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  • Artista viajante: a arte de João Carlos Correa

    “Olha, eu sempre tive vontade de dar uma volta ao mundo. ‘Mas de onde você tirou essa ideia?’ Ah, é porque eu sou daquele tempo do (Festival) Woodstock. Eu vi os hippies, não sou roqueiro, eu sou eclético na música, mas eu via os hippies viajando e pensei, eu vou pegar meu desenho e vou colocar a mochila nas costas. Essa é a minha vontade, até porque eu tava passando por um problema, uma questão lá pessoal e também tinha brigado com a namorada. É lógico, né!? Aí o homem tem essa questão, briga com a namorada e vai embora”, conta João Carlos Corrêa, um artista autodidata de 61 anos que decidiu viver de maneira simples, apenas do seu trabalho artístico, movido principalmente desejo de viajar e conhecer o mundo. Para isso, ele precisava que seus materiais de pintura coubessem em uma mochila e fáceis de transportar. Por isso, optou pelo uso do lápis de cor e papel banco como materiais do dia a dia, apesar de pintar com acrílico, óleo e as mais variadas técnicas. “Com o lápis de cor, se tiver chovendo lá fora, se tiver um temporal, é só achar um lugar coberto, não vai impedir de eu fazer meu trabalho, né? Agora na tela ou então uns trabalhos de dimensão maior e tinta, já não conseguiria. Até porque, deu o horário aqui, fechou, tem que ir embora, tem que guardar, colocar na pasta e acabou. Se fosse pintura não tinha jeito”, conta João, que faz trabalhos por encomenda nas ruas, como caricaturas e retratos realistas, mas seu trabalho autoral, que faz de modo livre, é mais rebuscado e moderno. “Eu como artista, eu fiz tanta coisa, mas eu me defino assim, sou meio eclético, porque eu me identifico mais com o mundo é que bem surreal, então faço uns trabalhos por encomenda, mas eu gostaria mesmo é de ter o meu ateliezinho, né, para fazer as minhas obras surreais, poder mostrar ali esse mundo no meu surrealismo. Mas no momento tá meio difícil” As obras de João impressionam pela qualidade técnica, pela beleza e pela diversidade. Ele também mostra domínio sobre escolas e tendência artísticas fruto de anos de estudos, talvez nas bibliotecas e centros culturais nos quais usa frequentemente como ateliês itinerantes. “É como aquela música do Caetano que eu acho que é a minha cara, né? ‘Alegria, alegria, caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento.’ Aquilo lá era eu todinho. Uma coisa é você ir conhecer um lugar com dinheiro para pagar lá, estadia. Você conhece sem dinheiro vai conhecer o outro lado da moeda, a parte burocrática do mundo, né?”, lembra João quando começou a rodar o mundo vivendo da sua arte. No entanto, ele faz questão de ressaltar que nunca deixou de lado os laços familiares. “Eu tenho um filho, né? Um filho, hoje, e dois netos. Eu virei um artista meio nômade, um artista andarilho, viajante. Mas eu faço questão de lembrar que eu nunca esqueci que eu tenho uma família, tenho uma mãe, um pai, uns irmãos que são maravilhosos, né? Que às vezes eu vejo. De três em três meses eu fazia questão de vir ver meus parentes, que até porque eu tenho uma mãe maravilhosa, ela criou nove filhos”, disse João. Seu trabalho ilustrou um documentário e ebook feito pelo programa de psicologia da USP retratando a trajetória da população de rua, seus desenhos mostram a história da dependência química e alcoolismo. Apesar do talento indiscutível e da incrível história de vida vivendo em diversos países da América Latina, João nunca teve a oportunidade de fazer uma exposição com suas obras e receber a valorização pelo seu trabalho. Esse sonho foi realizado no ano de 2026 por meio do projeto “Abrindo a pasta do sonhos”, selecionado por um edital público que permitiu que vários artistas como João pudessem aprender mais sobre produção cultural e dominar ferramentas para o desenvolvimento profissional. As aulas ministradas por Diana Tsonis resultaram em ações práticas como a exposição das obras reunidas de João Carlos Corrêa no dia 27 de janeiro no Teatro Arthur de Azevedo, na Mooca, São Paulo. Um momento importante de consagração de um verdadeiro artista popular e oportunidade para abrir portas para mais realizações. Entrevista completa com Youtube por Diana Tsonis: https://www.youtube.com/watch?v=N_pqv_CchjI

  • Trecheirinhas

    Por Luciana Ribas, José Vicente Quando a violência vira curtida Perfis de parlamentares e influenciadores têm usado as redes sociais para expor, constranger e humilhar pessoas em situação de rua. Em vez de política pública, o que aparece é espetáculo — com vídeos que associam pobreza à sujeira, criminalidade e “desordem”, alimentando medo e preconceito. Por isso, o Comitê PopRua Jud criou um procedimento para apuração e investigação desses perfis e responsabilização no âmbito judicial, eleitoral e administrativo. Se você souber de algum perfil que realiza esse tipo de conteúdo, escreva para O Trecheiro que iremos compartilhar com o Comitê para incluir esse perfil nessa investigação. A denúncia completa pode ser acessada aqui: https://docs.google.com/document/d/1EaJpRaALHLNtvsBEpw8u3Yw-7noSC0Up/edit Estação Cidadania I fica! Inaugurado em 2023, o Estação Cidadania I opera próximo à Praça da Sé, na av. Rangel Pestana, 215 e oferece banheiro, banho, água potável, lavanderia, atendimento especializado e psicossocial para a população em situação de rua. Quando criado, o serviço também oferecia 1.000 marmitas diárias que foram cortadas em outubro do ano passado. Em maio, a Prefeitura anunciou o fechamento do serviço. No entanto, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo demonstrou que não há capacidade para a absorção das vagas de atendimento na região, que já está sobrecarregada. Assim, o Tribunal de Justiça decretou a continuidade do serviço. (Processo nº 1153325-42.2025.8.26.0053). Participe do Comitê Estadual da Pop Rua! O Conselho das Políticas para PopRua no Estado de São Paulo aprovou, em abril, seu Regimento Interno e, desde maio, realiza reuniões abertas à toda sociedade. Os encontros ocorrem sempre às 13h30, na última terça-feira do mês na Sala Quadrada da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social - Rua Boa Vista, 170 da Capital.

  • Imagens e memórias

    Desenhos e impressões sobre o que é a vida, a cultura, a memória na e da rua em São Paulo. Por Adriana Fernandes e Joana Barros* O que é a memória da rua? Foi a partir desta pergunta que convidamos os frequentadores da Chapelaria social Irmã Alberta, ao longo do primeiro semestre, a produzirem desenhos e colagens sobre suas experiências e impressões de São Paulo. Durante as oficinas, tanto esses registros, quanto as músicas ouvidas e cantadas, e os pequenos trechos do jornal O Trecheiro foram permeados por comentários e bate-papo que resultaram em um conjunto de imagens e narrativas que contam um pouco do muito vivido nas ruas, das relações familiares, dos amigos, do trabalho, dos corres do dia a dia e da violência da polícia e da guarda, dos amores, das dores e dificuldades de sobreviver. E, tão importante quanto, do que cada pessoa viveu e de como viveu, como sonha, como constrói e pensa sua vida. Todo esse trabalho fará parte de uma exposição que tem por objetivo trazer ao público - pelos desenhos, colagens e depoimentos - as passagens líricas e sensíveis sobre o que é a vida, a cultura, a memória na e da rua, Ora é um desenho com um coqueiro e uma casa que remete à origem alagoana; em outro, a imagem é a de uma igreja que fala do “sonho de casar”(sem que houvesse, até aquele momento, nenhum pretendente). Já Daniela fez um “coração com asas”, preenchido com glitter prateado. Para Beatriz, de sotaque mineiro, foi a paisagem do Vale do Anhangabaú passando no Youtube da tela de tv da Chapelaria que capturou sua atenção: “Gostava muito de deitar-se embaixo de uma árvore do parque pra ver o céu azul”. O humor não é algo menor nesses encontros: implicar com outros participantes, reparar em algum gesto, pegar no pé por conta da derrota no futebol. Sobre o desenho do amigo sentado ao seu lado, um convivente disparou: “Água de rio, água de mar, só faltou a água de aguardente [risos]”. Quando propomos como fio condutor as memórias da infância, Hector fez uma ponte enorme com dois rios de cores diferentes e explicou: era a ponte que liga o Brasil ao Peru, os dois rios se encontram embaixo dela, “o mais claro é o que banha o lado do Peru, a parte escura é o Rio Amazonas” - lembrou que ele e outros meninos se jogavam e se banhavam ali, havia uma diversidade de tipos de peixe! Um tópico sempre sensível são as passagens envolvendo familiares. Um rapaz vindo do Ceará explicou que estava na Rede Rua para se reerguer e “não ser vergonha pra família”. Logo que veio para São Paulo, conheceu Salesópolis (SP), a cidade onde se encontra a nascente “bem limpinha” do rio Tietê. “Quando cheguei eu andava muito, sempre gostei de andar, eu ia marcando os lugares, tem gente que anda e não marca nada, aí não consegue se localizar, eu ia cada vez mais longe e voltava onde eu tinha marcado”. Dois dias antes de uma oficina, havia caído muita chuva em São Paulo, o clima era de desolação, as urgências se concentraram no café com pão, no banho quente e em trocar a roupa molhada. Ana (com seus cachorros esperando na calçada da Chapelaria) repetia a mesma coisa: “Acabou a oficina? Vão servir o café? Eu tô com a maior fome!”. À desolação, somou-se à notícia de que o prefeito mandaria fechar a Casa São Martinho, lugar referência de acolhimento, por conta das mobilizações, a medida foi suspensa. Esse não seria o primeiro equipamento encerrado na atual gestão. Semanas depois, falando sobre São Paulo, um convivente resumiu: “São Paulo é uma mãe e é também a rainha das enchentes”. Mas Márcio, presente em todas as oficinas, trouxe a solução: fez um barco de cores vibrantes, nele, é certo, cabem todos os lascados do mundo. É esta força e sensibilidade que estão retratadas nestes painéis e nos vídeos que compõem a exposição: “Memórias da Rua”. Com elas podemos conhecer um tanto mais da vida na rua e de quem constrói todos os dias a cidade.

  • 2ª chamada para candidaturas de vagas Cidadania Pop Rua

    Chapelaria Social Irmã Alberta | Chapelaria Social Irmãs Regina e Ivete Oportunidade de trabalho A Associação Rede Rua está com novas vagas abertas pelo projeto Cidadania PopRua – Chapelaria Social Irmã Alberta e Chapelaria Social Irmãs Regina e Ivete, em parceria com a Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. As oportunidades são para atuação nas unidades do Brás e de Santo Amaro, na cidade de São Paulo: Assistente Social – Santo Amaro (1 vaga) Psicóloga(o) – Brás (1 vaga) Pedagoga(o) (1 vaga) Terapeuta Ocupacional – Serviço de Acolhimento MM – SENEV – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Terapeuta Ocupacional – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Agente Redutor de Danos – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Técnico Nível Superior – Direito – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Mediador(a) de Conflitos em Direitos Humanos – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Intérprete e Tradutor de LIBRAS – Brás e Santo Amaro (2 vagas) Arquiteta(o) e Urbanista (1 vaga) Se você tem compromisso com os direitos humanos, sensibilidade para atuar com a população em situação de rua e deseja fazer parte de um trabalho que promove cidadania, inclusão social e garantia de direitos, essa pode ser a sua oportunidade. As vagas contemplam diferentes áreas de formação e incentivam a candidatura de mulheres, pessoas negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+, pessoas em situação de rua e/ou em situação de vulnerabilidade social, reafirmando o compromisso da Rede Rua com a diversidade e a inclusão. As inscrições vão até o dia 27 de junho de 2026. Para mais informações sobre requisitos, atribuições e processo de inscrição, acesse o edital completo: https://drive.google.com/file/d/14ZKw4ZTEWKP00QH-BnhPof3srJOKRtQ9/view?usp=sharing As entrevistas serão agendadas na segunda semana de julho, para início imediato das atividades ainda no próprio mês de julho.

  • “Condomínio Minhocão”

    Dando sentido às entranhas e patas do Minhocão Começo pelas notícias que cada um de nós, mais ou menos, já conhece para então abrir as frestas e os vãos entre as manchetes sobre o Elevado João Goulart, o Minhocão. Há quase um ano, no dia 29 de abril de 2025, deu-se início a construção de um estacionamento embaixo do elevado, no Centro de São Paulo. Cerca de um mês depois, esse projeto deu lugar a outro plano, a criação de jardins de inverno na extensão do canteiro central abaixo da cobertura do viaduto. Os jardins começaram a ser instalados no trecho entre as ruas General Jardim e Jaguaribe, continuando pela avenida São João. Tal empreendimento da prefeitura municipal de São Paulo é identificado pela gestão pública como parte da “requalificação de vias ao redor do Minhocão”. Parte significativa da Pop Rua cultiva plantas em locais públicos, dá atenção a cães e recicla resíduos sólidos descartados pelas pessoas domiciliadas - inclusive os moradores do Minhocão. O projeto municipal de embelezamento verde do elevado, entretanto, tem como consequência expulsar dezenas de pessoas que utilizavam o viaduto como um tipo de moradia há vários anos. Algumas delas se dispersaram na região de Santa Cecília e outras resistem no local enfrentando as investidas sistemáticas da Polícia Militar e dos agentes de Zeladoria Urbana. Como pesquisadora, acompanhei o cotidiano de dois destes moradores do Minhocão, Wiliam Pereira, S.Chok e Roger Desenho, em 2023 e 2024, quando eles ainda moravam em barracas nas malocas sob o viaduto. Com eles aprendi um pouco do tanto que cada um conhece sobre a região e sobre os muitos “jeitos” inventados para transformar essa brutal estrutura de concreto em habitação. E, como toda habitação tem vizinhos, acompanhei os moradores tornarem os vãos do elevado ambientes ricos em relações sociais, atravessados por solidariedade, por trocas, por “corres” de várias naturezas. Desde um fogão que passeava entre malocas até o compartilhamento de alimentos, mantas e informações. Estas trocas criavam elos entre os moradores do viaduto e com os moradores dos prédios convencionais e também com os comerciantes da região. Tal vínculo entre as malocas do Minhocão sugeriu imaginar a estrutura do viaduto como um grupo com os contornos de uma comunidade e, de certa forma, um condomínio de unidades que talvez pudesse se chamar “Condomínio Minhocão”. Construído durante a ditadura civil-militar e oficialmente finalizado em 1971, o Minhocão foi criado sem ser submetido a uma consulta popular e é considerado uma obra polêmica desde o seu início. Com 3,4 km de extensão, o projeto privilegiou o fluxo dos automóveis, conectando a Zona Oeste e o centro histórico. Da perspectiva de Super Chok, Desenho e de outros moradores, entretanto, diria que o Minhocão não está nunca definitivamente concluído. Ele é obra em contínua construção, dinamizada pelas atividades que se dão em seu ambiente, em especial no início da noite quando cada um dos moradores utiliza os materiais descartados por outros para colocar suas habitações de pé. Construções estas que serão destruídas pelos agentes da Zeladoria Urbana na manhã seguinte e reconstruídas ao entardecer novamente. Daí cada morador do Minhocão, assim como cada pessoa em situação de rua, com sua energia admirável, ser também um agente produtor das formas da cidade criando constantemente paisagens. Cada morador parece conhecer com intimidade as superfícies assim como as entranhas das paredes e do piso do elevado. Nos dias de chuva intensa, me apontaram como o Minhocão vaza e pinga, levando-os a colocar baldes no piso para conter as goteiras da estrutura. Deste ponto de vista, cada morador do Minhocão era também um zelador dele. Enquanto o direito à moradia não for de efetivo interesse das administrações públicas, contem comigo para lutar para que os moradores do Minhocão tenham o direito de permanecer no Elevado sem ter de enfrentar humilhações cotidianas e expulsões. Luciana Stein é jornalista e pesquisadora.

  • Editorial: As baixas continuam… e vão se intensificar

    O frio chegou e o calor humano parece que está se distanciando da sociedade e principalmente dos gestores da cidade. Até o momento ainda não se sabe quais as ações que vão acontecer para amenizar as consequências das baixas temperaturas. A preocupação da sociedade hoje é com toda a precarização dos serviços que atendem as pessoas em situação de rua, em particular as que não estão nos abrigos institucionais e não conseguem uma vaga em tempos normais, sem o frio. Imagine quando a demanda aumentar por conta do inverno. Todos os anos recebemos as avaliações da baixa qualidade dos serviços implantados de forma emergencial para suprir a maior demanda. Muitas reclamações em relação aos gastos, em particular, o preço da garrafa de água que custou mais de R$ 4 por unidade no ano passado, enquanto, no mercado, se compra pela metade do preço. Outras denúncias são sobre a qualidade da comida e a forma de entrega, além da qualidade do cobertor distribuído à noite, que não esquenta e deixa pêlos nas pessoas, e, ainda por cima, é recolhido no outro dia pela zeladoria. Não podemos esquecer das pessoas que todo ano morrem por hipotermia e por outras consequências do frio. Além do abandono em vida, há também o abandono na morte. Dados não contabilizados e dificuldade no acesso ao enterro digno e gratuito. Agora vivemos uma realidade preocupante com a política de expulsão das pessoas do centro, e as tentativas de fechamento dos serviços de atendimento e acolhimento, em particular a Estação Cidadania I, situada próximo da Praça da Sé e que teve o fechamento anunciado recentemente. Para piorar, com uma justificativa que não tem cabimento. Fechar um serviço por ter outros serviços semelhantes, em um contexto de aumento dessa população e de demanda maior que a oferta, é revoltante. O fechamento de qualquer serviço compromete ainda mais o atendimento das pessoas numa situação de vulnerabilidade crescente. Fica aqui nossa preocupação com este momento e que se implante serviços com alta qualidade para enfrentar as baixas temperaturas.

  • Colar de Honra ao Mérito

    ALESP concedeu Colar de Honra ao Mérito a Benedito Barbosa (Dito) pela sua luta por uma cidade justa e inclusiva. Na segunda-feira, 13 de abril de 2026, o plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo foi ocupado por movimentos de moradia, pelo Fórum da Cidade de São Paulo em Defesa da População em Situação de Rua, pesquisadores e pela sociedade civil em uma cerimônia histórica. Tratava-se da entrega do Colar de Honra ao Mérito (a maior honraria do Legislativo Estadual) ao Doutor Benedito Roberto Barbosa - o nosso querido Dito. Por iniciativa do Deputado Eduardo Suplicy, o prêmio reconheceu a luta histórica de Dito pelos direitos humanos, e principalmente por moradia digna. Dito, que é advogado e Doutor em Planejamento e Gestão de Território, iniciou sua atuação militante junto à Pastoral da Moradia, mas logo expandiu suas ações, colaborando ativamente com os movimentos de moradia organizando comunidades, apoiando ocupações e dialogando com o poder público para garantir direitos. Sua luta incansável foi considerada um exemplo pelos que estiveram presentes e fizeram as homenagens. Fátima dos Santos, representante da União dos Movimentos de Moradia, pontuou sua prontidão para atender às demandas dos movimentos a qualquer momento e o considerou um “herói”. Já Luiz Kohara, do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, ressaltou a gratuidade e a solidariedade que sempre pautam a conduta de Dito, além de sua habilidade política apurada que o permite mediar conflitos dos mais acirrados. Ao agradecer a honraria recebida, Dito relembrou a importância do trabalho da Defensoria Pública e de defensores de direitos humanos que são perseguidos, como Preta Ferreira e Alessandra Moja, e de vítimas da violência do Estado, como os sobreviventes do incêndio do Edifício Wilton Paes de Almeida e o senegalês ambulante Ngange Mbaye. Por fim, ressaltou a importância de se lutar por direitos de forma coletiva e popular para que possamos, assim, realizar o sonho de uma cidade justa e inclusiva. Assista à cerimônia Clicando no link Abaixo https://www.youtube.com/live/fIICDRpB1Sk

  • Recado da Rua

    A história de dona Maura de Alagoas Maria Maura dos Santos, de 75 anos, recebeu uma moradia digna através do programa estadual “Novo Lar, Nova Vida”, recebendo casa com intervenção do MNPR e benção do Padre Júlio, é o mínimo! Desde que Alcione recebeu a chave do apto de Eduardo Paes (RJ), viu-se que as mulheres têm prioridade em sair da rua (calçada). Agora precisamos criar uma plataforma nacional e entregar a todos os candidatos a governador, inclusive aos que militam na nossa contramão, ainda que tenhamos nossos candidatos próprios. Mas, se outros ganharem, eles não podem dizer que não sabiam que o lema Terra, Pão e Teto continua na pauta do dia desde o tempo de dom Helder e dom Evaristo Arns. Eles já sabem que ao não nos contemplarem estão sendo desonestos, pois não é nós que não os procuramos, eles que nos invisibilizam. As mulheres continuam prioridade, mas a Habitação de interesse social continua prioridade também. Rio de Janeiro, 1 de abril de 2026.

  • Viver nas Ruas

    Entrevista com a jornalista Rebeca Kritsch que viveu por cinco dias nas ruas. No mês de abril, tivemos o lançamento do livro “Viver nas Ruas”, de Rebeca Kritsch. A obra traz a republicação de uma série especial sobre pessoas em situação de rua feita em 1995 pela autora para o jornal O Estado de São Paulo. Rebeca e o fotógrafo Vidal Cavalcanti dormiram nas ruas de São Paulo por cinco dias e, na reportagem, ela apresentou a realidade e a dificuldade vividas por quem está nessa situação. Trecheiro: Quais pontos te chamaram atenção e que você nunca tinha parado para pensar sobre quem está em situação de rua? Rebeca: Eu não sabia como era difícil uma pessoa sair da rua. Eu tinha a mesma impressão de outros, que se você oferecesse um trabalho, uma casa, a pessoa saía. Outra coisa é que eu achava que a pessoa em situação de rua não transava. Eu pensava: “como é que o povo engravida?” Daí eu descobri como é que transavam. E um último ponto é como as mulheres faziam quando menstruavam. Então elas, muitas vezes, pediam dinheiro para comprar absorvente. E é algo que, antes, nunca me passou pela cabeça. Trecheiro: você conheceu diversas pessoas que estavam verdadeiramente nesta situação. Qual trajetória de vida mais te marcou? Rebeca: São duas que me deixaram muito triste. Uma delas é a Berenice, uma moça linda, nova e que foi estuprada dentro de casa. E por isso caiu na rua e nunca saiu. Ela tá até hoje. Aquilo me deu uma tristeza, a menina pirou. Outra foi a dona Jane, uma aposentada que morava embaixo do Minhocão. Velhos de rua mexem comigo até hoje. As pessoas olham para pessoas velhas na rua e julgam. Olham e falam: “Isso daí não conseguiu nada da vida. O que deve ter feito para ter caído na rua?” As pessoas não entendem que muitas vezes esses idosos são maltratados pela família, são jogados na rua. A família toma casa, toma tudo. Por isso a senhora que vivia no elevado me marcou muito e também porque, inclusive, ela pegava a aposentadoria e era assaltada todo mês, vivia naquele perigo. Trecheiro: Em 1995, sua reportagem foi importante para trazer visi bilidade à realidade e às dificuldades vividas por quem está em situação de rua. Você acha que o preconceito com quem está nessa situação (chamado de aporofobia) mudou ao longo desses 30 anos? Rebeca: Eu saí do Brasil há 16 anos. Enquanto estive no Brasil, eu via aporofobia direto. E nesses últimos 16 anos, acho até que piorou. Nas minhas visitas ao Brasil, o preconceito contra pobre é horrível. Entre a elite se agravou. Como foi o caso do metrô em Higienópolis, que os moradores do bairro não queriam porque ia aparecer um público “diferenciado”. Trecheiro: Tivemos o caso recente em Belém (PA), em que universitários davam choque num senhor em situação de rua com saúde mental comprometida. Eram dois jovens e a diversão era um deles dar o choque com aquelas armas de choque, o outro filmar dando risada e divulgar nas redes. É o tipo de notícia que acaba com a fé na humanidade. Rebeca: São surreais. Vemos as pessoas falando mal de pobre. Eu tenho ex-amigos. Ouvi coisas que não tem como continuar sendo amigo. Frases como: “Olha que lama”, ao ver uma pessoa na rua. É muito triste. As pessoas em situação de rua são humilhadas. A normalização da agressividade, da violência, da falta de respeito. Liberou o pior das pessoas. Trecheiro: Qual o papel do jornalismo no combate ao preconceito e na busca de uma sociedade mais justa? Rebeca: Fiz jornalismo em Columbia, nos Estados Unidos. E eles falam que jornalista é um ser que é pago para se preocupar com os problemas do mundo. E, para mim, jornalista é isso. Jornalismo é uma função de servir ao público, servir à sociedade. Jornalismo é mais que um papel. É um dever de denunciar desigualdades e trabalhar para uma sociedade mais justa. Outro papel muito importante do jornalismo é de educar. Com as redes sociais hoje, há grandes oportunidades para educar pessoas. E o jornalismo é uma profissão privile- giada para fazer isso. Trecheiro: Atualmente você vive fora do Brasil. A partir da sua experiência no Reino Unido, tem algo que o Brasil poderia aproveitar como exemplo na questão da situação de rua? Rebeca: Quando lancei o livro, vi os números da Inglaterra e aprendi algumas coisas. Aqui tem duas categorias, homeless e rough sleeper. A pessoa é considerada homeless antes de estar em situação de rua, antes de dormir na rua. São pessoas que estão em moradia temporária, sem estabilidade na moradia, que estão em situação que podem ser despejadas a qualquer momento ou que estão em centros de acolhida. Atualmente há 140.227 homeless no Reino Unido (dados de março de 2024). Já rough sleeper é quem está dormindo nas ruas, em calçadas. São 4.667 rough sleeper só na Inglaterra (dados de outubro de 2024). Ou seja, a Inglaterra coloca recursos e esforços para não deixar a pessoa cair na rua. Porque uma vez que caiu, é difícil sair. Há uma atenção especial para famílias, para que não caiam nas ruas com crianças. Acredito que essa atenção antes de cair na rua é muito importante. Porque o que você investe aqui, economiza lá na frente.

  • Direitos na praça, dignidade em movimento

    Pessoas em situação de rua acessaram no mesmo espaço os serviços que normalmente exigiriam longos deslocamentos e enfrentamento de barreiras institucionais. Foto: Divulgação Entre os dias 13 e 17 de abril de 2026, a Praça da Sé, no centro de São Paulo, tornou-se espaço de garantia de direitos com a realização da 7ª edição do Mutirão Pop Rua Jud. Durante cinco dias, pessoas em situação de rua puderam acessar no mesmo espaço os serviços que normalmente exigiriam longos deslocamentos e enfrentamento de barreiras institucionais. A iniciativa, que é uma previsão da política judiciária para a população em situação de rua da Resolução nº 425/2021 do Conselho Nacional de Justiça, reuniu tribunais, defensorias públicas, órgãos federais, estaduais e municipais, além de dezenas de organizações da sociedade civil, coletivos e movimentos sociais. Documentação civil, atendimento jurídico, cadastro em programas sociais, orientações previdenciárias, serviços de saúde, vacinação, alimentação e encaminhamentos para trabalho foram oferecidos no decorrer da semana. Para quem vive na rua, o que está em jogo não é apenas o atendimento pontual, mas o reconhecimento da condição de sujeito de direitos. A ausência de documentos, por exemplo, segue sendo uma das principais engrenagens da exclusão: sem certidão, RG ou CPF, não há acesso a políticas públicas básicas. O Pop Rua Jud enfrenta essa lógica ao concentrar serviços e reduzir exigências que, no cotidiano, afastam quem mais precisa. O eixo do acesso à justiça foi um dos destaques da ação. Defensorias, tribunais e serviços jurídicos estiveram disponíveis diretamente na praça, invertendo a lógica tradicional que exige das pessoas em situação de rua circulação por prédios hostis e burocráticos. Nesse gesto, o Estado se desloca até onde a exclusão é mais visível. A diversidade das trajetórias atendidas revela a complexidade da rua: pessoas que perderam o emprego e a moradia, migrantes e refugiados em busca de regularização, mulheres, idosos, pessoas adoecidas e famílias com crianças. Embora potente, o mutirão também expõe um limite: direitos ainda não chegam à população em situação de rua. A alta demanda durante o evento - média de mais de mil pessoas por dia - revela a carência de políticas públicas permanentes, integradas e territorializadas. Mutirões não substituem políticas estruturais de moradia, renda, saúde e cuidado continuado.

  • Direitos Humanos para as pessoas que estão em situação de rua

    Cidadania Pop Rua, uma porta aberta em Santo Amaro para atender as pessoas da região Representantes das OSCs à frente do Cidadania PopRua-SP: Rede Rua, Identidade Periférica, Instituto Becei, É de Lei e Casa Neon Cunha. (Foto: Alderon Costa) Dia 30 de abril, foi inaugurado em Santo Amaro, São Paulo, um primeiro espaço para reforçar a política pública de atendimento das pessoas em situação de rua. A chapelaria irmãs Ivete e Regina já funciona desde 2025 e agora passa a fazer parte do programa “Cidadania Pop Rua” PAR (Pontos de Apoio da Rua) e CAIS (Centros de Acesso a Direitos e Inclusão Social). “Trata-se de um equipamento multidisciplinar para atender, da melhor forma possível e com respeito aos direitos humanos, as pessoas em situação de rua”, destacou a secretária-executiva do MDHC, Caroline Reis. Para Andreza do Carmo, coordenadora da Rede Rua, o que vemos hoje na cidade de São Paulo não é apenas o aumento da população em situação de rua, é uma reorganização forçada dessa população nos territórios. “Essas pessoas estão sendo empurradas para as margens. Santo Amaro tem sido um dos destinos desse deslocamento, mas sem o devido investimento”, conclui Carmo. Além de atendimento por equipe especializada multidisciplinar que garante acolhimento humanizado e acesso a direitos, os novos equipamentos também vão oferecer serviços como higiene pessoal, guarda de pertences, lavanderia e cuidados pessoais. Na mesma data também foi anunciado o 1º Censo Nacional da População em situação de rua, parceria entre o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o MDHC. O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, participou da inauguração e esteve no espaço onde funciona o atendimento. Para ele, o Censo vai ser uma oportunidade, uma espécie de pagamento de uma dívida que o sistema estatístico tem com uma parcela da população do nosso país. “Agora estamos tendo um outro olhar, contar a população que não tem domicílio e essa é uma parcela importante de reconhecimento da necessidade de estatística, mas também o próprio reconhecimento da experiência que está sendo feita aqui.” Segundo Malu Burgareli Gama, Diretora de Promoção dos Direitos da População em Situação de Rua do MDHC serão 7 unidades em São Paulo e mais 40 em 20 unidades federativas, totalizando 47 unidades. Em São Paulo, serão implantados 7 serviços do programa Cidadania Pop Rua nas regiões de Santo Amaro, Cidade Tiradentes, Santana, Cambuci, Vila Leopoldina, Brás e Sé. “É uma resposta do Governo Federal ao aumento da violência contra a população em situação de rua. Este programa vem para completar a rede”, destacou Burgareli. O Coordenador-geral do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para a População em Situação de Rua (CIAMP-RUA Nacional), Anderson Lopes Miranda, destacou a importância do serviço para garantir a dignidade: “Não é tirar o papel do Centro Pop, mas é agregar, melhorar e que seja atendida com dignidade”.

  • Trecheirinhas

    Sem-teto e Sem-enterro Na noite do dia 13 de junho de 2025, Jeferson de Souza dos Santos foi executado com 3 tiros de fuzil pelo 1º tenente Allan Wallace dos Santos e o soldado Danilo Gehrinh. Até o dia 27 de fevereiro de 2026 a família continuava aguardando o translado para Craíbas-AL (Processo n°: 1500355-97.2025.8.26.0053). Os policiais continuam presos aguardando a data do júri (Processo nº: 0000312-43.2025.8.26.0052). De novo, tentam despejar a Coopamare Dia 14 de maio foi o aniversário de fundação da Coopamare (Cooperativa de Catadores de Papel, Papelão e Materiais Reutilizáveis). São 37 anos reciclando, possibilitando alternativas de vida digna para mais de 80 famílias e dando fôlego para o planeta. Segundo Eduardo Ferreira de Paula, um dos fundadores da Coopamare, “Se for para tirar daqui para outro viaduto nós ficamos aqui.” Coopamare, fica! #coopamarefica

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