e os riscos que estavam correndo.” Ele iniciou e concluiu o tratamento. Uma semana antes do Congresso, chegou a boa notícia: a criança nasceu saudável e sem contaminação, e a equipe comemorou o sucesso da nova abordagem. Por fim, um lembrete: essa cartilha é destinada para que os profissionais leiam para os pacientes, não sendo distribuída como material impresso.
- Nasce o Redu
O mascote da Rede Nacional de Consultórios na Rua Fotos: Alderon Costa De repente, vi um boneco gigante sendo festejado, abraçado e cercado por muitas pessoas querendo tirar fotos. Quem era aquele boneco? Genivaldo Francisco, conhecido como Geni, de Recife (PE), redutor de danos, nos apresenta o mascote da Rede Nacional de Consultórios na Rua e de Rua do Brasil. “Neste 9º Congresso, trouxemos o REDU, que é o nosso mascote. Na verdade, ele já tinha sido pensado no ano passado, no 8º encontro, que aconteceu em Pernambuco, mas só agora conseguimos trazê-lo.” O mascote foi feito na Fábrica Fazendo Arte, em Recife (PE), que atua no trabalho de redução de danos. A pessoa escolhida para inspirar a criação do mascote foi Daniel de Souza, que já atua há muitos anos como redutor de danos. “Daniel é uma referência para a gente. E ele tinha que ser um homem preto, que representasse a cara desse Brasil, a diversidade. Assim, Daniel foi uma inspiração”, resume Geni. Essa inspiração foi acolhida pela Fiocruz, pelo Ministério da Saúde e pela Rede Nacional de Consultórios na Rua. Por fim, o recado de Foz do Iguaçu, levado pelo Redu: respeito, cuidado, atenção, fraternidade, solidariedade e rua.
- 19 DE AGOSTO
“Sem memória, há o risco de que as vítimas sejam reduzidas a números ou esquecidas pela história.” Fotos: Alderon Costa / Rede Rua Por Luciana Marin Ribas e Marina Torres Desde o ano passado, o dia 19 de agosto ganhou um significado ainda mais profundo para os movimentos sociais, entidades de defesa dos direitos humanos e para a própria população em situação de rua. A data foi oficialmente instituída como o Dia da Luta da População em Situação de Rua, por meio da Lei nº 15.187, de 4 de agosto de 2025, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A escolha não foi casual: 19 de agosto é o marco da lembrança do Massacre da Sé, um dos episódios mais violentos e emblemáticos da história recente brasileira envolvendo pessoas que viviam nas ruas. Passados mais de vinte anos, a memória do “Massacre da Sé” continua sendo um chamado à justiça e à reflexão sobre a permanência das violências sofridas pela população em situação de rua. Relembrar essa história não significa apenas homenagear as vítimas, mas denunciar a continuidade de processos de exclusão, criminalização e invisibilização que ainda marcam a vida de milhares de pessoas no país. Na madrugada de 18 para 19 de agosto de 2004, pessoas que dormiam nas ruas da região central de São Paulo foram atacadas de forma brutal enquanto descansavam. Os agressores utilizaram objetos contundentes para golpear as vítimas na cabeça, sem qualquer chance de defesa. Entre os mortos estavam José Manuel da Cruz, conhecido como Qua-quá, e Ivanildo Amaro da Silva, a Pantera, figura respeitada na região central e conhecida como “Mãe da Rua” por sua atuação solidária junto a outras pessoas em situação de rua. Nos dias seguintes, os ataques continuaram deixando mortos e feridos e espalhando medo por toda a cidade. Memorial para denunciar o assassinato de Jerfeson de Souza no dia 13 de junho de 2025. Até o momento a família continua aguardando o Translado O crime chocou o país e gerou promessas de uma solução rápida. Entretanto, as investigações foram marcadas por controvérsias, falhas processuais e impasses judiciais. Apesar da mobilização de organizações sociais e defensoras dos direitos humanos, o caso tornou-se símbolo da impunidade. Para os movimentos da população em situação de rua, o Massacre da Sé permanece como uma ferida aberta na democracia brasileira. No entanto, o Massacre da Sé não pode ser compreendido como um episódio isolado, pois ele integra uma longa trajetória de violência contra pessoas empobrecidas, negras, migrantes e excluídas socialmente. O massacre se conecta historicamente a outras chacinas e assassinatos ocorridos em diferentes regiões do país, evidenciando padrões recorrentes de desumanização e negligência institucional. Para quem acompanha a trajetória do Movimento nacional da população em situação de rua, a memória do “Massacre da Sé” é parte fundamental da construção de políticas públicas e da defesa da dignidade humana. Sem memória, há o risco de que as vítimas sejam reduzidas a números ou esquecidas pela história. Com memória, seus nomes e trajetórias permanecem vivos como denúncia e resistência. Lembrar o Massacre da Sé significa também questionar as estruturas que produzem a exclusão social e a falta de acesso à moradia, ao trabalho, à saúde e à proteção social. Mais do que uma data no calendário, o 19 de agosto tornou-se um patrimônio da luta popular. É o dia de recordar Qua-quá, Pantera, Maria de Lourdes, Maria Baixinha, Antônio Odilon, Antônio Carlos e dois dos sete assassinados que ficaram ainda sem identificação (desconhecidos) e tantas outras vítimas da violência. É o dia de afirmar que nenhuma vida é descartável. E é, sobretudo, um dia para reafirmar que memória, verdade, justiça e moradia digna continuam sendo reivindicações urgentes da população em situação de rua em todo o Brasil. Leia na íntegra a matéria da pesquisadora Rose Barbosa: https://diplomatique.org.br/o-massacre-continuo/
- Editorial: Vida curta ao jornal O Trecheiro
Criação e composição: Rinaldo Santos | Uso de inteligência artificial na edição Chegamos à edição nº 311 e aos 35 anos de publicação do Jornal O Trecheiro. Nosso maior sonho, porém, continua sem se realizar: que o jornal deixe de ser necessário. Infelizmente, pouco mudou desde a primeira edição. Gostaríamos de escrever que ninguém mais perca a família, o trabalho e a moradia para sobreviver em calçadas, praças, viadutos, centros de acolhidas ou abrigos improvisados. Gostaríamos de dizer que quem enfrenta essa realidade encontra, no Estado proteção, acolhimento e oportunidades para reconstruir a vida. Mas essa ainda não é a realidade. Há 35 anos acompanhamos, denunciamos, criticamos e apresentamos propostas para transformar essa situação. Divulgamos experiências bem-sucedidas, estudos que comprovam que a moradia é o principal caminho para romper o ciclo da exclusão e defendemos políticas integradas de trabalho, qualificação profissional, cultura e geração de renda. Mostramos, repetidamente, que sair da rua exige muito mais do que assistência emergencial: exige políticas públicas permanentes e articuladas. Mesmo assim, a população em situação de rua continua crescendo. A realidade tornou-se mais complexa, enquanto a resposta do poder público segue insuficiente. Ainda predominam serviços precários, ações de expulsão, fechamento de equipamentos e a equivocada ideia de tratar uma crise social como caso de polícia. Esta nova etapa do jornal coincide com mais um processo eleitoral. É tempo de cobrar dos candidatos compromissos concretos com políticas públicas capazes de garantir moradia, trabalho, renda, cultura e respeito. Programas permanentes, com orçamento adequado, participação social e diálogo efetivo. É preciso que as pessoas sintam que o Estado as reconhece como sujeitos de direitos e que isso esteja refletido nos planos de governo. Seguiremos fazendo um jornalismo sério, profissional enquanto ele for necessário. Mas continuaremos desejando o mesmo desde 1991: vida curta ao Jornal O Trecheiro. Porque o dia em que ele deixar de existir será o dia em que ninguém mais vai precisar das ruas para sobreviver. Vida melhor para nosso povo!
- Campanha Estadual Permanente contra a Tortura
"ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante" Foto: Alderon Costa / Rede Rua Lançada em 2024, no “Dia Latino-americano de Luta da População em Situação de Rua”, a Campanha Estadual Permanente contra a Tortura ganha força com o site e lançamentos em várias localidades, com objetivo de divulgar, articular, e efetivar a Campanha. O Objetivo da campanha é ação e conscientização para erradicar a tortura, um crime de lesa humanidade, praticado todos os dias contra a população em situação de rua, por agentes públicos, em sua maior parte. O Fórum da Cidade de São Paulo em Defesa da População em Situação de Rua além de apoiar, contribuiu na construção dessa campanha. Todos são convocados para participar dessa ação contra toda forma de tortura. Nossa missão e compromisso é agir denunciando, sejam as próprias vitimas, os/as defensores/as de direitos humanos, lideres sociais do movimento pop rua e parceiros que tenham informações de ocorrência de tortura. Qualquer pessoa pode e deve denunciar. Participe, denuncie e divulgue. Não aceite nenhuma forma de tortura. As denuncias serão sigilosas protegendo o denunciante caso faça opção, e serão encaminhadas aos órgãos de justiça caso também assim faça opção. Você também pode fazer sua denúncia por telefone: 11 3104-4429 (CONDEPE) ou pelo formulário:
- “MEU VOTO CONTA SIM"
“O exercício da cidadania começa pelo direito de opinar e ter uma posição diante das possibilidades de mudança que surgem a cada ano eleitoral” - O Trecheiro 1998 Edição 57 coluna Povo da rua espera alguma coisa A cada 4 anos temos a possibilidade de escolher um novo governante para o cargo de Presidente. É nessa função que pensamos em quem vai direcionar o Brasil, só que se a gente parar para pensar, estamos cada vez mais ouvindo falar de outros cargos que são tão importantes quanto! O presidente é a pessoa que se ocupa do Executivo federal, ou seja, é quem elegemos para executar políticas nacionais e internacionais. Mas uma parte dessas políticas é decidida em outro espaço. É o caso do Congresso Nacional: deputados federais e senadores, pessoas que elegemos para pensar em textos de leis e, nas hoje famosas e polêmicas, emendas parlamentares, entre outras coisas. Para além do governo federal, elegemos esse ano, também, pessoas para os governos dos estados. Serão governadores e deputados estaduais. Você sabe em quantas pessoas precisamos votar esse ano? Então presta a atenção que o número é grande: Em todo o Brasil, somos: sendo: Meu Voto Conta Sim! A situação de rua tem sido um assunto nacional, que ultrapassa as barreiras dos estados e que precisa de uma ampla coalizão para que seja uma situação de passado e não de aumento como temos visto. Por isso queremos pessoas que se proponham a nos ouvir e a construir conosco um Brasil igualitário com uma saída qualificada, justa e definitiva da situação de rua.
- O prêmio da Vida
“Aquele menino teve muitas derrotas no "sopro do tempo", até chegar no Arsenal da Esperança e ser conhecido como Locutor" Costumo dizer que o esporte é o prêmio da vida. É um dos mais fortes alicerces que o ser humano possui para sua longevidade. Já ouvi que o esporte é aquele nosso companheiro de todos os dias, que quando a gente mesmo não quer, ele não larga da gente. A grandeza desta ciência universal está no fato de que incrivelmente ela mexe com a nossas emoções. Poder zuar o seu amigo na segunda de manhã, depois do time dele ter perdido na rodada do final de semana, ou andar de patins com seu irmão... Difícil explicar!!! E foi isso que me atraiu. Foi essa diferença emocional que só o esporte tem, que me fez em 1993, num radinho de brinquedo em forma de cachorro, ouvir aquele Palmeiras x Corinthians e ficar maravilhado... Eu era um garoto de 5 anos de idade, que nessa idade, se encantou com a forma que o Osmar Santos falava/narrava dentro daquele rádio. E como toda criança de 5 anos, o papo era só um: "Pai, olha que legal esse homem falando aqui dentro. Pai, como que ele consegue falar aí dentro?? Junior o que é futebol? Mãe, quando eu crescer eu quero falar igual a esse homem" E quando você ouvir que o esporte tem magia única, nunca duvide. Voltando a 1993, naquele domingo um tal de Ayrton Senna da Silva continuava na mania de só chegar em primeiro lugar... E junto com o Júnior (e fascinado pela voz daquele homem dias antes, que dentro do radinho falava depressa e gritava gol numa alegria), aquele garotinho adotou para si um mantra: "Quando eu crescer, vou falar igual àquele homem do meu radinho, e igual a esse outro homem aqui também que grita legal Ayrton, Ayrton Sena do Brasil!!!". Senna já era ídolo daqueles dois irmãos, mas depois se tornaria imortal na vida deles. Tanto que o grande barato da vida desses dois garotinhos, por todo domingo, era sentar-se no sofá, ligar a tv, segurar cada um, um micrfoninho de gravador de brinquedo que apareceu no "sopro do tempo", e imitarem aquele homem que só gritava Ayrton Sena do Brasil!!! Juliano narrando jogo do Peace League (Liga da Paz) Foto: Andrea Pellegrini Ah, aquele mesmo homem no ano seguinte estava ele lá pulando e gritando igual um doido: é tetra... lá estavam aqueles dois garotinhos, segurando cada um microfoninho na frente da tv, pulavam e gritavam... A Mooca ficou pequena na magia do esporte que tomou conta daqueles dois garotinhos. O sopro do tempo levou o Júnior para uma outra esfera. Para um outro plano deste universo de Deus!!! Mas não soprou a tal "magia do esporte", e aquele menino de 5 anos que se apaixonou pela voz do Osmar Santos no rádio continuou... Continuou. Sozinho, isolado e sofrendo, mas continuou se trancando num quarto numa longínqua cidade, e narrando com uma escova a Champions, o Campeonato Brasileiro, a Copa, a Fórmula 1, a Olimpíada, etc... etc... Aquele menino teve muitas derrotas no "sopro do tempo", até chegar no "Arsenal da Esperança" e ser conhecido como "Locutor", o cara que deu a voz à Peace League (Liga da Paz). Aquele menino da Mooca voltou. E como locutor do "Arsenal e ousa a pedir ao sopro do tempo: “Sopre uma vaguinha de locutor da Globo e realize o sonho daqueles dois garotinhos”. *Convivente do Arsenal da Esperança, onde atua como locutor de esportes.











