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- São Paulo Inaugura CIAMP-Rua Estadual
Fachada da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (divulgação - www.al.sp.gov.br) Na terça-feira, 17 de março, o Estado de São Paulo deu início às atividades do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Estadual de Atenção Específica para a População em Situação de Rua (CIAMP-Rua). Este novo órgão, de composição paritária entre membros do governo e da sociedade civil, tem por objetivo elaborar planos de ação bienais da Política Estadual para a População em Situação de Rua, monitorar as ações desenvolvidas, propor medidas que assegurem a articulação intersetorial etc. Embora o Governo Estadual tenha demorado 9 anos para instituir o conselho, que já era previsto por lei desde 2017 (o CIAMP-Rua era previsto pela Lei 16.544/2017 mas só foi criado pelo Decreto 69.522/2025 com a primeira reunião em 2026), a efetivação desse órgão é uma conquista a ser comemorada. No encontro inicial, Wagner dos Santos, conselheiro com trajetória de rua, afirmou: “Acho que o papel do CIAMP agora, nesse momento, é para, verdadeiramente, colocar a pessoa em situação de rua em um patamar de onde ela nunca deveria ter saído, que é a socialização. É ser uma pessoa que tem uma vida digna, minimamente decente, minimamente com as suas necessidades supridas”. O Ciamp-rua estadual fará suas reuniões sempre na última terça-feira do mês, às 14h, em modo híbrido. As reuniões ocorrerão na Sala Quadrada da sede da Secretaria de Desenvolvimento Social e as plenárias abertas à rua devem iniciar tão logo seja aprovado o Regimento Interno do órgão, que deve ocorrer na próxima reunião ordinária em abril. O Trecheiro continuará acompanhando este espaço de debates.
- Bom Prato gratuito? Poderá ser realidade!
Uma proposta que garante a universalização da gratuidade, ou seja, todas as refeições gratuitas para todas as pessoas! Foto: Felipe Moraes O deputado estadual Eduardo Suplicy protocolou na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), no mês de março, o Projeto de Lei n° 132/2026, que institui gratuidade das refeições do Programa Bom Prato. O Bom Prato tem como objetivo oferecer refeições de qualidade a um custo acessível. Atualmente conta com 71 unidades fixas, 47 pontos móveis de atendimento e 4 refeitórios. Das 75 unidades (fixas + refeitórios), 27 abrem aos finais de semana e feriados e 48 unidades funcionam apenas em dias úteis. Nem todas as unidades oferecem jantar. Já existe gratuidade nas refeições do Bom Prato para crianças até 6 anos e para pessoas em situação de rua não albergadas. Para as demais pessoas, o café da manhã tem um custo de R$ 0,50 e o almoço e jantar possuem um custo de R$ 1,00 cada. Apesar dessa gratuidade estar garantida por meio de resolução, relatos de pessoas em situação de rua, de movimentos sociais e organizações que atuam com o tema indicam a dificuldade no acesso a esta gratuidade. No momento, a Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDS) fornece os cartões para as Prefeituras, que repassam para as pessoas em situação de rua. Entretanto, a perda do cartão é comum e há uma burocracia enorme em conseguir um novo. Além disso, pessoas vinculadas a centros de acolhida não podem usufruir da gratuidade. Inicialmente, Suplicy pensou em fazer um projeto de lei para facilitar o acesso à gratuidade pelas pessoas em situação de rua. A ideia foi se aperfeiçoando até chegar em uma proposta que garantisse a universalização da gratuidade, ou seja, todas as refeições gratuitas para todas as pessoas! O objetivo, além de garantir uma refeição de qualidade a quem possa estar em insegurança alimentar, é eliminar burocracias e barreiras de acesso. O deputado ainda fez uma análise orçamentária e verificou que a gratuidade integral a todas as pessoas necessitaria de um aumento ao orçamento de 8,4%, ou seja, um valor extremamente viável frente aos benefícios da proposta. A equipe do jornal O Trecheiro acompanhará a tramitação do projeto na ALESP e está na torcida para que, em breve, se torne Lei.
- “Escritos do Asfalto”
Livro lançado por Samuel Rodrigues no encontro de planejamento do Comitê Nacional Pop Rua Jud (9/03), onde separou um tempinho para conversar com o jornal O Trecheiro Samuel Rodrigues autor do livro "Escritos do Asfalto" - Foto: Luciana Ribas e Rede Social Como você descreve sua trajetória e relação com a rua? Minha trajetória e minha relação com a rua se misturam. Eu nasci em 1968, no interior, num lugar muito pobre, onde só fui ter energia elétrica aos oito anos. Comecei a trabalhar cedo, com 13 anos, em serviços sazonais. Também tive conflitos familiares — minha mãe era católica praticante e meu pai, protestante da Assembléia de Deus. Saí de casa e não voltei mais. Vivi muitas violências institucionais e sociais, discriminação e violações de direitos. A rua marcou profundamente minha vida, inclusive um período no sistema prisional. Depois, já fora da rua, mantive uma relação forte com os movimentos e a rua organizada. Como surgiu a ideia do livro ‘Escritos do Asfalto’? A ideia veio das pessoas que sempre me incentivaram a escrever sobre minha história. Mas a poesia entrou na minha vida através da mobilização social. Durante a pandemia, nas ações do Canto da Rua, eu me vi escrevendo mais, participando de rodas, conversas, movimentos. Comecei a registrar minhas percepções e vivências. Fizemos sarau, divulgamos poesias na internet. Foram cinco anos de construção até que o livro se tornasse real. Quem apoiou a construção do livro? Muita gente. Meu companheiro Vanilson, Cristina Bove e Patrícia Antunes, que ajudou a organizar e dividir o livro em capítulos. A Arte Editora fez o trabalho gráfico. Muitas pessoas apoiaram financeiramente e emocionalmente. Houve dificuldades, problemas de saúde, desencontros, falta de recursos — mas superamos tudo com amizade e foco. Eu tinha claro que queria publicar o livro, e esse desejo foi o que nos manteve firmes. Como você vê as políticas públicas de cultura para a população em situação de rua? Vejo como algo ainda muito distante. Se políticas essenciais como moradia, saúde e trabalho já estão aquém, a cultura fica ainda mais esquecida. Há incentivos, mas são para toda a sociedade; nada específico para a população em situação de rua. Seria muito importante termos políticas culturais específicas: para escrever, montar teatro, produzir cultura. A rua é cheia de cultura, e isso deveria ser reconhecido. Quais são seus planos daqui para frente? Quero continuar escrevendo. Eu gosto muito de escrever — faço relatórios, atas, documentos. Quero divulgar mais o livro, vender, distribuir. Continuarei escrevendo poesias e textos, porque isso virou uma paixão para mim. Serviço: Samuel Rodrigues Instagram: @samuelrodrigues3837 E-mail: paranamig@yahoo.com.br Valor: O livro - R$ 50,00 com o envio - R$ 58,55.
- “Ela conseguia olhar coisas coloridas”
Entrevista com Georgia Vassimon sobre sua mãe, Maria Alice Georgia Vassimon, filha de Maria Alice (foto Alderon Costa) Custódio, Cecília, Maria Alice, Ana Maria, Custódio (filho) e Maurício. Poderia ser uma foto de família. Nesta foto estão presentes os pais de Maria Alice, sua irmã e seus 2 irmãos. Depois temos a outra foto. Maria Alice Vassimon, Sérgio Gomes Vassimon, Georgia, Guilherme. Poderíamos seguir com estas fotos até chegar nas famílias dos filhos e de todos os grupos que ela de certa forma gerou: GETEP, ECOS, OCAS e tantas outras. No dia 26 de fevereiro, fez um ano que ela partiu. O jornal O Trecheiro gravou uma entrevista com sua filha Georgia Vassimon, educadora, psicopedagoga e, atualmente, parte da diretoria do Instituto Sedes Sapientiae. O Trecheiro: Quem foi Maria Alice? Georgia: A minha mãe vem de uma família com algumas posses e viviam no Rio de Janeiro. Teve uma oportunidade incrível de estudar fora. Naquela época, não era uma coisa comum. Fez o fundamental na França e teve uma oportunidade de estar nos Estados Unidos. É interessante você pensar que é uma pessoa que teve várias oportunidades. Aí resolveu casar-se com um comunista cinco estrelas (Sérgio Gomes Vassimon), que é assim que a gente brinca. Tivemos uma vida muito regrada, muito organizada porque eles eram bem certinhos nas coisas. Acho que a relação deles era uma relação muito generosa. Ela foi fazer faculdade e a gente era pequeno. Ela trabalhava numa escola e meu pai ficava tomando conta da gente. Maria Alice Logo que ela terminou os estudos, foi trabalhar no Colégio Nossa Senhora do Morumbi, que era uma escola ligada à rede do SEDES. Então fez psicodrama, montou o curso do GETEP e o próprio GETEP. Esse ano deve estar fazendo 52 anos e ela foi fundamental na construção desse espaço. Ela criou também o Caracol, que era uma escola de arte e tinha vários amigos. A minha mãe sempre foi uma pessoa que gostava de juntar pessoas. Ela foi sempre uma pessoa, eu diria, precursora. Ela montou o GETEP e a psicopedagogia do SEDES. O Trecheiro: Maria Alice também teve uma relação forte com a periferia. Ela fala dos mal vistos, dos invisibilizados. Georgia: Eu fui conversar com o psiquiatra dela do final de vida e ele ficou muito entristecido porque tinha uma conversa muito boa com ela. Ele falou assim, “Geogia, eu nunca vi alguém que se entregava na relação com o outro com tanta intensidade.” Então, acho que a minha mãe fazia isso, sim, com todo mundo, mas com uma preocupação histórica com as pessoas, sim, da periferia e, acho que aí a gente vai vendo todo o movimento dela. O GETEP já existia, teve um trabalho na favela Manoel Assom, na época. A dona Eunice era uma liderança nessa favela e a mamãe ia lá. Ela criou uma escola na casa da dona Eunice para as crianças que ficavam lá meio sozinhas. O pessoal do GETEP, como um todo, foi para esse lugar e conversava com a dona Eunice. Antes da dona Eunice ela fez um trabalho na Cidade Patriarca com mulheres. Assim, a mamãe sempre tinha esse olhar. Ela sempre teve essa coisa de ir conectando as pessoas e tirando um pouco os preconceitos. O taxista que levava ela na Ocas devia achar que ela era um pouco maluquinha, mas ele começou a olhar o mundo de outro jeito. “Puxa, que bacana que as pessoas estão mudando de vida de alguma forma, vendendo Ocas”. O Trecheiro: E o GETEP na vida da sua mãe? Georgia: Foi o momento que ela fez psicodrama. Na época, a intenção já era na direção de como a gente melhora a educação no país, de olhar para as pessoas que não tinham condições. Então, acho que esse é um lugar que ela sempre olhou. O GETEP nasce nesse desejo e ela aglutinou pessoas da época que ou fizeram o curso ou estiveram com ela de alguma maneira. O GETEP teve muito essa função de trabalhar com as equipes, com os grupos, enfim, de formar pessoas. O Trecheiro: Um aprendizado com sua mãe. Georgia: Olhar para todos de igual qualidade e uma alegria, minha mãe era uma pessoa muito alegre. Ela sempre trazia coisas muito divertidas. Ela conseguia olhar coisas coloridas. Talvez a vida fosse bem mais colorida.
- Chamada para candidaturas de vagas Cidadania Pop Rua
Chapelaria Social Irmã Alberta | Chapelaria Social Irmãs Regina e Ivete Oportunidade de trabalho A Associação Rede Rua está com 13 vagas abertas pelo projeto Cidadania Pop Rua – Chapelaria Social, em diferentes áreas de atuação. As oportunidades são para: Recepcionista (2 vagas) Auxiliar de Manutenção de Edifícios (2 vagas) Monitor(a) de Segurança (1 vaga) Agente de Limpeza (4 vagas) Administrador(a) (1 vaga) Supervisor(a) Clínico Institucional (1 vaga) Articulador(a) / Mobilizador(a) Social (2 vagas) Se você tem compromisso com os direitos humanos, sensibilidade para atuar com a população em situação de rua e deseja fazer parte de um trabalho que promove cidadania e inclusão social, essa pode ser a sua oportunidade. As vagas contemplam diferentes níveis de escolaridade e incentivam a candidatura de pessoas em situação de vulnerabilidade social, reforçando o compromisso com a diversidade e a inclusão. As inscrições vão até 14 de abril de 2026 . Para mais informações sobre requisitos, atribuições e processo de inscrição, acesse o link e leia o edital completo. Link: https://drive.google.com/file/d/1jhSlnktVWy_X_6BbdVIprn7gNeXSU7ui/view?usp=sharing As entrevistas serão agendadas na terceira semana de abril, para o início de trabalhos imediato no próprio mês de abril.
- “Não ter chave é não ter nome”
A Campanha da Fraternidade denuncia falta de moradia no Brasil que tem mais de 6 milhões de famílias sem moradia. A Campanha da Fraternidade 2026, lançada pela Conferência dos Bispos do Brasil – CNBB, em 18 de fevereiro (Quarta-feira de Cinzas), traz o tema " Fraternidade e Moradia " e o lema " Ele veio morar entre nós " (Jo 1,14). Focada na dignidade humana, a campanha denuncia o déficit habitacional no Brasil que tem mais de 6 milhões de famílias sem moradia. Pe. Alfredo José Gonçalves, que participou do Seminário de formação da Campanha da Fraternidade no dia 31 de janeiro, apontou que dos dramas de grande parte da população brasileira, uma é não possuir chave. “Não ter chave é não possuir endereço fixo, passar o dia de um lado para outro e não ter direção de ir repousar, de encontrar amigos, de onde encontrar um teto. A chave empodera. A chave nos torna cidadãos e cidadãs, declarou ele. “Não ter chave é não ter nome. Quem mora na rua não tem nome, é número”, finalizou Gonçalves. A questão da moradia é um dos grandes desafios para a superação da miséria. Com a moradia, os outros direitos ficam mais acessíveis. Segundo Benedito Barbosa, seis milhões e meio de famílias precisam de moradia. Mais de 25 milhões de domicílios no Brasil tem alguma inadequação habitacional. Para Barbosa, a questão da moradia “é uma chaga aberta no nosso país desde a escravidão e precisamos alterar essa realidade no Brasil”. Luiz Kohara, do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, destaca que “a falta de moradia desestrutura a pessoa, por isto digo que a moradia é base estruturante para a inserção social de todas as pessoas, principalmente das pessoas em situação de rua”. Evaniza Rodrigues, da União dos Movimentos de Moradia, convida todos para participarem da Campanha dos próximos 40 dias. Segundo ela, é importante que aconteça de forma muito intensa agora, mas que continue o ano inteiro. “Que a nossa campanha aconteça durante a quaresma e siga depois sendo testemunha da luta por moradia”, conclui Rodrigues. A campanha foi aberta oficialmente no dia 18 de fevereiro e vai até o dia 29 de março, quando acontece a “Coleta Nacional da Solidariedade” que deve financiar ações concretas pela moradia digna. Representantes dos Movimentos Sociais comprometidos com a CF 2026 Acesse os vídeos sobre a campanha produzidos pela Rede Rua
- Editorial: A Prefeitura de SP quer que as pessoas evaporem?
O ano de 2026 começou com a notícia do aumento da quantidade de pessoas em situação de rua em todo o país. Apenas na cidade de São Paulo, segundo dados do CadÚnico, temos mais de 100 mil pessoas vivendo nas ruas: o número mais do que dobrou em 3 anos. Destaca-se que, após pressão popular, a Prefeitura irá realizar o novo Censo PopRua, conforme determina a Política Municipal para a População em Situação de Rua. A empresa que realizará o Censo é a Qualitest, a mesma que executou os últimos dois censos, nos anos de 2019 e 2021, em que houve, inclusive, denúncias de subcontagem na pesquisa. Ainda assim, é importante que nos próximos meses teremos a contagem oficial da Prefeitura, com dados detalhados do perfil. Enquanto a gente presencia esse aumento, a Prefeitura paulistana está fechando serviços e impedindo as pessoas de ficarem paradas nas ruas, forçando um espalhamento pela cidade. Em 2025, vimos o fechamento de Núcleos de Convivência, como a Casa Franciscana e o Santo Amaro. Acompanhamos também o cancelamento da entrega de refeições na Estação Cidadania da Sé. Centros de acolhida e Repúblicas também estão sendo fechados. Sem contar o plano de encerrar os 22 Hotéis Sociais sem qualquer planejamento de abertura de novos serviços com características semelhantes para garantia dos direitos dos acolhidos. Esse plano, por enquanto, está impedido graças à Defensoria Pública de São Paulo, que entrou com ação na justiça. Até a escrita desta edição a liminar segue vigente. Nesta edição, O Trecheiro ainda traz detalhes das ações do Grupo de Trabalho PopRua (GT PopRua), vinculado à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo. Em 2025 o GT PopRua fez visitas em serviços e divulgou, em dezembro, um relatório parcial detalhando os principais problemas analisados. Em 2026 a Comissão fará mais visitas em serviços e o relatório final está previsto para o fim do 1° semestre. A equipe d’O Trecheiro seguirá acompanhando o trabalho do GT PopRua e denunciando as violências sofridas pelas pessoas em situação de rua.
- “Sem Hotéis Sociais, para onde vamos?”
Após o fechamento de Núcleos de Convivência e o fim da distribuição de refeições no centro; nos últimos meses de 2025 a população em situação de rua foi surpreendida por mais uma péssima notícia. Em informações prestadas ao Deputado Eduardo Suplicy e à Defensoria Pública do Estado (DPE), a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) afirmou que fecharia os 23 Hotéis Sociais da capital até o final do ano. Na prática, isso significaria uma redução de 2.671 vagas de acolhimento em um momento em que a rede já está sobrecarregada. É importante notar que, enquanto o município diz que tem menos de 30 mil vagas de acolhimento, os dados do CadÚnico já apontam que na cidade são mais de 101 mil pessoas em situação de rua. Além disso, a maioria das vagas dos hotéis sociais é destinada a públicos em maior vulnerabilidade, como pessoas com deficiência, idosos e famílias - para os quais a transferência para centros de acolhida convencionais, em outros territórios, seria muito prejudicial. Graças à atuação da DPE, o fato de a SMADS não ter apresentado estudos que justifiquem o fechamento, a abertura de novas vagas ou planos individualizados de acompanhamento para os acolhidos foi entendido como uma grave violação de direitos pelo Tribunal de Justiça, que determinou que os Hotéis Sociais permaneçam abertos, pelo menos enquanto estes documentos não sejam apresentados. A DPE seguirá acompanhando este caso, de forma a evitar que o fechamento dos Hotéis Sociais signifique redução da autonomia dos acolhidos
- Oficinas resgatam memórias da “Vida no Trecho”
Durante o mês de fevereiro, a equipe do Projeto Memórias de Rua, da Rede Rua, em parceria com o Centro de Memória Urbana da Unifesp, realizou oficinas semanais na Chapelaria Social Irmã Alberta, sempre às terças-feiras, a partir das 9h da manhã. As atividades reuniram conviventes do espaço para momentos de desenho e conversa sobre histórias de vida. As oficinas são um momento para resgatar memórias da vida no trecho, tanto do passado quanto do presente. Em uma das suas frentes, o projeto Memórias de Rua vem pesquisando o arquivo da Rede Rua, recuperando histórias, registros e lutas de quem já viveu nas ruas. Em outra frente, as oficinas se tornam espaço para registrar as histórias de hoje, a partir das vivências e relatos compartilhados pelos participantes, conectando, assim, passado e presente. Os encontros acontecem por meio de práticas simples e abertas à participação, como desenho, fotografia, gravação de histórias de vida em vídeo e conversas em grupo. Não é preciso ter experiência nem inscrição para participar. A iniciativa busca fortalecer a escuta, a convivência e o reconhecimento das trajetórias de vida como parte da memória da cidade. Serviço: Chapelaria Social Irmã Alberta Rua Campos Sales, 88 – Brás – São Paulo – SP A partir de março as oficinas acontecem a cada quinze dias, no período da manhã. Contato: memoria@rederua.org.br
- Dicionário da Rua: Palavras que nascem do asfalto
Por Denise Rodrigues e Rafaela Rocha A rua fala, mas quase nunca é ouvida. Fala baixo, entre buzinas, sirenes e passos apressados que desviam o olhar. Fala em códigos próprios, forjados na urgência da sobrevivência, na solidariedade improvisada e na violência cotidiana. É dessa linguagem invisibilizada, desprezada, como ruído social que nasce o Dicionário da Rua, construído coletivamente na Oficina de Escrita Popular do Centro de Convivência Estação Cidadania II. Não se trata de um exercício folclórico nem de curiosidade linguística. O que está em jogo aqui é poder. Quem nomeia o mundo tem direito à existência simbólica. Quem tem sua palavra reconhecida passa a ter um fragmento do mosaico da cidadania. O dicionário é resultado de um processo de promoção cultural e reinserção social, assim como fortalecimento da cidadania. Ao registrar termos criados e usados por pessoas em situação de rua, a iniciativa afirma algo radical em um país acostumado a descartar vidas: o saber da rua é conhecimento legítimo. Inspirada no Método Paulo Freire, a Oficina de Escrita Popular rompe com o modelo bancário de educação, aquele que deposita conteúdos prontos em sujeitos considerados vazios. Aqui, não há recipientes, há autores. Não há correção moral, há escuta. Cada palavra registrada carrega uma história, um alerta, uma memória de perda ou de afeto. A linguagem deixa de ser instrumento de exclusão e se transforma em ferramenta de reconhecimento. Na Estação Cidadania II, foi criado um espaço especial: um território onde pessoas sistematicamente silenciadas puderam falar sem pedir permissão, escrever sem pedir desculpas, existir sem pedir licença. O resultado foi um dicionário vivo, escrito a muitas mãos, que traduz o vocabulário da rua, sem julgamento e sem apagamento. Para Everton Rafael, que participou das oficinas foi um grande aprendizado. “Foi bom, cada vez a gente aprende mais com os amigos, conhecer as pessoas, como elas são", conclui Rafael. Para pessoas que tiveram seus nomes substituídos por rótulos “noia”, “mendigo”, “invisível”, escrever é um ato de reconstrução subjetiva. Ver sua palavra registrada, publicada e respeitada é recuperar algo que a rua e a sociedade insistem em roubar: a crença de que a própria vida ainda tem valor. Para Everton Rafael, que participou das oficinas foi um grande aprendizado. “Foi bom, cada vez a gente aprende mais com os amigos, conhecer as pessoas, como elas são. “E aí doido – um conhecido" - exemplifica, Rafael. Ivan, Fernanda, Denise, Rafaela e Nildes que receberam a equipe do Jornal O Trecheiro Serviço: Estação Cidadania II – Rua das Palmeiras, 490, Vila Buarque – São Paulo. A Estação Cidadania II é um projeto conveniado com a pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo da Prefeitura de São Paulo e a “Ação Retorno”, coordenado pela Pastora Nildes Neri.
- “Um anjo que surgiu nas nossas vidas”
Memória de Maria Alice, suporte e inspiração dos vendedores da Revista Ocas Maria Alice Vassimon, um ano longe de nós. Mas não parece. Temos a sensação de que ela continua muito presente. Ela nos deixou um legado que ninguém nos tira: a defesa de uma vida em que prevaleça a justiça, com muito — mas muito — amor; onde a acolhida respeitosa aconteça, onde haja alegria de viver, firmeza nas posições e ternura por todo ser humano. No dia 26 de fevereiro de 2025, recebemos uma mensagem de sua filha, Georgia: “Querido, notícia triste. Mamãe faleceu essa noite”. Um susto e uma tristeza tomaram conta de todos que souberam. Eduardo Jair Oliveira Pinto, ex-vendedor da Revista Ocas e eu fomos à sua despedida. Foi um momento muito forte, marcado pelo carinho de todos que estavam ali. Conversei com alguns vendedores da Revista Ocas, vendida nas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro, que gerava renda para pessoas com trajetória de rua. Maria Alice teve uma importância enorme na sobrevivência e até no fortalecimento do projeto. Ela cuidava, fortalecia e acompanhava voluntariamente alguns vendedores da Ocas. Aqueles que desejavam participavam, todas as segundas-feiras, de um momento terapêutico. Para Eduardo, que foi morador do Arsenal da Esperança, um albergue que acolhe pessoas em situação de rua, ter conhecido Maria Alice mudou sua vida: “Lá no Arsenal, eu vi um anúncio: ‘Precisa-se de vendedor da Ocas’. Vim para a rua Campos Sales, 88, e conheci o Marcos, que na época era atendente dos vendedores. Logo conheci Maria Alice e comecei a participar do psicodrama toda segunda-feira”, contou Eduardo. Para Sérgio Borges Carvalho, que foi vendedor da Ocas por oito anos e batalhou muito para superar suas dificuldades, aquele período foi decisivo: “Naquela época, todos os problemas pareciam ter caído nas minhas costas de uma vez só. Lutar pela vida, a gente tem que lutar para sobreviver, senão fica difícil”, relembra Borges. Na Ocas, ele iniciou um trabalho terapêutico para ajudá-lo no convívio e a melhorar suas vendas. Passou a participar dos encontros das segundas-feiras porque acreditava que ali poderia encontrar apoio para sua saúde mental. “Maria Alice sempre vai ser uma pessoa que, para mim, está viva. Maria Alice é sempre Maria Alice. Isso incentivou bastante a gente”, conclui. Walter Machado, frequentador assíduo das sessões de psicodrama que aconteciam no Centro Cultural — até mesmo antes de tentar vender a revista Ocas — passou também a participar de alguns encontros na Ocas. Sempre com presença marcante e personalidade forte, declarou: “Eu não sou terapeuta, melhor para mim, mas muita luz, Maria Alice Vassimon, na dimensão em que estiver.” Em 3 de novembro de 2025, Roberto Francisco de Oliveira Santos, vendedor fiel da Ocas, também fez sua passagem. Antes, deixou gravada uma fala sobre Maria Alice: “Eu não tenho religião, mas dizia sempre que a Maria Alice era um anjo que surgiu nas nossas vidas. Por tudo que ela proporcionou para nós, pela ajuda psicológica que nos deu. Ela também abriu o consultório dela, lá nas Perdizes, para fazer um atendimento mais individual”, concluiu Francisco. Junto com Roberto e Maria Alice, lembramos também de Pilar, Ruth e de outros vendedores da Ocas que tiveram sua importância nessa história coletiva. Maria Alice não foi apenas terapeuta. Foi ponte, foi escuta, foi coragem. Foi presença. E continua sendo, na memória viva de cada pessoa que ajudou a se reerguer. Maria Alice não foi apenas terapeuta. Foi ponte, foi escuta, foi coragem. Foi presença. E continua sendo, na memória viva de cada pessoa que ajudou a se reerguer. Na próxima edição, entrevista com Georgia Vassimon sobre a trajetória de sua mãe, Maria Alice.
- Editorial - “Nós não estamos mortos”
Arquitetura Hostil - Foto: Arquivo Rede Rua O ano de 2025 talvez tenha sido um dos mais cruéis para as pessoas em situação de rua. Não houve qualquer avanço nas políticas públicas — ao contrário, vimos retrocessos profundos em São Paulo e em tantas outras cidades do país. No centro da capital paulista, as pessoas em situação de rua simplesmente desapareceram, como se tivessem evaporado da noite para o dia. Mais tarde, fomos entendendo: estavam presas, internadas em comunidades terapêuticas, escondidas nos buracos de viadutos, empurradas para as periferias. As violações de direitos se multiplicaram: na Zeladoria Urbana, nas abordagens policiais, nos acolhimentos, e na própria rua, que devolve, diariamente, a violência que a sociedade despeja sobre quem menos tem. Não podemos nos calar sobre o que aconteceu com Jeferson de Souza, assassinado de forma brutal e covarde por dois policiais militares em 13 de junho. Para agravar ainda mais essa tragédia, por ser pobre, seu translado para Alagoas — autorizado pela Justiça após ação da Defensoria — ainda não ocorreu. Sua família ainda espera para dar a Anderson um último gesto de dignidade. Exigimos: enterro digno para Jeferson de Souza. Este foi também o ano do cercamento da cidade — com grades e flores. As grades representam uma ilegalidade flagrante diante da Lei Padre Júlio Lancellotti (Lei 14.489/2022), que proíbe a arquitetura hostil. Já as flores têm sido usadas como disfarce para burlar a lei: canteiros e estacionamentos surgem justamente onde pessoas em situação de rua buscavam abrigo contra a chuva, o sol, o vento — onde tinham, ao menos, a sensação de um teto de concreto. Os espaços de convivência e alimentação foram reduzidos drasticamente. A Casa Francisca, que atendia 350 pessoas, foi fechada. A distribuição de almoço na Estação Cidadania, que oferecia 600 refeições, acabou. O Núcleo de Convivência de Santo Amaro, que atendia 150 pessoas, também foi encerrado. Foi assim que terminamos o ano de 2025. A política de moradia não avançou um passo, a segurança alimentar e nutricional regrediu, os programas de trabalho tiveram retrocessos graves e a saúde só se precarizou com os CAPS sem estrutura e outros equipamentos de saúde que colocou a saúde mental de todos em alerta. Enfim, foi um ano duro. Duríssimo. Mas, apesar de tudo, a esperança não cala. Recebemos a mensagem de um querido companheiro do jornal, que reproduzimos aqui: “Só convidados, kits maravilhosos, festa para todo lado, carne, farofa, churrasco, kit higiene com absorvente para elas, em paróquias, evangélicas, espíritas, Centros POP, defensorias públicas, com ou sem o MNPR. Nós não estamos mortos e temos tido enormes conquistas. Até com o lixo bubônico do Bolsonaro tivemos conquistas! E ano que vem fecharemos as eleições com mais vitórias: o fim da escala 6x1, a Lei da Pop Rua e o programa de Locação Social via Lei da Função Social dos prédios ociosos”, escreveu Paulo César, o Paulo BH. Apesar de tudo, seguimos em frente porque, de fato, nós não estamos mortos. E não aceitaremos que nos matem!











